TECNOLOGIA E DESIGUALDADE ETERNA

A tecnologia que mostra a nossa evolução é sempre a mesma que instrumentaliza a desigualdade e as nossas diferenças, é o acesso igual e isonômico a ela que funciona como agente da transformação.

Tecnologia desiguala empresas seus produtos e serviços, cria um fosso entre pessoas, registra e aprova o tamanho da desigualdade e serve de certidão para o a indelével marca da desumanidade e barbárie que não diminui com o tempo, apenas altera as suas formas.

Olhe ao seu redor, nas calçadas das nossas cidades, sejam elas grandes ou médias, onde muitas vezes adolescentes caminham com seus celulares de último modelo, e seguem digitando interagindo nas suas redes sociais enquanto o mundo passa aos seus olhos. Na mesma calçada o pedinte incrédulo, que tudo observa, acompanha o caminhar de todos na esperança de encontrar solidariedade e atenção em meio a passos apressados, dedos nervosos e olhos atentos às telas dos seus celulares.

Certamente o universo parece caminhar em velocidades distintas, numa formação de astros que não conversam a mesma linguagem, e tampouco a mesma trajetória, nas ruas onde a miséria cresce quase que na mesma velocidade dessa tecnologia.

Segundo um recente estudo do IBGE 1 de cada 4 brasileiros vive, sob a linha da pobreza, são cerca de 51 milhões de pessoas que sobreviveram em 2020 com menos de R$ 450 por mês, logo tente imaginar esse quadro sem o auxílio emergencial, números destacados na reportagem de Márcio Dolzan, Daniela Amorin e Vinícius Neder para o Jornal Estadão, no último dia 04 de dezembro.

“Com o vaivém do benefício do ano passado para este, a miséria espreita os brasileiros mais vulneráveis. Sem os programas sociais, os 10% mais pobres da população teriam sobrevivido o ano passado com apenas R$ 13,00 por mês, ou R$ 0,43 por pessoa a cada dia.

“Com os benefícios governamentais, o grupo de 21 milhões de brasileiros mais pobres sobreviveu em 2020 com R$ 128 mensais por pessoa da família. Embora ainda insuficiente, o montante representa uma alta de 14,9% ante os R$ 111 mensais de 2019.

A injeção bilionária de recursos extraordinários fez o número de brasileiros abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial cair, em 2020, ao menor nível desde 2014. Ainda assim, praticamente um em cada quatro brasileiros (24,1% da população) viveu abaixo dessa linha no ano passado. São quase 51 milhões de pessoas com menos de R$ 450 por mês. Não fossem os programas de transferências de renda, o contingente seria quase um terço da população (32,1%). Em 2019, a proporção era de 25,9%.

Mesmo com o auxílio emergencial, 12,046 milhões (5,7%) viveram abaixo da linha de miséria (rendimento médio mensal de R$ 155 por pessoa) em 2020, o menor nível desde 2015. Sem os benefícios, seriam mais do que o dobro: 27,313 milhões (12,9% dos habitantes, ante 6,8% em 2019).”

Quem mais sofre nesse quadro são nossas crianças e adolescentes, pois mais de 17 milhões de brasileiros até 14 anos sobreviveram em 2020 abaixo da linha de pobreza, sendo que esse número representa 38,6% da população nessa faixa etária e 3,9 milhões estavam em situação extrema, a de miséria.

Além dos mais jovens, a pobreza atinge com mais força as pessoas de cor preta ou parda. São quase três vezes mais negros do que brancos na extrema pobreza. Cerca de 8,8 milhões abaixo da linha de miséria são pretos ou pardos, quase 75%, ou seja, três a cada quatro pessoas nessa condição. Os brancos na miséria, em 2020, totalizavam 3,2 milhões. Entre os brasileiros abaixo da linha de pobreza, 36,8 milhões eram negros, enquanto os brancos somavam quase 13,6 milhões.

Esse mesmo trabalho do IBGE, mostrou que a pandemia agravou as desigualdades no acesso à educação via rede de ensino pública e privada. Os mais pobres tiveram muito menos aulas (presenciais ou remotas), além de enfrentar dificuldades estruturais, como falta de internet e computador até ausência de água e sabão nas escolas para higienizar as mãos.

