VELHAS E NOVAS FARMÁCIAS, O QUE VAI MUDAR?

As farmácias no Brasil, vem seguindo o modelo Norte americano onde se vende de tudo, até medicamento, ao contrário do modelo europeu, restritivo e zeloso na relação com o consumidor. O resultado dessa política é visto nas nossas ruas onde as lojas, seguramente as farmácias, lideram a ampliação dos espaços físicos. Redes tornaram-se gigantescas e tem faturamento e resultado digno dos grandes magazines. 

Algo definitivamente está errado na saúde brasileira, quando os laboratórios farmacêuticos têm lucros semelhantes aos grandes bancos e as farmácias crescem em ritmo chinês. Alguém está pagando a conta e isso é muito fácil de ver através do preço dos medicamentos no Brasil e do número de farmácias disputando o mesmo cliente. Só para um exercício de comparativo um litro de dipirona sai por R$ 621,00 em promoção. Isso mesmo um genérico para dor de cabeça custa o equivalente aos mais caros vinhos do mundo, o que subverte a lógica em um país onde mais de 1/3 de toda população vive abaixo da linha da pobreza. E o que o futuro nos espera nesse setor?

Se consideramos que tratamos da venda de produtos por prescrição médica, seremos levados a muitas perguntas: Tomamos mais remédios do que precisamos? Qual a razão de pagarmos tanto por nossos medicamentos? Para todas essas perguntas a resposta será uma, pagamos por tudo isso, literalmente com a nossa saúde, pois nossos medicamentos são mais caros.

Os recentes movimentos da Amazon nessa área, mais uma vez ela, parece estar antecipando uma futura disrupção. Hoje fazem dois anos que a gigante do comércio eletrônico adquiriu a PillPack por pouco menos de um bilhão de dólares e resultou em quedas acentuadas no valor das ações de empresas como CVS, Walgreens Boots ou Rite Aid. PillPack, que também estava negociando com o Walmart e era apenas uma startup pouco conhecida pelo público em geral, tinha sido licenciada para vender medicamentos prescritos em todos os estados americanos e além disso era um serviço projetado do zero para ser digital, uma situação que poucos de seus concorrentes poderiam sequer considerar ser.

É evidente que a distribuição tradicional de medicamentos não corresponde ao perfil clássico da indústria propícia para a disrupção, eles não são especialmente desatualizados, geralmente têm sistemas logísticos muito bons, completamente digitalizados e modernos e exceto para as partes de seus negócios que têm a ver com a conexão com a administração, que não prejudicam tanto o usuário quanto para a gestão do tesouro das próprias farmácias, evoluíram significativamente ao longo dos anos, mas como tal, mantêm em muitos casos, a rigidez que determinam, por exemplo, o número de farmácias que podem estar em uma determinada cidade ou bairro ou seus horários, e acima de tudo, pertencem a uma categoria de produtos que, na grande maioria dos casos, não nos faz uma ilusão especial de sair para a rua para comprar. A grande maioria das visitas à farmácia é para obter algo que poderia perfeitamente salvar os obstáculos administrativos, chegar em casa em um pacote. Ou seja, como criar um modelo disruptivo em um setor tão competitivo?

A entrada de players tecnológicos como a Amazon, deve representar a digitalização completa do sistema para poder prestar o serviço pela rede, o que não é particularmente complexo, basta verificar a prescrição e processá-la corretamente, um processo não simples ou imediato, mas mais gerenciável e ainda mais por alguém com as alavancas certas para isso. As possibilidades de melhorar o serviço prestado através do perfil do cliente, gerenciar seu inventário, agrupar tratamentos para melhorar a adesão e reduzir a confusão, ou gerenciamento de margem faze com que os preços possam oferecer muitas vantagens para uma gigante como a Amazon, com mais experiência do que qualquer outra empresa no ambiente de e-commerce, além de reduzir o atrito em um processo que a maioria dos usuários tende a encontrar, geralmente não muito conveniente.

A empresa introduziu sua farmácia no final de 2019 e recentemente registrou essa marca em um grande número de mercados onde está presente, ou seja, Austrália, Brasil, Canadá, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Índia, Israel, Japão, México, Reino Unido, Cingapura, Taiwan, Turquia e União Europeia.

O esforço no registro dá uma ideia do caminho que a Amazon deve seguir oferecendo medicamentos prescritos por meio de seu serviço, algo que a empresa já estaria preparando a infraestrutura de equipamentos humanos correspondentes e procedimentos administrativos.

O que vamos ver é apenas um aprofundamento, dos diversos canais de varejo, no pleno ataque ao comércio de rua. Se você não tinha imaginado fotografar suas receitas, digitando seu código em seu computador, recebendo-as diretamente eletronicamente, com atendimento ao cliente online 24 horas e com pacotes de pílulas chegando à sua porta, comece a imaginá-lo. E se você gosta disso, comece a pensar em como a adoção de um sistema desses usuários funcionará quando for lançada, e qual a porcentagem de suas vendas atuais será transferida para esse canal. Temo que não será pequeno. 

É evidente que em breve, médicos e profissionais de saúde, terão um sistema de gestão gratuito para seus consultórios oferecido pela Amazon, interligado a gestão do seu histórico de paciente e das suas inúmeras compras, logo, indicar e sair do consultório com o remédio e o possível pedido do medicamento, devidamente parcelado, junto com a consulta, será um passo natural, porém que exige um cuidado gigante para não se atravessar a fina linha da ética que deve reger essa relação, onde os profissionais de saúde devem fazer parte da sua cura e não apenas do seu tratamento.

É preciso atenção dos nossos legisladores no regramento dessas relações, onde todo cuidado é pouco.

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