TURISMO ESPACIAL, UM CAPRICHO DE RICOS?

No último dia 20 de julho a nave New Shepard decolou com sucesso às 10h12. Bezos e o restante da tripulação atingiram o ponto mais alto de voo por volta do mesmo horário e os paraquedas foram ativados para retorno aterrisagem às 10h21. Houve contato com os tripulantes durante o voo em zero gravidade. A cápsula com os quatro passageiros pousou às 10h22.

Antes mesmo da decolagem, e acompanhando a concorrência entre Bezos, Branson e Musk um enorme coro de críticos questionou e continua questionando, se essa corrida pelo turismo espacial não seria nada além de um capricho de milionários? Essa mesma pergunta foi formulada diretamente a Jeff Bezzos em uma entrevista um pouco depois durante uma entrevista para CNN americana:

Esse dinheiro não poderia ser utilizado para resolver os problemas atuais do planeta?  De forma muito direta, o fundador da Amazon disse: “Bem, eu digo que eles estão amplamente certos. Temos muitos problemas aqui e agora na Terra e precisamos trabalhar nisso. E sempre precisamos olhar para o futuro. Sempre fizemos isso como espécie, como civilização. Temos que fazer as duas coisas”, disse o bilionário. Bezos defendeu que a missão espacial é sobre “construir uma estrada para o espaço para que as próximas gerações façam ‘coisas incríveis’ lá, que sejam capazes de resolver problemas da Terra”.

Bem antes de me aprofundar nessa respostas queria destacar que que nessa nova corrida espacial, Bezos, Branson e Musk disputam a liderança e investem bilhões. O fundador da Amazon já mencionou investir cerca de 1 bilhão de dólares por ano na Blue Origin. Richard Branson, que foi o primeiro bilionário a ir para o espaço, gastou mais de 1 bilhão de dólares de sua fortuna pessoal numa empreitada que ele começou há 17 anos. Já Elon Musk, que tem planos de levar humanos para Marte até 2024, deve ir para o espaço, mas não pela sua empresa, a Space X. O dono da Tesla reservou uma vaga para viajar pela Virgin Galactic, empresa espacial de Branson.

Durante anos, executivos da Virgin Galactic disseram que um importante passo ao longo do caminho de oferecer voos de turismo ao espaço seria enviar o fundador da empresa, Richard Branson, de 70 anos, em seu próprio voo de teste.

Anteriormente, no domingo dia 11, Branson voou até a borda do espaço sideral no avião espacial VSS Unity da Virgin, uma viagem que foi cuidadosamente programada para acontecer menos de duas semanas antes que o fundador da Amazon, Jeff Bezos, fizesse sua própria viagem.

Branson e Bezos veem seus voos como o início de uma nova etapa nas viagens espaciais comerciais. Mas a Virgin Galactic foi pioneira na indústria espacial de outras maneiras também. Em 2019, a empresa abriu o seu capital por fusão com uma sociedade de aquisição de propósito específico, ou SPAC, cujas ações já eram negociadas em mercados públicos.

Para muitos foi um uso precoce de uma ferramenta financeira até então obscura que desde essa época se tornou uma forma popular para empresas de risco acessarem investidores do mercado público antes de serem realisticamente capazes de realizar uma oferta pública inicial tradicional, o que nesse momento já foi feito por centenas de empresas de tecnologia. 

Outras empresas espaciais continuam a fazer projeções otimistas que nem sempre podem cumprir. Por exemplo, o provedor de transporte espacial Momentus, que dá um toque extraterrestre aos chavões da indústria de tecnologia terrestre para oferecer serviços como “entrega de última milha no espaço”, “lançamento de compartilhamento de transporte” e “satélite como serviço”.Em outubro, anunciou que se fundiria com a SPAC Stable Road Acquisition em uma transação avaliada em US$ 1,2 bilhão e previu uma receita de US$ 19 milhões para 2021.

A AST SpaceMobile, por exemplo, planeja vender serviço de internet banda larga via satélite para smartphones e diz que não terá nenhuma receita até 2023. Sendo que em seu site, alerta os investidores que aprenderão pouco sobre a tecnologia em si, dizendo que é “altamente patenteada, e por esta razão, a forma como funciona não pode ser divulgada”.

A Virgin parece pensar que o voo de Branson mostra que é possível manter os investidores animados sem ganhar dinheiro. Depois que pousou, a empresa entrou com um pedido de venda de até US$ 500 milhões em ações.

Mas o preço das ações da Virgin caiu imediatamente após a divulgação da venda, o que serviu como um lembrete de que a empresa ainda precisa gastar antes de começar a fazer dinheiro. A competição não é à toa: atualmente, a indústria espacial global tem receita avaliada em 350 bilhões de dólares e a expectativa é que o mercado da exploração espacial ultrapasse 1 trilhão de dólares em 2040, de acordo com dados da Morgan Stanley, o que pode ser uma parte da resposta aquilo que muitos acreditam ser um capricho de milionários.

