UBER, TURISMO OU TRABALHO?

Na Economia da Desatenção, um traço cada vez maior será a concentração em players tecnológicos, e o transporte é o melhor exemplo.

Plataformas como o Uber, querem transportar você, seja para o trabalho, lazer ou levar sua refeição, com ou sem motorista em breve. Tente imaginar o que melhorou o transporte de passageiros depois do surgimento de plataformas como Uber, Cabify ou 99? O que o serviço de taxi ou motoboys melhoraram depois do surgimento dessas plataformas seus concorrentes diretos? Os motoristas de táxis ficaram mais gentis? O serviço de taxi melhorou seu preço? Veja que essas questões não são formuladas por paixão aos bons serviços prestados pelas plataformas mas para reflexão do que mudou na cultura dos velhos modais com a concorrência digital? O que fizeram os dinossauros além de reclamar, se reinventaram? Claro que não e o resultado é que as plataformas que já nasceram grandes com os poupudos financiamentos dos fundos de venture capital, agora são gigantes mundiais com suas ações na bolsa de valores, e crédito farto, barato e disponível para ampliação de produtos e novos serviços, e como concorrer? Não mais, não existe a menor possibilidade de concorrer, apenas de desenhar o setor por nichos, e é isso que os velhos serviços de táxis ainda por um período curto poderão ser, nichos logísticos com papel cada vez mais secundários. Pense no que aconteceria nas grandes cidades se os serviços de táxis resolvessem fazer uma greve por conta das suas tarifas? Nada absolutamente nada além do aumento da demanda para os aplicativos de logísticas.

Na lógica das plataformas, o Uber pretende ser seu operador logístico para absolutamente tudo, e por isso lançou nesse mês na Europa seu serviço de turismo intitulado Uber Explore, mais um serviço que vai redesenhar um setor, logo tente imaginar o impacto nos serviços de agências de viagens ou no serviço de vans?

Lembro que é uma segunda tentativa, pois a empresa há oito anos desembarcou em Madrid, sem controvérsias, como uma empresa VTC (veículo turístico com motorista), vem crescendo nos últimos anos expandindo seus negócios, desde a aposta na entrega de comida em casa, com a plataforma Uber Eats, até a possibilidade de seus usuários reservarem táxis do mesmo aplicativo ou patinetes e bicicletas elétricas, na lógica multimodal de logística transportando tudo, todos e de todas as formas.

Agora, alguns meses depois de lançar o serviço nos Estados Unidos, a Uber anuncia o desembarque na Europa do Uber Explore, começando por Madri. Dentro do mesmo aplicativo de reserva de viagens dirigido por motoristas da empresa, os usuários poderão acessar o Explore para ver informações sobre atividades de lazer e tempo livre, reservar restaurantes e comprar ingressos para musicais, shows, shows e experiências. Dessa forma ela concorre não apenas na logística mas com ticketeiras que vedem ingressos e com empresas como o Ifood.

Da mesma forma, o Explore funcionará de forma personalizada para cada usuário, dependendo de suas pesquisas e reservas anteriores e também se tornará uma opção para acessar descontos exclusivos em reservas para este tipo de atividades de lazer.

Com a chegada do Uber Explore na Europa, e após o lançamento do Uber Travel nos Estados Unidos e no Reino Unido (solução que unifica todas as informações de viagem no mesmo aplicativo), a empresa pretende se tornar o aplicativo de referência para lazer e turismo nas mais de 10.000 cidades em que já atuam, e como concorrer com isso?

Os passos da Uber nos últimos meses para avançar em seu objetivo de ser um aplicativo focado em turismo em todas as suas facetas está se movendo muito rápido. Após o lançamento do Travel em alguns mercados, a empresa lançou em fevereiro na Espanha (no momento apenas em Madri) seu serviço de Reserva para viagens originárias do aeroporto de Madrid-Barajas e Uber Black Hourly, um serviço de transporte por hora premium para viagens com várias paradas, execução de tarefas ou até mesmo como um hop-on-hop-off para os visitantes da capital espanhola.

Agora, com o Explore, a empresa de transporte busca se estabelecer como mais uma opção para descobrir e reservar shows e restaurantes. Este serviço foi lançado ontem na capital espanhola, mas as várias funcionalidades do Uber Explore estarão disponíveis gradualmente nas próximas semanas.

Durante a pandemia, o Uber se reinventou, após ficar premido pela queda de receitas no transporte de pessoas, o aplicativo acelerou suas aquisições no segmento de entrega de refeições, a Uber não tirou o pé do acelerador nas suas aquisições e inclui entre as suas novas joias mais uma empresa de entrega de refeições, a Postmates, quarta maior empresa do setor nos EUA.

De acordo com dados da empresa de análises de pesquisa Edison Trends, o resultado da fusão entre Uber e Postmates passou a controlar cerca de 37% do mercado nacional americano, em relação aos 45% da DoorDash, ou seja, vale ao Uber a vice liderança de um mercado gigantesco e que só deve aumentar com os anos.

Mas o que faz o Uber acelerar a sua participação no mercado de entrega de alimentos para casa? O nome disso se chama COVID-19, é por conta dele que é preciso dar solução para a elevada queda no seu principal negócio, o transporte de pessoas, catalisada pelo confinamento, e que após o período mais crítico da pandemia redesenhou o mercado de refeições com mais pessoas utilizando o serviço e com o crescimento acentuado do trabalho hibrido.

Logo em tese um negócio ajudou no momento de queda do outro, porém isso tem seu preço. Se consideramos que um negócio vai ajudar nos números do anterior devemos levar em consideração que a conta não é exatamente essa, pois assim como foi preciso vencer culturalmente a resistência de taxistas e usuários do serviço, o Uber Eats está chegando depois de muitos players no mercado de entrega de comida, e quem chega depois tem uma conta mais salgada pra pagar, que leva o nome de compra de mercado.

Tendo o próprio o Uber Eats como referência, a plataforma perde atualmente de US$ 3,36 em cada pedido, esse número é para o mercado nos EUA, e isso não deve mudar no curto prazo, perder hoje para recuperar na frente exige que a estrutura de capital precise aguentar o tranco, que não é pequeno.

Se dá prejuízo, então porque continuar? Qual o sentido da expansão que perde a cada dia mais quando se expande? O que vimos é um filme repetido que só se mantém com estruturas de capitais gigantes dispostas a perder dinheiro por muitos anos. Algo é claro que só é possível graças a escala e ao financiamento barato das plataformas e assim novos serviços quebram setores tradicionais.

Pressões sociais, como na greve dos entregadores e motoristas de carros, prejuízos nas corridas subsidiadas, tudo segue a lógica desse negócio, impensável na economia tradicional. Tudo à espera do veículo autônomo? Da entrega por drone?

Resta saber se teremos acionistas e fundos de investimento suficientes para segurar esse negócio, que quer ser a sua solução logística pro seu transporte, para a sua refeição e para o trazer e levar suas encomendas, pra isso estão dispostos a muitos anos de prejuízo, em busca de um lugar na sua carteira lá na frente.

Um desafio para poucas empresas e cada vez mais raros bolsos de investidores que investem hoje de olho de um amanhã ainda distante.

São desafios financeiros e legais na busca de um novo marco regulatório dessas relações que reestruturam o mercado.

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