As ruas são o retrato desse Brasil desigual, onde privilégios são apresentados e defendidos como direitos adquiridos e onde a vontade de ampliar ainda mais privilégios, nas classes (ou seria castas) nunca cessa. São penduricalhos sem fim, ainda que pagos com os tributos que toda sociedade sustenta.

Para além desse registro, evidencia-se o aumento da população em situação de rua em São Paulo (apenas para exemplo), alavancado pela crise econômica e pela pandemia, acirrou a disputa debaixo de pontes e viadutos. Em 2015, a cidade tinha 16 mil pessoas vivendo nas ruas. No último censo, de 2019, o número subiu para 24.344.

Essa é apenas uma fotografia, de uma sociedade que evolui com tecnologias de última geração, e parece ser incapaz de resolver problemas tão simples, aumentamos o número de alimentos produzidos e nada disso nos permite alimentar a fome de quem tem fome, pois para esses a lógica parece ser outra, indiferente e cruel.

Vejamos pela educação, em uma pesquisa divulgada em de 2020, pelo Instituto DataSenado mostrou que a diferença entre a educação na rede pública e na privada também se revela no acesso dos alunos ao ambiente digital. Dos lares brasileiros cujos estudantes estão tendo aulas remotas na rede pública, 26% não possuem internet. Quando a pesquisa olha para os colégios particulares, o total de alunos sem conexão online cai para 4%.

Os números falam por si, pois em julho de 2020, essa migração provocou um aumento de 73% só na rede municipal de educação infantil de São Paulo. Onde o levantamento da OCDE também mostrou que o número de dias de escolas fechadas prejudicou mais os estudantes brasileiros do que os alunos dos demais países. No final de junho as escolas brasileiras estavam há 16 semanas sem aulas presenciais, cerca de 2 semanas a mais do que a média das escolas dos países avaliados. No início de setembro, só oito dos países avaliados ainda permaneciam com as aulas suspensas, entre eles, o Brasil.

É o capital humano que faz a diferença na transformação digital, mas é preciso o mínimo de infraestrutura tecnológica para que possamos formar esses profissionais, não é apenas um requisito laboral, mas sim uma questão de valor humano. A cidadania digital, se faz com acesso pleno a todos e não apenas poucos favorecidos.

Como destacamos, a falta de oferta se dá pela falta de conectividade, de dispositivos digitais e de envio de material por parte da rede de ensino. Segundo o Ipea, 16% dos alunos do Ensino Fundamental (cerca de 4,35 milhões) e 10% dos alunos do Ensino Médio (780 mil) não têm acesso à internet. Paralelamente a esses dados da rede pública, os números das redes privadas e da classe A, são bem diferentes, pois lá cerca de 100% dos estudantes possuem acesso, já nas classes D e E são apenas 40%, e depois tem deslumbrado que ainda vai falar em meritocracia. “Acorda Alice”.

E qual o papel da tecnologia? Parece claro que a tecnologia é um ambiente que dota as empresas com uma capacidade desesperada de exercer o poder monopólio em muito menos tempo do que antes, e isso exige que os governos tenham muito mais pressa em sua regulação.

O efeito dessa nova economia, está bem destacado na obra, “O capital no século XXI”, do economista francês Thomas Piketty que analisou a crescente disparidade de posses entre uma minoria de muito ricos e o resto do mundo. Nos Estados Unidos, em 2014, o 0,01% mais rico, que consiste em apenas 16 mil famílias, controlava 11,2% de toda riqueza, o que pode ser comparado a 1916, época da maior desigualdade mundial. Hoje o mesmo 0,1% detêm cerca de 22% da riqueza total, o mesmo que 90% de toda população na base da pirâmide, sendo que igual distorção não é muito diferente na Europa.