Nessa nova corrida espacial, as coisas são bem diferentes, pois hoje o voo espacial começa a ser visto mais e mais como uma opção que pode ser comercializada, visto que para os fundadores da SpaceX, Virgin Galactic e Blue Origin, tornar sua empresa pioneira neste vasto mercado na próxima década fará toda a diferença. O primeiro passo? Turismo espacial, esse “capricho de ricos”.

Já o terceiro personagem dessa corrida, Elon Musk, acaba de realizar um contrato milionário entre a SpaceX e a Nasa, numa disputa direta contra a Origin e a Galactic. A empresa irá construir a nave para a missão Artemis, cujo objetivo é enviar a primeira mulher e a primeira pessoa negra à Lua em 2024. A SpaceX não está fora do turismo espacial e tem planos de realizar o primeiro voo ainda em 2021.

Como se sabe a Nasa tem feito parcerias com empresas desde o seu início, na década de 60. A maneira como é diferente agora é que, em vez dela contratar empresas para construir coisas que seriam inteiramente da Nasa, ela compra os serviços destas companhias, são novos tempos, que exigem flexibilidade.

Antigamente, só as agências eram capazes de colocar pessoas em órbita, mas isso está mudando. Em vez de ser como na era Apollo, na qual o hardware era construído por empreiteiros para a Nasa, agora ela está comprando serviços de empresas e criando parcerias.

E como ficam os russos, precursores dessa corrida espacial considerando que todas as empresas que tratamos até aqui ficam nos EUA? E os Chineses como ficam também?

Nesse instante a Rússia continua a ser parceira da Estação Espacial Internacional (ISS). Por muitos anos, ela foi a única organização que lançava pessoas para a ISS, logo, curiosamente a Nasa costumava comprar voos dos russos para levar os astronautas[americanos], fico imaginando os terraplanistas lendo essa parte do texto. Isso mesmo a Nasa trabalhava com os comunistas, tanto no governo de Trump quanto no de Obama. Agora você terraplanista já pode pensar em fazer as pazes com aquele seu amigo do grupo de futebol que toda vez que discorda do nosso presidente é chamado de esquerdista por você, vamos rir pra não chorar.

Porém destaco que isso só mudou no ano passado, uma vez que que a SpaceX foi capaz de transportar profissionais e parceiros internacionais da Nasa. Agora, a Rússia pode liberar alguns de seus assentos em seus voos para enviar outras pessoas (turismo russo). Por isso ela está enviando agora, por exemplo, uma atriz e um diretor de cinema para filmar um filme na ISS até o final do ano. Eles não podiam fazer isso antes, porque estavam ocupados enviando os astronautas da Nasa.

Quanto aos chineses, eles possuem uma nova estação espacial que acaba de lançar sua primeira tripulação. Eles também estão fazendo parceria com colaboradores internacionais.

Sem dúvidas existe confusão quando o assunto é calcular o que é a indústria espacial, porque não há nenhum acordo quanto ao que seja exatamente, mas uma coisa é certa o Brasil pode participar desse segmento que pode nos trazer muitos dividendos e principalmente empregos para mão de obra qualificada.

Mas isso é coisa de ricos? Bem o início de uma nova tecnologia, sempre se dá pelos ricos, por razões obvias. Foi assim os primeiros passageiros das companhias aéreas, os primeiros usuários de telefones celulares, carros híbridos, entre tantos outros exemplos, pois toda nova tecnologia começa com valores elevados.

Mas gostaria de utilizar nesse artigo, uma ótima reflexão feita pelo Felippe Hermes, em artigo publicado no infomoney.com.br sobre esse assunto e fazendo um paralelo com Santos Dumont.

Foi “Um milionário extravagante, Santos Dumont, ter inventado o avião, seguimos acreditando que viagens espaciais são uma mera brincadeira de gente rica. Aos olhos de hoje, é possível que Dumont, porém, não passasse de “um rico extravagante brincando de aviãozinho”, como são chamados Elon Musk e Jeff Bezos.

De fato, pouco após se mudar para Paris para estudar, aos 21 anos, seu pai acabou falecendo e lhe deixando parte de uma herança que, em valores de hoje, somaria algo como US$ 300 milhões, e foi justamente com esses recursos que, não apenas sua educação, mas seus modelos de balões e aviões, foram financiados. Ou você acha que tinha algum banco amigo? O fato de ter herdado uma quantia mais do que razoável para se sustentar e poder investir em sua paixão faz de Santos Dumont um espécime completamente distinto de suas contrapartes americanas, os irmãos Wright.

Orville e Wylbur Wright trabalharam em seu projeto de avião mantendo “segredo industrial” sobre sua invenção, pois o objetivo dos irmãos, ao contrário de Dumont, era bastante claro: patentear e vender a inovação para o governo americano, e assim, tornarem-se ricos.

Ao contrário deles Dumont, publicou seus modelos em revistas, permitindo que qualquer um pudesse criar um modelo como os seus e voar.

