TECNOLOGIA A ACELERADORA DA DESIGUALDADE?

Nunca na história da humanidade a conversão das diversas tecnologias anunciou uma desigualdade tão gritante, em uma velocidade tão grande.

A Inteligência Artificial, alicerçada nas tecnologias convergentes deve produzir em poucas décadas o que muitos avanços tecnológicos não conseguiram realizar em séculos, e logo “as consequências dessa aceleração são profundas, porque tudo o que aprendemos no passado fica cada vez mais rapidamente obsoleto, e tudo aquilo que estamos acostumados a fazer tende a não dar mais resultados! Assim, a tecnologia recria a realidade: quanto mais disruptiva e viral for a primeira, mais rapidamente ela reconfigura a segunda,” como destaca Martha Gabriel no seu livro, “Inteligência Artificial – Do Zero ao Metaverso”.

O avançar das tecnologias sempre será determinado pelas estruturas de capital que determinem o que é e o que não é prioridade.

Vejamos o que seria mais importante, ter água encanada em todas as casas ou celulares? Ter energia elétrica na casa de todos ou celulares? Pois no Brasil ainda temos cerca de 18,4 milhões de brasileiros sem poder lavar as mãos todos os dias. Se você não consegue passar alguns poucos minutos sem energia na sua casa ou trabalho, imagine que no Brasil mais de 4 milhões de brasileiros não tem energia nos seus lares. A lógica comercial sempre prevalece, e por isso no Brasil temos 242 milhões de celulares, ou seja são mais celulares do que habitantes.

Nem é preciso discutir a importância da água encanada e da energia como requisitos para o desenvolvimento saudável das pessoas, mas ela não prevalece, pois a prioridade do mercado é estimulada pelo valor do ticket, na lógica de quem e quanto pode pagar.

Todas as novas tecnologias produziram avanços em escalas, todas tiveram efeitos significativos na humanidade, mas nenhuma em um ritmo tão vertiginoso quanto o atual. Será que o fato de sermos digitais traz algum benefício mais importante para a humanidade do que foi a água encanada, o esgoto ou a eletricidade? Pense por um instante no advento da eletricidade–desde o século XX, temos tido, de forma inédita na nossa história, acesso abundante e constante a uma fonte de energia que impulsiona inúmeras dimensões da nossa existência (iluminação, aquecimento, entretenimento, educação, conservação de alimentos etc.), e que chega até nós por um singelo fio (e atualmente também pelo ar): isso não apenas modificou completamente a nossa forma de viver, como também foi a base para que, inclusive, o digital se tornasse possível. E mais: muito antes ainda da revolução da eletricidade, pense no saneamento básico: os seus impactos na qualidade de vida e saúde dos seres humanos provavelmente foram tanto quanto ou mais significativos do que os das tecnologias digitais são nos dias atuais. Assim, cada revolução tecnológica contribuiu com as transformações necessárias para levar a humanidade para o próximo patamar de evolução. No entanto, se em termos de importância para o desenvolvimento humano a Revolução Digital está no mesmo nível que as suas predecessoras, o mesmo não acontece em termos estruturais da humanidade: se as revoluções tecnológicas anteriores foram a mola propulsora evolutiva da espécie humana, a Revolução Digital atual tende a nos transformar em uma nova espécie–de Homo sapiens a Homo digitalis, um misto [orgânico + digital] que emerge no planeta. “Se as revoluções anteriores melhoraram a vida humana, a digital tende a mudar o que significa ser humano,” nos dizeres da autora já citada.

A tecnologia que mostra a nossa evolução é sempre a mesma que instrumentaliza a desigualdade e as nossas diferenças, é o acesso igual e isonômico a ela que funciona como agente da transformação.

Tecnologia desiguala empresas seus produtos e serviços, cria um fosso entre pessoas, registra e aprova o tamanho da desigualdade e serve de certidão para o a indelével marca da desumanidade e barbárie que não diminui com o tempo, apenas altera as suas formas.

