TESLA, A CHINA E OS DADOS

Chineses são hoje e sempre estratégicos, raramente você vai ver ou ter surpresas nas relações com eles, eles seguem a lógica do resultado sempre, sem perder tempo com factoides, como nossos dirigentes de plantão (no típico jogar pra torcida), que o diga a estratégia de dados do presidente chinês, que desde 2013 já enfatizava a necessidade de controle e a sua importância.

Xi Jinping em 2013, já disse que “quem controla os dados joga com vantagem”, e apenas um ano depois ele reforçou, dizendo que “o controle da informação tornou-se um aspecto importante do “poder e competitividade” de um país.

Lembro que os dados pessoais são coletados não apenas através de interações online, mas também através de uma série de tecnologias projetadas para organizar uma sociedade de 1,4 bilhão de pessoas. Cartões digitais de seguridade social, dinheiro digital, cidades inteligentes, câmeras de vigilância, sistemas de crédito social e outras tecnologias estão se espalhando pelo país, que juntos criam um grande experimento no regime autoritário do século XXI.

O governo chinês tem travado uma batalha contra as grandes empresas de tecnologia, e seu claro objetivo é aumentar o controle estatal sobre os dados que essas empresas gerenciam.

Quando Elon Musk insistiu em março que os carros da Tesla não eram usados para espionar a China, a empresa explicou que era uma interação pontual entre o CEO da montadora mais valiosa do mundo e o governo do mercado onde sua empresa está experimentando o maior crescimento.

Na época Musk, declarou que: “Se a Tesla usar carros para espionar a China ou qualquer outro país, nossa empresa terá que fechar”, disse ele em uma videoconferência na China. Em resposta à proibição das autoridades chinesas de carros tesla acessarem bases militares, Musk insistiu que os dados coletados pelos sensores instalados em Teslas sempre foram tratados confidencialmente.

Agora, no entanto, os obstáculos que Tesla enfrenta são o primeiro sinal de mudança geopolítica. Nas últimas semanas, Pequim passou por uma série de regulamentos e políticas destinadas a reforçar a segurança dos dados na China, aumentando o controle que exerce sobre os enormes volumes de dados usados para governar o país, impulsionar a economia e gerenciar a vida das pessoas.

Essas medidas são uma parte fundamental da visão do presidente chinês Xi Jinping de criar o que alguns analistas chamam de “superpotência tecno-autoritária” na qual as pessoas são submetidas a um controle sem precedentes através da agência de redes cibernéticas, sistemas de vigilância e algoritmos controlados pelas autoridades.

Para os chineses, com um melhor controle dos dados, eles podem não apenas desenvolver uma economia mais produtiva, mas também um governo mais eficiente que toma decisões baseadas na ciência e não na intuição.

Segundo reportagem do jornal espanhol, Expansion, o He Aoxuan, pesquisador da Universidade beihang, uma das principais universidades de tecnologia de Pequim, acredita que “A soberania digital desempenha um papel fundamental na proteção de nossos interesses nacionais contra os inimigos do país aqui e no exterior”. E essa opinião é compartilhada pela maioria plena dos chineses.

Se tem algo que de forma competente os sucessivos governos Chineses o fizeram é a ideia de que é preciso ser bom para China para poder ser bom para o empresário.

Nesse momento seu líder maior, exorta o país a recompensar a “prosperidade comum” quando se trata de dados e tecnologia, Xi parece estar inclinado para uma ditadura moderna baseada nas tecnologias mais avançadas. Ele acredita que as tecnologias vão apertar o controle e controlar a dissidência política sem conter o vigor empreendedor ou a inovação que alimenta a economia que mais cresce no mundo.

Para disponibilizar esses dados, Pequim adotou uma estratégia multifacetado, promulgando leis para regular o uso dos dados, aumentando o acesso estatal aos dados das empresas privadas e coletando vastos estoques de dados.

O principal objetivo dessas iniciativas foi refletido na publicação no mês passado em um projeto sobre algoritmos que controla o comportamento dos cidadãos na internet. De acordo com o projeto de lei, estes devem “transmitir ativamente energia positiva”. O que por outras palavras, eles devem apoiar, e certamente não se opor às mensagens do Partido Comunista Chinês, qualquer semelhança com líderes tupiniquins que criticam toda crítica da mídia ou da oposição será mera coincidência, aos adoradores de projetos de ditadores.

A Lei de Proteção de Informações Pessoais, que entrará em vigor em novembro, estipula que os dados movidos para fora da China devem passar por uma avaliação de segurança pela Administração do Ciberespaço da China, um regulador do governo, ou obter outras formas de aprovação oficial.