Jeff Bezos, Elon Musk e Richard Branson, assim como Dumont, são todos ricos e têm na exploração espacial uma paixão pessoal. Mas, como os Wright, todos possuem alguma intenção comercial por trás.

Felipe lembra que “Bezos já foi ridicularizado em matérias de revistas americanas por “investir em foguetinhos”, enquanto sua ex-esposa se tornava uma das maiores filantropas do planeta, doando bilhões de dólares para causas ligadas a Covid-19 e aos direitos humanos (ironicamente, Bezos liderou a lista de maiores filantropos naquele ano).” Claro que as obras sociais e feitos nobres desaparecem na fogueira de vaidades e ódios de muitas redes sociais.

Pense nos números, desse novo segmento, pois só nos Estados Unidos, há 8 milhões de milionários. Se cada um deles decidir pagar US$ 100 mil para conhecer o espaço, estamos falando de algo como US$ 800 bilhões em um mercado endereçável, sendo que nesse momento esse mercado já está estimado em US$ 30 bilhões por ano, além do mercado de nano satélites que já abordei em outros artigos.

Há inúmeros exemplos ao longo da história de tecnologias que nasceram como “algo restrito aos muito ricos”, e que se tornaram banais mais tarde. Vestir sapatos, usar talheres ou comer carne já foram hábitos de ricos.

Justamente por isso achamos natural que o governo brasileiro tenha investido US$ 10 milhões por uma carona de um astronauta tupiniquim em uma nave russa, mas condenamos uma empresa privada por vender uma experiência por uma fração deste valor. Isso mesmo colocar o nosso, hoje ministro da ciência e tecnologia no espaço custou aos cofres do contribuinte brasileiro em valores de hoje cerca de R$ 55 milhões, e o triste é que ele entrou com o pedido de aposentadoria pouco tempo depois.

Em suma, não é difícil perceber que a causa central das críticas esteja não no empreendimento em si, algo mais banal do que o teor futurista aponta, mas nas pessoas envolvidas, pois no geral somos bem rigorosos com os bilionários e milionários distantes, e muito pouco críticos com as nossas próprias extravagâncias, e logo não questionando o valor dos vinhos sofisticados que muitos de nós bebemos, mesmo diante dos miseráveis que batem no vidro do carro.

É um desafio permanente diminuir a desigualdade e principalmente reduzir os privilégios que na maioria das vezes são pagos pelos bolsos dos contribuintes para poucas categorias de servidores, é obvio que esses beneficiados, dão um outro nome pra isso, bem mais bonito né? “Conquistas sociais ou direitos adquiridos” quase sempre viram sinônimos de muitos privilégios, e para esses nossa crítica quase sempre é mais branda.

Lembro que, Thomas Piketty, em sua obra, O capital no século XXI, analisou a crescente disparidade de posses entre uma minoria de muito ricos e o resto do mundo. Nos Estados Unidos, em 2014, o 0,01% mais rico, que consiste em apenas 16 mil famílias, controlava 11,2% de toda riqueza, o que pode ser comparado a 1916, época da maior desigualdade mundial. Hoje o mesmo 0,1% detêm cerca de 22% da riqueza total, o mesmo que 90% de toda população na base da pirâmide, sendo que igual distorção não é muito diferente na Europa.

Os números nos levam a uma inversão da ideia que se costuma ter de progresso, na qual o desenvolvimento social leva inexoravelmente à maior igualdade. Desde os anos 1950, como bem destaca, James Bridle, na obra “A nova idade das trevas: A tecnologia e o fim do futuro”, os economistas acreditam que, nas economias avançadas, o crescimento econômico reduz a disparidade entre ricos e pobres. Conhecida como Curva de Kuznets, o nome do inventor e vencedor do Nobel, essa doutrina afirma que a desigualdade econômica começa a crescer quando uma sociedade se industrializa, mas depois cai conforme a difusão da educação equilibra o jogo e resulta em maior participação política. E assim decorreu, pelo menos no Ocidente, durante boa parte do século XX. Mas não estamos mais na era industrial, e, segundo Piketty, a crença de que o progresso tecnológico levará ao “triunfo do capital humano sobre o capital financeiro e imobiliário, dos executivos mais habilidosos sobre os grandes acionistas, da competência sobre o nepotismo” é “em grande parte ilusão”. Na verdade, a tecnologia é a condutora elementar da desigualdade em vários setores. O progresso implacável da automação, de caixas de supermercado a algoritmos de transação financeira, de robôs em fábricas a carros com direção automática, cada vez mais ameaça a empregabilidade humana no panorama geral. Não existe rede de segurança para aqueles cujas habilidades são obsoletadas pelas máquinas, e nem aqueles que programam as máquinas estão imunes.

Os tempos avançam e o desafio distributivo permanece, seja com vinhos caros ou com viagens ao espaço, o desafio de fazermos um mundo mais justo e com mais oportunidades se mantem, ontem, hoje e amanhã.

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