TECNOLOGIA E OS MALEFÍCIOS A SAÚDE

O uso intensificado dos nossos inúmeros aparelhos (Celulares, Notebooks, Computadores, Tablets.etc) se intensificou durante a pandemia, e com ele surgem dúvidas sobre o uso intenso desses equipamentos e seus possíveis malefícios a saúde.

Uma recente reportagem de Bruna Arimathea no Jornal Estadão, classificou esses aparelhos como inimigos do sono. Na reportagem com diversos depoimentos as pessoas relatam sua dificuldade de dormir devido ao aumento da jornada de uso desses aparelhos, seja pelo home office, pelas vídeo-aulas dos filhos que acompanhamos, ou por nossa maior participação nas redes sociais decorrentes da quarentena, o fato é que o uso dos dispositivos aumentou para todos.

Se o impacto da tecnologia na qualidade do sono já era estudado antes da pandemia, com ela ele ganhou o centro das atenções. Em um estudo conduzido pelo Sergio Brasil Tufik, pesquisador do Instituto do Sono de São Paulo, constatou-se que durante a pandemia, o uso de tecnologia fez com que cerca de 64% das pessoas relatassem uma demora de 30 minutos ou mais para adormecer, se comparado à rotina antes da pandemia, sendo que no total, 81% dos brasileiros sentem alguma dificuldade para dormir desde que a crise sanitária começou.

A mesma pesquisa destaca que 55,1% dos brasileiros relataram uma piora na qualidade do sono no último ano e mais de 60% afirmam que o uso de tecnologias como celular e redes sociais tem colaborado para esse índice. Números que levam o pesquisador concluir que “a nossa sociedade vem caminhando para a privação de sono, muito por causa dos dispositivos eletrônicos. Com smartphones conectados o tempo inteiro, raramente as pessoas conseguem dormir tanto quanto gostariam. A pandemia veio para intensificar esse processo”.

Ao mesmo tempo a falta de atividade fora de casa também serve como combustível para inúmeras consultas ao smartphone, basta ver no seu celular o relatório de tempo de uso do dispositivo que isso vai lhe permitir o quão escravos de nossos dispositivos nos tornamos.

Para os especialistas ouvidos na reportagem o efeito é imediato no organismo: o vício em telas atua na diminuição da melatonina, um dos hormônios responsáveis pela manutenção do sono e pela sensação de descanso, a luz é um inibidor do hormônio.

Sendo que “a iluminação diz para o nosso cérebro que é dia, e nosso organismo não se prepara para dormir. Na pandemia, as pessoas já vivem uma condição de alerta constante, então o uso prolongado desses aparelhos à noite induz a queda ou até mesmo a inibição completa da produção de melatonina”, afirma Luiz Gustavo de Almeida Chuffa, pesquisador do Instituto de Biociências da Unesp.

A entrada mais intensa nas redes sociais também traz prejuízos a nossa saúde, pois as redes sociais também desempenham um papel importante na piora do sono. Mais do que a luminosidade, o mecanismo neurológico de “recompensa” por ver uma foto, por exemplo, ou por encontrar um produto desejado, estimula receptores de atenção, afirma Monica Andersen, diretora de ensino do Instituto do Sono. A química que acontece no cérebro deixa os usuários em estado de alerta. A pesquisadora conta ainda que existe um segundo fator relacionado a redes sociais que pesa contra o sono: a produção de cortisol. Esse hormônio, produzido em situações de estresse, aparece também quando você vê conteúdos que não são do seu agrado. Sejam notícias sobre a situação do País, fotos de amigos que estão viajando (enquanto você fica em casa), ou saborosas fofocas da firma – tudo isso ajuda o cérebro a mandar o sono embora.

“As redes sociais promovem uma gratificação ao cérebro quando você busca algo no feed e encontra. Mas, quando a resposta não era a que você queria, isso vira um dilema. A gente tem uma situação comparativa nessas plataformas, entre a imagem do outro e a nossa. Isso gera uma expectativa não necessariamente prazerosa. A comparação aumenta o cortisol, o que causa um estresse associado às redes sociais, promovendo um hiperalerta”, explica Monica.

Dessa maneira ausentar-se das redes sociais algumas horas antes de dormir pode ajudar a diminuir o nível de cortisol, além de poupar a exposição da luz azul. Fazer exercícios físicos durante o dia também é uma das recomendações, já que a produção da serotonina, conhecida como o hormônio do prazer, está associada também aos níveis de melatonina no cérebro.

Mas a culpa está na tecnologia ou no seu uso?

Um estudo de Oxford mostrou, pela enésima vez na história, que a chegada de uma nova tecnologia não causa efeitos terríveis nas pessoas, mas simplesmente, a usamos e adaptamo-nos a ela de uma maneira completamente normal: o tempo que os adolescentes passam na frente de seus smartphones não tem nenhuma relação com qualquer tipo de aumento de problemas mentais ou transtornos.

Logo todos aqueles pais que, preocupados com inúmeros meios injustificadamente alarmistas, foram sobrecarregados e perseguidos por temerem que o uso excessivo do smartphone gerasse algum tipo de transtorno pode relaxar? NÃO, de forma alguma, excessos sempre serão perigosos.

