VIDAS DIGITAIS E AMORES ANALÓGICOS. E HOJE EM DIA COMO É QUE SE DIZ EU TE AMO?

Num mundo de valores líquidos onde as curtidas e comentários alimentam o algoritmo da nossa relação, dando assim a ordem delas, como se a escolha fosse apenas pela afinidade das publicações em meio digital, eu vivo o dilema de Renato Russo para entender “hoje em dia como é que se diz eu te amo?”

O ano era 1993, e aqueles jovens faziam sucesso, entendendo aquela geração antes da internet, virando hino de protesto e criando canções que embalaram muitos e muitos namoros.

A vida mudou de ritmo, as relações mudaram e logo como seria entender sua letra hoje?

“Achei um 3×4 teu e não quis acreditar que tinha sido há tanto tempo atrás.” Mudaram as nossas fotos, a forma de contar a nossa história e a forma de vermos o tempo, a métrica do tempo continua sendo a mesma, afinal após 60 segundos chegamos a um minuto, mas a angústia da era digital faz com que a nossa relação com ele seja de absurda escravidão, logo cobramos tudo bem mais rápido e ficamos impacientes uns com os outros.

“Um bom exemplo de bondade e respeito. Do que o verdadeiro amor é capaz.” Hoje temos dias em que a bondade é um belo e exuberante post, saber do que um verdadeiro amor é capaz é prova que só o tempo pode mostrar em meio aos conflitos de redes sociais tão nervosas.

“A minha escola não tem personagem. A minha escola tem gente de verdade.” Mas onde anda essa gente de verdade em meio a pandemia, onde anda essa gente que que traz a bondade no peito, que sabe que enviar um travazap é prova inequívoca da falta de respeito com o outro? Quando os pais vão ver o que os filhos estão fazendo? Quando voltam as aulas e quando volta o respeito, que faz lembrar ao outro que somos pessoas e não apenas avatares de um jogo?

“Alguém falou do fim-do-mundo. O fim-do-mundo já passou.” Não foi com o cometa Halley, não foi na profecia de Nostradamus, nem com a Covid, o fim do mundo ou as Fake News que anunciam ele, vem e voltam, digitais ou analógicas, afinal sempre haverá ingênuos e ou maldosos para acreditar no pior.

“Vamos começar de novo. Um por todos, todos por um.” A solidariedade nunca esteve tão aos nossos dedos, num simples clicar de tela do celular, mas nunca estivemos tão distantes dos mais próximos, acreditar nela e na força dessa união é e sempre será atemporal.

“O sistema é mau, mas minha turma é legal. Viver é foda, morrer é difícil.” O bom e velho sistema, sempre vai procurar o que existe de pior em nós, explorando e dividindo-nos, mas é claro que depende de cada um de nós olhar o que temos de melhor, pois viver continua sim sendo foda, ainda que Pollyannamente vamos olhar pro outro vendo nele a esperança que ele possa ter em mim, pois morrer sempre será mais difícil que viver.

“Te ver é uma necessidade. Vamos fazer um filme.” Nesse mundo cada dia mais digital, te ver sempre será uma necessidade e não importa o que as curtidas ou comentários das esdrúxulas redes sociais digam, eu quero mais do que um post ou uma fotografia, eu ainda quero fazer da nossa vida um filme.

“Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito. Chega de opressão.“ Pode o tempo passar, podem as formas de se ver e se encontrar mudarem, mas o carinho sempre encontra um jeito especial, franco e próprio de ser, seja dando liberdade que encontre no respeito mútuo o seu desenho. A diferença sempre será um diálogo, seja ele analógico ou digital, onde a opressão não tem lugar, apenas o carinho e o respeito.

“Quero viver a minha vida em paz. Quero um milhão de amigos…” No fundo entre idas e vindas, entre tantas postagens e redes sociais procuramos nelas um espaço de paz onde os sonhados milhões de amigos, nos reconheçam nela.

“E no meio de uma depressão. Te ver e ter beleza e fantasia.” E não importa em qual profundidade o estado de espírito nos jogue, desprezados, distantes, injustiçados ou incompreendidos, pela ditadura dos estereótipos digitais, te ver analogicamente vai ser sempre um sopro de busca pelo belo e pela fantasia.

“E hoje em dia, como é que se diz, eu te amo?” Não importa o tempo ou a forma, não importa se longe ou perto, se estamos juntos ou distantes um do outro, o que importa é que indiferente de ser digital ou analógico você feche seus olhos escute e responda.

Eu te amo

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