VAMOS INVESTIR NO METAVERSO?

Quando uma plataforma digital muda resolve mudar seu nome para “Meta” e dedicar parte considerável dos seus investimentos para desenvolver o Metaverso, é preciso prestar atenção ao que ele representa.

Mesmo que saibamos que existe uma estratégia milimetricamente estudada pelos departamentos de marketing combinada com os assessores legais, e já prevendo novos embates jurídicos para o Facebook, o nome e o que ele representa já merece atenção.

O termo Metaverso foi cunhado em 1992 em um romance de ficção científica de Neal Stephenson, onde se refere a um espaço virtual compartilhado por humanos e “demônios” digitais. Ainda que Stephenson tenha afirmado que estava apenas “fazendo merda”, tecnólogos, incluindo o designer do Google Earth e da Amazon, admitiram ter sido inspirados pelo livro.

No último ano, o termo Metaverso entrou em nossas vidas com o novo nome do Facebook, Meta, que pretende ser o primeiro criador de um mundo virtual tridimensional. Isso nos leva a pensar em como a ficção científica influencia as inovações tecnológicas do mundo real.

Na China, autores de ficção científica, que recentemente aumentaram em popularidade, estão sendo agora, tratados como oráculos que podem ajudar a prever as mais recentes tecnologias. Um deles é Chen Qiufan, autor de “O Peixe de Lijiang” (que é sobre um drone “queimado” que visita um resort de férias para obter uma desintoxicação tecnológica e descobre que não há como desligar) e que o tornou famoso dentro e fora da China, afinal viagem pouco é bobagem, mesmo para cautelosos orientais.

Chen, que trabalhou nas equipes de marketing do motor de busca chinês Baidu e no Google, diz que o governo chinês começou a promover a ficção científica como uma ferramenta para popularizar a ciência e a tecnologia entre os jovens, uma ideia emprestada da antiga União Soviética, esses comunistas danadinhos (nada como alimentar as bolhas delirantes dos adeptos das teorias da conspiração).

Porém, todos esses especialistas em tecnologia que imitam a arte para criar uma vida real estão esquecendo algo importante. O objetivo da ficção científica, como toda ficção, não é prever o futuro, mas nos ensinar o que realmente significa ser um ser humano em um mundo em mudança. E essa é uma lição que os inovadores de hoje ainda não aprenderam. Toda tecnologia deve seguir a um propósito sempre maior, a melhoria da vida da humanidade, e não apenas aos resultados corporativos de poucos privilegiados.

Esse futuro universo, Metaverso, deve movimentar cerca de US$ 800 bilhões até 2024, e certamente transformará todas as indústrias, levará a novas oportunidades de negócios e poderá se tornar uma área interessante para investir. Como pode ser exemplificado por essas três iniciativas abaixo:

  1. . A maior aposta é a de Mark Zuckerberg, que busca dominar este mundo do futuro com seu novo Meta holding. O proprietário do Facebook já tem 10.000 pessoas trabalhando em projetos de realidade aumentada e comprometeu US$ 10 bilhões anualmente em investimentos relacionados ao metaverso.
  2. A Microsoft decidiu que seu serviço de equipes para reuniões se tornará sua porta de entrada para o Metaverso. A empresa de Bill Gates quer que todos os participantes da reunião possam estar presentes sem fisicamente, através de avatares personalizados e espaços imersivos que possam ser acessados a partir de qualquer dispositivo. Vamos parecer desenhos animados.
  3. Walt Disney, pretende criar um Metaverso temático da Disneylândia. Em seus parques, os mundos físico e digital convergirão para imergir os clientes em seu universo e fazê-los viver experiências únicas.

Amazon, Epic Games -dona do famoso jogo fortnite-, Sony, Unity Software, Roblox, Zynga e Nvidia são outras empresas que também apostam no Metaverso.

Mark Zuckerberg vê o futuro do Facebook, e logo os escândalos em que o facebook está envolvido, certamente são um senhor empurrão para essa escolha oportuna e estratégica. Nesse momento os críticos do Facebook acreditam que é uma operação cosmética de Zuckerberg distanciar sua empresa da última onda de escândalos.