Sendo que uma outra lei que entrou em vigor este mês, a Lei de Segurança de Dados, exige a proteção de “dados importantes”, como informações relacionadas à segurança nacional e econômica, ao bem-estar da população ou ao importante interesse público. Segundo especialistas, as definições são tão amplas que podem cobrir quase tudo relacionado a dados privados.

O diploma legal faz previsão de que todos os dados gerados na China devem permanecer no país, a menos que você tenha permissão explícita para enviar alguns deles para o exterior, ou seja onde foi para a internet livre?

Logo as multinacionais que operam na China vão ficando sem escolha a não ser criar data centers para armazenar todos os dados de seus clientes. Na prática, isso significa que, se a aplicação da lei quiser verificar os dados dos consumidores coletados por uma multinacional na China, eles poderão fazê-lo a qualquer momento.

Tesla, por exemplo, foi rápido em ver que a criação de um data center era uma maneira de obter maior compreensão com as autoridades chinesas. Na verdade, Musk tinha que oferecer garantias de que os carros de sua empresa não espionariam seus clientes chineses. “Todos os dados gerados pelos carros vendidos na China continental serão armazenados dentro da China”, disse a empresa em um post de maio no Weibo, a plataforma chinesa.

A Apple é outro exemplo. Em resposta ao aumento do controle de dados de Pequim, a empresa criou um centro de armazenamento de dados na província de Guizhou em 2017. No ano seguinte, anunciou que seu serviço iCloud na China seria gerenciado pela empresa estatal de gerenciamento de dados Guizhou-Cloud Big Data Industry Co.

A empresa com sede em Cupertino disse em um comunicado que “controla as chaves de criptografia dos dados de nossos usuários” em seus data centers na China. No entanto, a empresa também cumpre as exigências da China de entregar dados de clientes às autoridades, acrescentou.

A empresa estrangeira que as autoridades chinesas mais frequentemente colocam como um “modelo” de como as multinacionais devem se comportar é a Microsoft. A gigante tecnológica dos EUA já tem quatro data centers na China continental, todos gerenciados por seu parceiro local 21Vianet, e um quinto está programado para entrar em operação no próximo ano.

Esse novo regime de dados está rompendo a relação entre os mercados dos EUA e da China, no qual 248 empresas chinesas, com uma capitalização total de 2,1 trilhões de dólares, haviam sido listadas nas bolsas de valores dos EUA até maio deste ano. O futuro das empresas chinesas do continente listadas em Hong Kong também é manchado por novas regulamentações de dados.

O que parece ter ficado claro é que os reguladores chineses fazem uma distinção básica entre oferecer ações na China continental e listagem no exterior, em Hong Kong ou em Nova York.

Como se sabe, uma das fraquezas dos sistemas autoritários ao longo da história tem sido o bloqueio de informações entre a sociedade e a elite dominante. A antiga União Soviética foi afundada pela corrupção e escassez endêmica de mercadorias e pelo custo da rivalidade com os EUA durante a Guerra Fria.

Mas os líderes da China acreditam ter encontrado uma maneira de evitar tais ameaças ao seu domínio graças aos dados que agora controlam.

Entender o funcionamento dos ecossistemas digitais da China revela tanto os objetivos finais do programa quanto as deficiências deste grande experimento “tecno-autoritário”.

Nesse momento, a população da China, é disparada a mais vigiada do mundo, afinal são cerca de 415 milhões de câmeras de vigilância em todo o país, sendo que em alguns lugares temos mais de 8.000 câmeras por quilômetro quadrado, como em cidades como Shenzhen.

Soma-se a isso, o uso de tecnologias de reconhecimento facial para identificar as pessoas enquanto caminham pela rua, que sofre forte oposição popular, pois segundo pesquisa cerca de 90% das pessoas, em uma pesquisa feita em Pequim, expressaram oposição ao uso da tecnologia de reconhecimento facial em áreas comerciais, é claro que lá em razão do regime, as manifestações quase sempre são bem silenciosas.

O controle se estende a prestação de serviços, pois também é o objetivo dos cartões de seguridade social digitais da China, com os quais mais de 300 milhões de pessoas podem acessar ou solicitar benefícios de desemprego, medicamentos prescritos, transporte público e outros serviços por meio de aplicativos de telefonia móvel, que tem seu uso controlado.

Sempre é bom lembrar que a China já adotou o dinheiro digital, outra forma fantástica de controle. Quem quiser ganhar dinheiro na China, sempre vai precisar ter uma ótima relação com o Estado, algo bastante comum em todas as ditaduras.

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