Nossas ferramentas sempre foram coadjuvantes no nosso processo evolutivo, em que o ser humano era o ser mais inteligente do planeta, produzindo e sendo senhor de suas criações. Com a IA, as ferramentas passam a ser ativas–aprendem, criam sozinhas e se tornam intuitivas: conseguem prever situações futuras sem a menor intervenção humana e sem ter que partir do zero a cada nova situação. Muitas vezes, essas ferramentas geram soluções que jamais teríamos condições de imaginar como seres humanos, mudando completamente as regras do jogo da vida (e todas as suas dimensões: educação, aprendizagem, negócios, entretenimento etc.).

De forma repetitiva a tecnologia tende a se tornar tanto uma bênção quanto um fardo (aliás, como qualquer outra) para a humanidade. Por um lado, o potencial de benefícios que a IA pode trazer é sem precedentes: produtividade, precisão, velocidade de desenvolvimento e possibilidade de ampliação de tudo o que cérebro humano faz hoje. Por outro lado, esse mesmo potencial, se mal utilizado, também pode trazer malefícios no mesmo grau de grandeza, assim como gerar uma disputa por poder, aumentar desigualdades e acelerar transformações em um ritmo que coloque em risco a sustentabilidade da essência humana. Assim, quanto maior a velocidade, mais importante se torna acertar a direção: velocidade sem direção tende à catástrofe.

A intervenção da sociedade civil organizada é fundamental na produção de atos regulatórios que estabeleçam padrões evolutivos dessas novas tecnologias, e não é diferente no caso da IA.

As normas não podem servir de freio para evolução de novas tecnologias, mas devem refletir o conjunto ideológico e humanístico da sociedade como traço desse processo.

Olhe ao seu redor, nas calçadas das nossas cidades, sejam elas grandes ou médias, onde muitas vezes adolescentes caminham com seus celulares de último modelo, e seguem digitando interagindo nas suas redes sociais enquanto o mundo passa aos seus olhos. Na mesma calçada o pedinte incrédulo, que tudo observa, acompanha o caminhar de todos na esperança de encontrar solidariedade e atenção em meio a passos apressados, dedos nervosos e olhos atentos às telas dos seus celulares.

Certamente o universo parece caminhar em velocidades distintas, numa formação de astros que não conversam a mesma linguagem, e tampouco a mesma trajetória, nas ruas onde a miséria cresce quase que na mesma velocidade dessa tecnologia.

As ruas são o retrato desse Brasil desigual, onde privilégios são apresentados e defendidos como direitos adquiridos e onde a vontade de ampliar ainda mais privilégios, nas classes (ou seria castas) nunca cessa. São penduricalhos sem fim, ainda que pagos com os tributos que toda sociedade sustenta.

Para além desse registro, evidencia-se o aumento da população em situação de rua em São Paulo (apenas para exemplo), alavancado pela crise econômica e pela pandemia, acirrou a disputa debaixo de pontes e viadutos. Em 2015, a cidade tinha 16 mil pessoas vivendo nas ruas. No último censo, de 2019, o número subiu para 24.344.

Essa é apenas uma fotografia, de uma sociedade que evolui com tecnologias de última geração, e parece ser incapaz de resolver problemas tão simples, aumentamos o número de alimentos produzidos e nada disso nos permite alimentar a fome de quem tem fome, pois para esses a lógica parece ser outra, indiferente e cruel.

É o capital humano que faz a diferença na transformação digital, mas é preciso o mínimo de infraestrutura tecnológica para que possamos formar esses profissionais, não é apenas um requisito laboral, mas sim uma questão de valor humano. A cidadania digital, se faz com acesso pleno a todos e não apenas poucos favorecidos.