Com a recente, ordem executiva assinada pelo Presidente, Joe Biden, em 9 de julho, intitulada Ordem Executiva para Promover a Concorrência na Economia Americana”, foi tomada a maior iniciativa até agora pelo governo dos EUA, diante da tão necessária redefinição do capitalismo por Milton Friedman e pela Escola de Chicago. Com esse movimento, ele dá continuidade aos passos anteriores quando havia nomeado acadêmicos estudiosos das leis antitrustes como Tim Wu, Lina Khan entre outros, em detrimento as teses que reinavam no governo anterior de Robert Bork e do neoliberalismo da Escola de Chicago, que foi inclusive citada em seu discurso.

Muitos relembraram do discurso de 1938 de Franklin f. Roosevelt, onde ele destacava a importância das pequenas empresas e dos direitos dos trabalhadores bem como dos consumidores.

Na sua fala Biden, Biden destacou a necessidade de confrontar as Big Tech(s), a Big Pharma(s) e as Big Ag(s), e reprisou Roosevelt, para se referir a uma declaração de direitos econômicos, com propósito de garantir o “direito de todo empreendedor, seja ele grande e ou pequeno, de negociar em uma atmosfera livre de concorrência desleal e domínio monopólio no país ou no exterior”.

Mas muito mais importante foram as críticas explícitas de Biden à Escola de Chicago: “Quarenta anos atrás, escolhemos o caminho errado, na minha opinião, seguindo a filosofia errada de pessoas como Robert Bork, e paramos de aplicar leis que serviam para promover a concorrência. Passamos 40 anos na experiência de permitir que corporações gigantes acumulassem mais e mais poder. E o que ganhamos com isso? Menos crescimento, investimento enfraquecido, menos pequenas empresas. Muitos americanos que se sentem abandonados. Muitas pessoas que são mais pobres que seus pais. Acho que o experimento falhou.

O que levou a várias décadas de capitalismo selvagem e não regulamentado? Muito simplesmente, uma América menos competitiva, dominada por grandes conglomerados empresariais que agem à margem de tudo, que não pagam impostos e que influenciam desproporcionalmente políticos de todas as faixas.”

Um discurso para ser um divisor de águas na economia americana, pois o presidente ordena para que toda a administração busque tudo o que sugere abusos de poder e condições de distorção do mercado, da reintrodução da neutralidade da rede e da eliminação da qual não só significava menos investimento em infraestrutura e preços mais altos, para o rigoroso controle de cláusulas de não concorrência que impediam a liberdade de circulação de muitos trabalhadores ou a reintegração do direito de fixar nossos próprios dispositivos.

Continuou o presidente Biden em seu discurso: “sem concorrência o capitalismo é apenas exploração”. Logo é fundamental que o estado seja dotado de mecanismos legais que mantenham a concorrência de forma equilibrada. O governo federal fará da redução de práticas comerciais injustas e monopolistas uma prioridade absoluta a partir de agora. Especialistas em concorrência concordam que ele envia um sinal claro para as grandes empresas: os tempos estão mudando.

Acabar com as teses prejudiciais da escola de Chicago foi fundamental para redefinir a economia americana e acabar com décadas de abuso, em um país que tem sido dominado por grandes e abrangentes corporações.

As iniciativas de Biden, coincidem não apenas com a União Europeia, que vem tentando colocar limites as grandes corporações, mas também com propostas semelhantes no que é, sem dúvida, o país mais capitalista do mundo, a China, que já vem criando limites as empresas chinesas de tecnologia.

Esses movimentos nos polos extremos, colaboram no movimento que procura uma redefinição do capitalismo uma tendência mundial, e uma prova clara de que se realmente queremos enfrentar os problemas do mundo de hoje, nunca podemos fazê-lo fingindo usar o mesmo sistema que os causou.

A tecnologia provoca isso de fato, e querer simplificar seu uso, e ou controle é comum aos ignorantes que não tem a dimensão do que estamos diante, onde a lógica da competição e do domínio de mercado tendem a acelerar essas distorções. Um mundo com maquinas cada vez mais inteligentes em sociedades cada dia mais desiguais.

Os números mostram que erramos, e é preciso reinventar um universo novo e mais justo de oportunidades para todo, e que elas sejam iguais.

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