Porém, simplesmente não há conexão entre o uso de redes sociais e os transtornos mentais. É o que existe. Quando um estudo realizado em uma enorme amostra de 430.000 adolescentes americanos e britânicos não é capaz de encontrar essa relação, ela simplesmente não existe, assim como não existia nem entre o uso de livros, jornais, revistas, televisão ou de rádio portátil. Tecnologias são desenvolvidas, popularizadas, usamos, nos adaptamos a elas, ponto final. Não há mais drama. Sempre haverá histéricos que tentam atribuir a cada nova tecnologia muitos efeitos colaterais, problemas e até mesmo distúrbios e doenças, mas a grande verdade é o que é: nada nunca acontece. A espécie humana é diferenciada por sua capacidade de se adaptar às mudanças no ambiente, razão pela qual se tornou a colonizadora mais eficiente do planeta – sem que possamos dizer, infelizmente, que essa circunstância tem sido positiva para o planeta. Se uma tecnologia nos dá algo que percebemos como um benefício, nós a adotamos e a usamos, sem que ela nos faça viciados ou doentes, não mais do que algumas pessoas insistem em nos convencer do contrário.

O smartphone chegou em 2007, e rapidamente se tornou uma das interfaces mais comuns para se relacionar com todos os tipos de informação. Imediatamente, muitos insistiram em procurar relações com todos os tipos de transtornos, desde déficits de atenção até problemas de visão, passando por depressão, obesidade, distúrbios do sono, obsessões de todos os tipos e até suicídios.

Apenas demonizar a tecnologia, nada mais é do que uma válvula de escape a péssima educação que estamos dando aos nossos filhos, quando não a nós mesmos, ou existe algo mais mal educado do que se distrais ao celular em uma mesa de jantar?

Infelizmente, é normal, o que acontece a cada novo desenvolvimento tecnológico: quando não há problemas em nossos órgãos internos derivados da velocidade dos trens, é surdez devido ao uso de fones de ouvido, à incapacidade de escrever em condições por causa da linguagem que era usada em SMS ou tendências violentas devido aos videogames. São simplesmente as histórias de fantasmas da era digital.

Se uma criança está à procura do smartphone em todas as horas e não desenvolve atividade física suficiente, se recusa a liberar o terminal durante a hora do jantar ou não dorme, você não tem uma criança “viciada” ou “demente”: você simplesmente tem uma criança mal-educada. Educá-lo em condições, com tudo o que implica (ninguém disse que era fácil!), e parar de usar o recurso fácil de culpar a tecnologia.

A parada que a pandemia realizou poderia ser chamada de “Reset do Mundo”, afinal o mundo parece ter parado e a forma como o conhecíamos parece ter sido resetada, com tudo sendo apagado e reconstruído.

Esse reset oferece uma oportunidade, afinal, quando as gerações de hoje puderam presenciar essa parada geral do mundo?

Esse reset criado com a pandemia não deve ser ignorado, como muitos governantes vem fazendo. O Estado mostra sua importância e peso quando ajuda no pagamento da folha de funcionários, prejuízo financeiros e no controle da praga. Portanto, não deve ser diminuído.

De fato, aparentemente, como destaca um artigo no The Guardian, carregamos nossos celulares tal qual “caracóis” carregam sua casa nas costas, e logo se tornaram inseparáveis “parceiros”.

Uma comparação bastante muito apropriada considerando a gama de usos que realizamos em nossos dispositivos, e a sensação de familiaridade gerada por nossas configurações específicas, desde os aplicativos que instalamos, até sua localização nas diferentes telas ou pastas, a organização de nossos dados. Na prática, me parece a mesma sensação que nosso computador gera na frente de sentar na frente do outro, mesmo que seja idêntico em sua configuração, ou qualquer outro dispositivo de uso habitual como um tablet, mas como nosso smartphone usamos muito tempo por dia (duas horas e quarenta e quatro minutos, diz o meu), as sensações são acentuadas a ponto de perceber nosso smartphone como “nossa casa digital”.

Alguns fenômenos adicionais tendem a corroborar esse tipo de interpretação: o primeiro, como me sinto quando tento usar o smartphone de outra pessoa: um sentimento muito claro de estranheza, de desconforto, de “isso não é meu”, ou de “onde diabos é isso ou aquilo”, como se eu estivesse subitamente na casa de outra pessoa e não soubesse onde está nada.

O segundo é um sentimento muito mais desagradável: o de perder seu smartphone.  Não só você se sente completamente indefeso e com a sensação de que você não pode fazer nada, mas todas as ações que você pode pensar para tentar fazer algo envolvem o próprio smartphone que você perdeu. É como se, de repente, você fosse um sem-teto e não soubesse para onde ir ou o que fazer. Quando você perde seu smartphone, você olha angustiado para uma maneira de verificar os métodos que você tem de localizá-lo, mas em muitos casos você não sabe como fazê-lo facilmente a partir de outro dispositivo, você pensa em chamar esse dispositivo e você até coloca a mão no bolso para ele (para verificar que, obviamente, você não pode ligar do seu dispositivo porque você não tem).

Uma interpretação antropológica cultural como essa me leva, como em muitas outras ocasiões, a abominar aqueles que falam sobre os efeitos “terríveis” do smartphone nas crianças: se falarmos de algo muito semelhante à “nossa casa digital”, o lugar onde armazenamos nossas memórias, nossos documentos, nossos contatos e mil outras coisas, o que devemos fazer claramente é não nos preocuparmos se nossos filhos sofrem efeitos negativos, se ficam deprimidos ou outra reação qualquer quando são privados dos seus smartphones, a assepsia digital começa pela limitação de horas de uso.

Devemos pensar nos nossos aparelhos como nossa casa digital, e nela criamos os nossos limites, e os limites dos nossos filhos, seja pela educação dos mesmos ou pelos limites necessários a generosa exposição de riscos e o uso intenso desses aparelhos provoca, principalmente no descuidado tratamento dos nossos dados.

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