TURING, TECNOLOGIA E AS PESSOAS COMO DETALHE

São poucas as invenções ao longo da história da humanidade que isoladamente conseguem acontecer sem a soma de dezenas ou milhares invenções, criações e estudos que lhe servem de base, nem algo simples e revolucionário como a roda, só aconteceu com o exercício de ferramentas já inventadas, ainda que rústicas e sem uma série de propósitos, ou seja necessidades, e claro o tempo que é a moeda de muitos desenvolvedores, logo a roda que produz riqueza preciso de tecnologia (ferramentas), escala (vinda da necessidade) e capital (tempo empregado).

Assim incorporamos soluções tecnológicas em nossas rotinas sem ao menos perceber o conjunto de invenções e estudos que servem de alicerce como na incorporação rotineira dos nossos computadores.

Como destaca Stuart Russel no seu livro, “A Inteligência Artificial a Nosso Favor”, De maneira geral estamos tão acostumados aos computadores que mal nos damos conta do seu poder absolutamente incrível. Se você tem um laptop, um desktop ou um smartphone, dê uma olhada nele: uma pequena caixa onde se podem digitar caracteres.

Digitando apenas cria-se um programa capaz de transformar a caixa numa coisa nova, talvez uma coisa que sintetize magicamente imagens de navios batendo em icebergs ou planetas alienígenas com uma gente alta e azul; digite um pouco mais, e ela traduz do inglês para o chinês; mais um pouco e escuta e fala; mais ainda, ela derrota o campeão mundial de xadrez.

Essa capacidade de uma única caixa realizar qualquer processo que você possa imaginar chama-se universalidade, conceito apresentado pela primeira vez por Alan Turing em 1936. Universalidade significa que não precisamos separar máquinas para aritmética, tradução automática, xadrez, compreensão de fala ou animação: a mesma máquina faz tudo.

Curioso é que esse mesmo conceito foi sendo estendido, por Steve Jobs, tanto em equipamentos, quanto em softwares, e recebe o nome de “plataformas digitais”.

Nesse momento o seu laptop é no fundo idêntico às vastas torres de servidores mantidas pelas maiores empresas de tecnologia do mundo, mesmo aquelas equipadas com sofisticadas unidades de processamento. É no fundo idêntico a todos os futuros dispositivos de computação a serem inventados. O laptop pode fazer exatamente as mesmas tarefas, desde que tenha memória suficiente: só demora bem mais, ou seja se diferencia pelo valor nele investido e pela tecnologia embarcada, mesmo que partam dos mesmos princípios.

Ainda sobre o artigo de Turing apresentando a universalidade, ele descreve um dispositivo simples de computação capaz de aceitar como entrada a descrição de qualquer outro dispositivo de computação, junto com a entrada desse segundo dispositivo, e, simulando a operação do segundo dispositivo sobre sua entrada, produz o mesmo resultado que o segundo dispositivo teria produzido.

Agora chamamos esse primeiro dispositivo de máquina de Turing universal. Para provar sua universalidade, Turing apresentou definições precisas para dois novos tipos de objetos matemáticos: máquinas e programas. Juntos, a máquina e o programa definem uma sequência de eventos especificamente, uma sequência de mudanças de situação na máquina e em sua memória.”

Software e hardware descreveram assim toda uma indústria, cujo o interesse capital em tempos distintos muda o valor da empresa que o produz. Se no primeiro momento a máquina tinha maior valor no segundo o software recupera o seu valor até o momento em que por ser comoditie perde espaço para retenção dos seu tempo para extração dos seus dados e a monetização desse conjunto de atores, naquilo que denominamos economia da desatenção.

Como Russel lembra “Os novos objetos de Turing, máquinas e programas, são talvez os objetos matemáticos mais poderosos já inventados. É irônico que o campo da matemática em grande parte tenha deixado de reconhecer isso, e, a partir dos anos 1940, computadores e computação têm sido território dos departamentos de engenharia na maior parte das grandes universidades.

O campo emergente, ciência da computação, explodiu nos setenta anos seguintes, produzindo uma grande variedade de conceitos, projetos, métodos e aplicativos, bem como as sete ou oito empresas mais valiosas do mundo.” E assim seguimos a lógica do mercado onde o valor está na necessidade que as pessoas podem dar aquele objeto.

As primeiras empresas fabricantes de celulares no mundo nunca estiveram entre as cinco empresas mais valiosas, afinal no primeiro instante eles serviam apenas pra telefonar, conforme a sua capacidade de processamento aliada ao desenvolvimento de softwares, e do lançamento dos smartphones, que ampliaram sua utilidade e o transformaram nos maiores consumidores do nosso tempo e de registro dos nossos dados, o valor da empresa subiu, ao ponto que a maior empresa do mundo hoje em valor de mercado é a Apple, a primeira fabricante que transformou um aparelho de celular em uma plataforma, seguindo a risca o conceito da universalidade de Turing.

Na captura dos seus dados é evidente que o hardware de computador é importante porque computadores mais rápidos e com mais memória permitem que algoritmos rodem mais rapidamente e administrem mais informações, na lógica intervencionista do seu tempo.

Lembro que na metade do século XX, o matemático, John von Neumann (que deu nome à “arquitetura de Von Neumann” padrão para computadores) e Oskar Morgenstern publicaram uma base axiomática para a teoria da utilidade.

Isso quer dizer o seguinte: enquanto as preferências demonstradas por um indivíduo satisfizerem certos axiomas básicos que qualquer agente racional deve satisfazer, então necessariamente as escolhas feitas por esse indivíduo podem ser descritas como maximizações do valor esperado de uma função utilidade, o que se emprega a velhas tecnologias até que uma outra surja e se mostre eficiente. Em resumo, um agente racional age para maximizar a utilidade esperada.

É evidente que essa visão da evolução tecnológica concluindo que a mesma se dá por sua utilidade “como soma de recompensas”, em que pese sua força tem muitos críticos.

Há quem a despreze por supostamente reduzir tudo que existe a dinheiro e egoísmo, será? Ou o universo corporativo que valora as empresas de tecnologia se guia por outros sentimentos?

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