Os executivos do Face, estão convencidos que o Metaverso será a nova grande plataforma de Internet, um ambiente cuja construção completa que pode durar até 15 anos. Certamente o Metaverso não vai substituir o mundo físico, mas permitirá que o tempo que estamos online seja melhor. Podemos nos encontrar, brincar com amigos, trabalhar, criar e muitas outras experiências novas, como teletransportar com um holograma.

Os desafios não são apenas tecnológicos, pois qual o regramento atual para os limites dessa tecnologia, não com o propósito de freio e de cautela?

No livro “A Tecnologia e o Fim do Futuro”, James Bridle, lembra que “A tecnologia não emerge do vácuo. É, isso sim, a reificação de um conjunto particular de crenças e desejos: as disposições congruentes, mesmo que inconscientes, de seus criadores. A qualquer momento ela é montada a partir de uma caixa de ferramentas de ideias e fantasias desenvolvidas ao longo de gerações, através da evolução e da cultura, da pedagogia e da discussão, infinitamente emaranhada e envolvente.”

Sempre existe o elemento cultural no desenvolvimento de uma nova tecnologia, não basta investimento financeiro (é obvio que ele serve para dar o primeiro empurrão), mas sem o elemento cultural aquele novo produto ou serviço não decola.

Existe já oportunidades para se investir em empresas que tratam do Metaverso. Mas afinal você pode investir no Metaverso? Não existe, é apenas um conceito, um mundo virtual, paralelo ao real, mas pode ser investido indiretamente. Além do Facebook, analistas do Bankinter apontam para outras doze empresas “satélites” que querem participar de seu desenvolvimento.

O conceito Metaverso permanece apenas uma ideia no papel sem qualquer desenvolvimento tangível. Ou seja, é uma tecnologia que (por enquanto) não existe, apontam na empresa.

O que o Metaverso quer ser? Um mundo virtual, paralelo ao real, onde os usuários podem projetar sua própria vida e relacionamentos. Desde os conceitos mais básicos (nome e aparência física) até habilidades e profissão do “caráter” no Metaverso. Neste mundo, poderiam ocorrer atividades profissionais (trabalho virtual) e transações comerciais (compras para essa vida virtual). E qual é o propósito do Metaverso? Crie um ambiente comum para outros tipos de conceitos tecnológicos que já existem, mas que sua aplicação é muito complexa no mundo real.

O Bankinter, em uma reportagem publicada no jornal Espanhol “Expansion”, oportunidades de investimento em três áreas:

  1. Desenvolvimento de software (ambientes virtuais);
  2.  Componentes de hardware (semicondutores e processadores);
  3. Acessórios de realidade virtual, como óculos de visão 3D.

Para os advogados podemos ter novas figuras curiosas como audiências no Metaverso, ou a simples assinatura de contratos nesse ambiente.

Recentemente a Microsoft apresentou o Mesh, um recurso que vai permitir, já em 2022 a realização de reuniões virtuais na plataforma Teams com o uso de avatares 3D que poderão interagir entre si.

Logo fica claro que será possível realizar negócios jurídicos no metaverso, como celebrar contratos, entre outras formalidades respeitados alguns requisitos.

Afinal o nosso Código Civil, prevê em seu artigo 104, para que o negócio jurídico seja válido, é preciso haver: 1) agente capaz; 2) objeto lícito, possível, determinado ou determinável; e 3) forma prescrita ou não defesa em lei. Com isso a delimitação de licitude, possibilidade e determinação do objeto não cria grandes dúvidas, de que posemos sim utilizar o Metaverso entre as partes para a celebração de um contrato, na medida que nosso ordenamento atual não proíbe.

Recordo também que uma das ferramentas já utilizadas, que dá garantias de identidade na celebração de um contrato é a assinatura eletrônica ou a assinatura digital, esta última realizada com o uso de certificado digital emitido pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil), o que confere validade no mundo real a essas assinaturas feitas no ambiente digital, o que de certo modo vira um requisito para essa forma de celebração contratual no Metaverso. Os meios digitais já disponibilizam uma série de ferramentas para celebração e avanço nesse novo mercado que vai dar dinâmica, flexibilidade e velocidade para muitos atos negociais. E isso é apenas o começo.

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