TECNOLOGIA E SEGURANÇA ALIMENTAR, QUEM PRECISA?

Justamente no momento em que os homens disputam a primazia de uma nova corrida espacial, dessa vez comandada por empresas e não por uma disputa dual entre a antiga URSS e os EUA, surgem evidências apontando para uma crise global nunca antes de vista na cadeia de suprimentos, decorrente de uma recuperação na atividade económica desigual.

Nos “pós pandemia”, as cadeias de suprimento sofrem com as interrupções de abastecimento das indústrias, principalmente em territórios que ainda não conseguiram remover o perigo de grandes surtos da doença, e que estão gerando tensões muito importantes nos estoques de mais e mais produtos, aparentemente não relacionados uns aos outros, além dos mesmos mecanismos de abastecimento. Todos os países são afetados em maior ou menor grau, e em muitos deles, crises reais estão sendo geradas.

Mesmo que alguns países estejam, sem dúvida, mais preparados do que outros, de uma forma geral a cadeia de suprimentos depende de uma infinidade de sistemas interconectados e empresas que a gerenciam de forma independente.

Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), a segurança alimentar não é apenas obter calorias suficientes, mas também ter acesso frequente a alimentos seguros que satisfaçam as necessidades nutricionais.

E de que maneira a tecnologia pode colaborar nisso? Lembro que os portos, aeroportos e outros portais logísticos, são gerenciados através de sistemas totalmente integrados mais semelhantes a uma API homogênea que permite que as operações sejam coordenadas de forma muito mais eficiente e vantajosa. Mas neste ponto da crise, quase não importa: o efeito do colapso de certos nós se espalhou para todos os elos da cadeia, e já afeta a todos.

Navios esperando nas praias por um lugar para descarregar em portos absolutamente sobrecarregados, com infraestruturas portuárias completamente colapsadas e com preços de contêineres em mais de seis vezes o seu nível habitual. Alternativas, como transporte aéreo ou ferroviário, não conseguem aliviar o problema e, em alguns casos, a crise se torna uma questão de Estado que leva a negociações com os trabalhadores portuários para aumentar o número de horas trabalhadas até o limite de 24×7 e conseguir desfazer os gargalos muito importantes que se formaram. 

Uma verdadeira cascata de engarrafamentos e sobrecargas que, como uma enorme fila de dominós gigantes, está levando muitas fábricas a fechar devido à falta de suprimentos, muitos estabelecimentos a ter suas prateleiras vazias, e muitos negócios à beira do desespero.

Não se trata mais de obter um contêiner, muitos dos quais esperam nos portos para serem esvaziados e encaminhados, mas de garantir que, em caso de ter um, ele chegue ao seu destino e consiga ser descarregado, colocado em um reboque e levado para o seu destino. Por mais que você esteja disposto a pagar para obter uma vantagem em um ponto da cadeia, nada garante que as outras condições permitam que as mercadorias cheguem ao ponto que deveriam chegar, muito menos que eles possam fazê-lo dentro dos prazos estabelecidos.

E quando o alimento não chega, são os mais frágeis que pagam, pela elevação do seu preço na lei da oferta e da procura, afinal segurança alimentar diz respeito ao direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. Isso significa poder acessar fisicamente a comida e ter recursos suficientes para comprá-la. E como garantir isso aos menos favorecidos?

Com o desenho do problema atual, alguns optam por fornecedores mais próximos ou dentro de suas fronteiras, outros pela diversificação de fontes, e outros por aumento de preços para enfrentar custos mais altos nos componentes ou materiais de que precisam.

O resultado pode variar desde uma crise econômica global, com inflação e taxas de juros crescentes, até repensar radicalmente a origem dos suprimentos de muitas empresas com efeitos muito difíceis de prever. Quando você soma essa interrupção com a elevação do petróleo, seus derivados e toda cadeia de energia o que temos é um aumento significativo da pobreza e mais desigualdade.

Alcançar cadeias de suprimentos mais robustas, menos sujeitas a crises específicas, seja um navio preso no meio do Canal de Suez ou uma pandemia e com maior resiliência se tornará uma verdadeira obsessão para os gestores de muitas empresas, ao mesmo tempo em que reforçam cada vez mais a pressão necessária para descarbonizar urgentemente muitos de seus elementos logísticos. Se você pensou que a crise terminaria com a pandemia, vá se preparando e armando-se com paciência: tempos complicados estão chegando.