E qual o papel da tecnologia? Parece claro que a tecnologia é um ambiente que dota as empresas com uma capacidade desesperada de exercer o poder monopólio em muito menos tempo do que antes, e isso exige que os governos tenham muito mais pressa em sua regulação.

O efeito dessa nova economia, está bem destacado na obra, “O capital no século XXI”, do economista francês Thomas Piketty que analisou a crescente disparidade de posses entre uma minoria de muito ricos e o resto do mundo. Nos Estados Unidos, em 2014, o 0,01% mais rico, que consiste em apenas 16 mil famílias, controlava 11,2% de toda riqueza, o que pode ser comparado a 1916, época da maior desigualdade mundial. Hoje o mesmo 0,1% detêm cerca de 22% da riqueza total, o mesmo que 90% de toda população na base da pirâmide, sendo que igual distorção não é muito diferente na Europa.

A tecnologia provoca isso de fato, e querer simplificar seu uso, e ou controle é comum aos ignorantes que não tem a dimensão do que estamos diante, onde a lógica da competição e do domínio de mercado tendem a acelerar essas distorções. Um mundo com maquinas cada vez mais inteligentes em sociedades cada dia mais desiguais.

Os números mostram que erramos, e é preciso reinventar um universo novo e mais justo de oportunidades para todo, e que elas sejam iguais.

A disruptura sem propósito sempre será impulsionada pela lógica do mercado, e logo funcionará assim como aceleradora da desigualdade. As inovações tecnológicas que transformam radicalmente a sociedade, são chamadas de disruptivas,  porque causam uma “ruptura” na lógica de funcionamento dos modelos de mundo, alterando completamente as regras sociais e econômicas. Vejamos o caso da escrita pois a partir dela, tornou-se possível para a humanidade acumular e trocar conhecimento, relocando os polos de poder econômicos e sociais. As revoluções tecnológicas caracterizam-se quando muitas tecnologias disruptivas emergem e passam a atuar simultaneamente no mundo–esses períodos transformam e impactam todas as dimensões da humanidade: ambiente, escassezes, relacionamentos, saúde, cultura etc. Nesse sentido, no cenário tecnológico atual podemos destacar as principais tecnologias emergentes que estão reestruturando o planeta, responsáveis pela transformação de tudo aquilo que conhecemos como realidade. São elas: IA, IoT (Internet of Things, ou, em português, Internet das Coisas), 5G, Big Data, Blockchain, Robótica, Nanotecnologia e Impressão 3D. Essas tecnologias não são tendências, mas sim, realidade, já presentes no nosso cotidiano e em pleno processo de evolução contínua.

Toda essa tecnologia pode sim ser utilizada pelo bem da humanidade, e não faltam exemplos desse avançar, afinal aqui não vemos a tecnologia como fonte dos males, mas seu uso e a lógica única do mercado, é evidente que quem empreende e assume riscos precisa ter resultados, mas só não podemos ser ingênuos na neutralidade das corporações que dominam o novo desenho econômico.

Destaco que apesar de serem executados por máquinas, os sistemas algorítmicos foram desenvolvidos e programados por seres humanos, de modo que suas funções não devem ser tratadas como meramente tecnológicas, isto é, como se houvesse neutralidade em seu funcionamento. Portanto, os “artefatos podem ter propriedades políticas”, econômicas e sociais. Preconceitos humanos e valores estão embutidos em cada passo do desenvolvimento dessas tecnologias e, por isso, a informatização acrítica pode conduzir ao aprofundamento de desigualdades e de processos discriminatórios.” Como destacam na obra “Colonialismo de dados: como opera a trincheira algorítmica na guerra neoliberal”, y Sérgio Amadeu da Silveira, Joyce Souza, João Francisco Cassino, Débora Franco Machado et.al.)

A lógica do avançar da humanidade precisa sobressair sobre a orientação única do resultado financeiro à todo e qualquer custo, o lucro não pode advir da não proteção dos dados e da manipulação de algoritmos.

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