TESLA, GOVERNANÇA E MERCADO DE CAPITAIS

Ter o toque de midas no mercado de capitais não lhe dá imunidade em todos os negócios, que o diga Elon Musk, que vem sendo questionado por seus sócios na Tesla.

Para esses sócios a aquisição da empresa de painéis solares Solarcity, feita pela Tesla em 2016, ao custo de US$ 2,6 bilhões, foi feita através de coação de Elon Musk sobre o conselho da empresa, esses investidores, desde a época da transação, questionam a compra.

Esses mesmos investidores pediram a um juiz neste mês que mande o bilionário pagar US$ 13 bilhões à Tesla por ter usado de sua força de acionista para comprar a empresa dos seus primos, que na época estavam com estavam com dificuldades financeiras.

Em julgamento sobre o caso no ano passado, Musk alegou que a Solarcity estava longe de ser insolvente e que a transação fez parte de um plano de uma década para criar uma empresa verticalmente integrada que gera mais valor ao acionista.

Musk é polêmico em quase tudo que toca, e a complexidade financeira da Tesla com seus acordos e derivativos é mais um exemplo disso.

Historicamente o papel que a empresa desempenha nas flutuações do mercado de ações é ainda maior do que sua avaliação de US $ 1,1 trilhão sugere.

O rali das ações da Tesla elevou o valor de mercado global da montadora de carros elétricos de Elon Musk para mais de US$ 1,1 trilhão, tornando-a uma das empresas mais valiosas do mundo. Só em 2021, ela aumentou em quase US$ 475 bilhões o seu valor no mercado, o que em termos comparativos equivale a um Procter & Gamble, um JPMorgan ou dois McDonald’s.

No entanto, a complexidade da estruturação financeira, no que muitos chamam de “complexo financeiro da Tesla” superam em muito a capitalização de mercado da empresa. O que por certo se deve a um vasto e emaranhado de redes de veículos de investimento dependentes e emuladores corporativos, e um enorme mercado de derivativos associados de amplitude, profundidade e hiperatividade sem precedentes.

A combinação desses fatores significa que a influência da Tesla na flutuação do mercado de ações é muito maior do que seu tamanho poderia implicar. Segundo alguns analistas, seu impacto pode ser incomparável na história.

O complexo financeiro da Tesla é um fenômeno que muitos investidores, sejam fundos passivos de índice, fundos de investimento tradicionais, fundos de hedge ou investidores de varejo comuns, não têm escolha a não ser enfrentar, dada a força das suas idiossincrasias que exerce no mercado de ações.

Uma das peculiaridades mais estranhas de Tesla é o combustível que ajudou a aumentar seu valor de mercado de ações em alta. Embora suas ações sejam muito populares entre muitos investidores de varejo, o tamanho e a hiperatividade das “opções” da Tesla, contratos populares de derivativos que permitem aos investidores apostar tanto a favor quanto contra uma ação e ampliar ganhos e perdas, também preocupa a muitos, afinal é bolha o fato a montadora mais valiosa do mundo valer mais do que as cinco maiores montadoras em volume de carro juntas? Sendo que a mesma na lista de carros produzidos não fica nem mesmo entre as 30 maiores montadoras?

O valor nominal das opções da Tesla tem uma média de US$ 241 bilhões por dia nas últimas semanas, de acordo com o Goldman Sachs. Isso contrasta com os US$ 138 bilhões da Amazon, o segundo mercado de opções mais ativos, e os US$ 112 bilhões do resto do índice S&P 500 combinados. Isso torna as ações da Tesla mais propensas às flutuações do mercado, devido à “alavancagem” inerente ao uso de opções para negociar.

Só para se ter uma ideia, o mercado de opções da Tesla é mais de 60 vezes mais ativo que todo o mercado de opções FTSE 100, e quase sete vezes maior que o mercado de opções Euro Stoxx 50.

A Tesla é a grande responsável por essa aberração. Em novembro, as opções de negociação foram 50% maiores que as ações em termos nominais, e sem a Tesla e a Amazon teria sido 20% menor, de acordo com o Goldman Sachs, em reportagem do Financial.

O valor das opções depende do que as ações subjacentes fazem, mas devido à sua mecânica complexa, analistas afirmam que as opções podem ocasionalmente mover ações se houver atividade suficiente neles, e até mesmo sobrecarregar o mercado global de ações, aumentando a turbulência e dificultando a navegação para muitos investidores.

Os investidores comuns de varejo têm sido o principal motor por trás do boom de opções da Tesla, mas alguns deles têm mais recursos para fazer apostas mais alavancadas na empresa de Musk do que outras.

A fama da Tesla e a volatilidade de suas ações também começaram a torná-la um componente de alguns produtos estruturados de investimento, como o “auto-cancelamento”, amarrando ainda mais suas ações ao destino do ecossistema financeiro mais amplo.

Auto-cancelamento são veículos de poupança complexos, especialmente populares entre os investidores asiáticos, nos quais os banqueiros constroem um retorno fixo atraente como títulos, vendendo opções de ações. Historicamente, eles têm sido principalmente opções em grandes índices de ações, como o S&P 500, o Hang Seng ou o Nikkei, mas devido à queda na volatilidade do mercado, alguns banqueiros começaram a estruturá-los com opções em títulos individuais mais variáveis. Tesla surgiu como uma escolha popular.