Nenhum esforço para criar um sistema alimentar mais equitativo e sustentável será concluído sem uma ação concertada dos líderes mundiais no comércio.

Em 2015, o mundo adotou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, incluindo o ODS 2, que exigem o fim da fome global, a obtenção de segurança alimentar e uma melhor nutrição e a promoção da agricultura sustentável até 2030. Seis anos depois, não estamos nem perto de chegar no caminho certo para alcançar esses objetivos. Pelo contrário, parece que estamos retrocedendo, abalados por ventos contrários, como a pandemia, crises econômicas, conflitos violentos e choques climáticos. A fome e a desnutrição aumentaram substancialmente em 2020: de acordo com as Nações Unidas, estima-se que cerca de 9,9% da população mundial tenha sido desnutrida no ano passado, contra 8,4% em 2019.

Para reverter essa tendência e garantir que os sistemas alimentares funcionem para as pessoas e para o planeta, os governos devem redobrar seus esforços para atualizar as regras comerciais globais. Os programas de subsídios agrícolas também podem distorcer os mercados alimentares e agrícolas.

Os governos devem encontrar novas formas de reverter o sub-investimento em bens públicos relacionados à alimentação e à agricultura, especialmente em países de baixa renda, ao mesmo tempo em que melhoram a alocação global de recursos escassos. Nesse sentido, devem aproveitar a crescente importância do comércio digital e dos serviços nos países pobres.

A construção da cidadania digital, pode implicar em conhecermos mais pessoas e as suas car6encias, e com isso saber introduzir medidas para reduzir essa desigualdade, levando alimento barato pra quem precisa, como a ampliação das hortas comunitárias com a mão de obra local, através do uso de terrenos urbanos que estejam parados apenas aguardando a especulação imobiliária.

E qual o papel da tecnologia? Parece claro que a tecnologia é um ambiente que dota as empresas com uma capacidade desesperada de exercer o poder monopólio em muito menos tempo do que antes, e isso exige que os governos tenham muito mais pressa em sua regulação. E esse monopólio acentuado nas big techs criam distorções inimagináveis, entre as demais empresas e esses novos barões da economia.

Compreender esse futuro é requisito para pequenas intervenções no desenho dele, pois ele é para poucos, é desigual e exige ajustes para que não sejamos atropelados.

O efeito dessa nova economia, está bem destacado na obra, “O capital no século XXI”, do economista francês Thomas Piketty que analisou a crescente disparidade de posses entre uma minoria de muito ricos e o resto do mundo. Nos Estados Unidos, em 2014, o 0,01% mais rico, que consiste em apenas 16 mil famílias, controlava 11,2% de toda riqueza, o que pode ser comparado a 1916, época da maior desigualdade mundial. Hoje o mesmo 0,1% detêm cerca de 22% da riqueza total, o mesmo que 90% de toda população na base da pirâmide, sendo que igual distorção não é muito diferente na Europa.

O progresso implacável da automação, de caixas de supermercado a algoritmos de transação financeira, de robôs em fábricas a carros com direção automática, cada vez mais ameaça a empregabilidade humana no panorama geral. Não existe rede de segurança para aqueles cujas habilidades são obsoletadas pelas máquinas, e nem aqueles que programam as máquinas estão imunes.

Um artigo interessante publicado no Fórum Econômico Mundial, aponta que a Inteligência Artificial estaria pronta para interferir na ordem mundial estabelecida perpetuando distorções. Um relatório da Tortoise Intelligence no qual, entre muitas outras conclusões, a abordagem centralizada da China para a pesquisa de inteligência artificial parece estar gerando, em termos de produtividade, uma eficiência muito maior do que seu concorrente tradicional, os Estados Unidos, que opta por iniciativas de pesquisa espalhadas entre muitos concorrentes privados ligados a algumas iniciativas públicas ou públicas impulsionadas pelo dinheiro.

Pense na inteligência artificial conectada aos supermercados na gestão dos seus estoques e nas suas quebras que podem representar alimento mais barato na mesa dos menos favorecidos?

Uma gestão consolidada, que agrega valor, quantidade, data de validade e necessitados? Para isso a tecnologia já está disponível, e logo é preciso integrar os atores para fazer acontecer. É preciso vontade e inteligência política.

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