Nos últimos tempos, no mercado de capitais as apostas contra Tesla foram especialmente dolorosas. Os fundos de hedge que venderam ações da Tesla na última década acumularam perdas de mais de US$ 60 bilhões, só em 2021 as perdas somaram US$ 11 bilhões.

Muitos críticos costumam dizer que “É a ação original do meme”, um caso clássico de especulação, referindo-se a empresas como a GameStop, que ganharam altos índices de audiência graças à publicidade nas redes sociais. Para esses críticos, tomar posições curtas em Tesla é feito apenas por ego neste momento.

Tudo isso sempre anabolizado pelos twiters de Musk, que colocam o tempo todo, mais lenha nessa fogueira do complaince no mercado de capitais.

Os escritórios de advocacia devem ficar atento a esses números, afinal vivemos uma bolha do carro elétrico?

Sabidamente o sucesso das ações da Tesla vem também inflando o valor dos seus pretensos concorrentes., como Rivian e Lucid, que estão atualmente avaliados em cerca de US$ 110 bilhões e US $ 90 bilhões, respectivamente, apesar de ter receitas insignificantes e nenhum lucro.

Para os mais atentos, a esse movimento especulativo ou não? É fundamental ter em mente o seguinte. Que atualmente um índice elétrico de EV e bateria compilado pelo FT tem uma capitalização de mercado combinada de quase US$ 1,8 trilhão. Em contrapartida, as gigantes automotivas Toyota, Volkswagen e Hyundai, as maiores montadoras do mundo, valem cerca de US$ 254 bilhões, US$ 135 bilhões e US$ 42 bilhões, respectivamente.

O mercado quando busca lucros parece atropelar as regras de compliance e as formulas mínimas de referência para projeção do valuation , como no caso da Nikola, uma startup de caminhões elétricos que reservou US$ 125 milhões em face de acusações de fraude apresentadas pela Comissão de Valores Mobiliários por enganar investidores sobre sua tecnologia, e apesar de todo esse escândalo ainda é avaliada em US$ 5,4 bilhões.

Se a ascensão da Tesla continuar, enriquecerá ainda mais os crentes, prejudicará o grupo de céticos e arrastará segmentos para baixo do mercado de ações mais amplo. Mas se caísse bruscamente, poderia ter repercussões nos mercados financeiros muito além do que muitos apreciam.

O fato é que o fundador da fabricante de carros elétricos provocou uma reviravolta histórica na indústria automobilística, e com seu resultado está entrando em novos negócios.

Seguindo a velha fórmula do mercado de capitais que entendem que alguns, e por algum tempo podem ter o toque de Midas, o que já aconteceu aqui no Brasil com muitos, o caso mais notório foi Eike Batista, ou a culpa dos valores na lua das ações das empresas de Eike é só dele e não das corretoras, auditorias e agências de risco?

Recentemente em uma entrevista ao jornal Financial Times, disse que quer ser generoso com seus críticos. Mas depois de anos lutando contra um exército de céticos no resto da indústria automobilística e em Wall Street, a frustração do CEO da Tesla é difícil de conter.

Musk não só teve que construir um mercado para carros elétricos quase sozinho enquanto lutava contra a falência, mas também travou uma batalha constante com investidores de baixa de Wall Street e começou a brigar com os reguladores.

Este ano trouxe uma certa reivindicação, uma vez que empresas como Ford, Volkswagen ou Mercedes-Benz optaram inequivocamente por veículos elétricos (EVs).

Musk lembra que por muito tempo, o resto da indústria automobilística chamou Tesla e ele de tolos e fraudes, explica Musk em entrevista ao Financial Times. “Eles disseram que os carros elétricos não iam funcionar, que a autonomia e o desempenho não podiam ser alcançados. E mesmo que fosse alcançado, ninguém iria comprá-los.

Sem prejudicar a influência dos ambientalistas, Musk diz que há uma razão primária pela qual eles estão finalmente preparados para dar o salto elétrico:” Até que começamos a roubar parte do mercado deles significativamente, eles não reagiram. “

Musk acredita que o objetivo que foi estabelecido para Tesla há mais de 15 anos, para liderar uma revolução no transporte, finalmente foi alcançado?

Musk tem muitos críticos, mas ainda desfruta de um nível mais alto de aprovação pública do que muitos, o que explica também o valor de suas ações. Isso pode ser em parte porque sua marca pessoal se tornou intimamente associada a uma cultura popular influenciada por memes e jogos. Musk acredita que é por causa das aspirações que seus produtos visam satisfazer.

Sua maneira de impor limites e cortejar controvérsias o colocou em apuros. A Tesla está sendo investigada pelos reguladores de transporte e valores mobiliários dos EUA pela segurança de sua tecnologia de assistência ao motorista e se escondeu os riscos de incêndio de seus painéis solares.

Quando perguntado por que ele provoca publicamente os reguladores, Musk critica o que ele diz ter sido uma falha da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA para proteger os investidores de posições de baixa. Sobre o Conselho Nacional de Segurança nos Transportes, ele diz:”Eu senti que eles estavam perseguindo as manchetes acima da segurança real. Isso é obviamente [algo] que eu não respeito, nem deve ser respeitado.”Mas nega qualquer desprezo pela própria regulamentação.

O mercado de capitais é movido sempre pelo equilíbrio entre expectativa de resultados e entrega realizada, com algumas empresas ele se mostra muitas vezes mais pacientes do que com outras, e esse é o caso da Tesla e da Amazon, mas a mera expectativa de resultados não é o suficiente para se ferir as regras de complaince e tranformar as redes sociais em área de “fato relevante”.

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