SUBSTACK E A VELHA MÍDIA, PARCEIROS OU INIMIGOS?

Poucos sào os segmentos da economia que tem sofrido tanto com a transformação digital, quanto as mídias tradicionais, afinal a disruptura do modelo econômico não passa apenas pela digitalização do conteúdo e dos seus formatos, mas pelo modelo de negócio, a maneira da publicidade alcançar e a disputa pelo tempo revertido em monetização.

O que faz com que o concorrente da mídia tradicional seja qualquer coisa que tome o tempo de leitores, ouvintes e telespectadores, e com isso sua verba de publicidade.

Muitas são as tentativas de reinvenção, ou de novos modelos, assim acontece com o Substack lançado em 2017, na época, com a ideia de fornecer um serviço para a monetização de boletins enviados por e-mail.

De forma bem didática ele é uma plataforma de estilo muito médio para localizar pessoas que escrevem sobre os temas que lhe interessam, e poder formalizar uma assinatura de suas publicações por um mínimo de US$ 5 por mês ou US$ 30 por ano, que os autores recebem em sua totalidade menos a comissão de 10% que a empresa mantém.

No primeiro ano de seu lançamento, a proposta da Substack conseguiu convencer cerca de 25 mil usuários, que começaram a usá-lo para pagar suas assinaturas de conteúdo. Com o passar do tempo, o crescimento começou a ocorrer de forma exponencial, já atingindo mais de meio milhão de usuários atuais, o que permite com que alguns autores, conhecidos, deixassem a mídia em que publicavam para começar a escrever por conta própria no Substack e acabassem, em muitos casos, ganhando mais dinheiro do que ganhavam anteriormente.

É evidente que ainda estamos muito distantes de um número de assinantes, que possa ser comparado com alguns meios de comunicação tradicionais, mas estamos falando de um crescimento forte e, acima de tudo, de uma dinâmica preocupante: quando você vê colunistas regulares em Slate, Vox, New York Times ou BuzzFeed abandonar esses meios de comunicação, com todo o seu arsenal de agenda e contatos, começar a escrever em Substack e, além disso, continuar a publicar um bom conteúdo agora sendo seus próprios editores.

Primeiro perde-se o público e agora os produtores de bom conteúdo, para novos meios de mídia, como fica a mídia tradicional diante desse novo desafio?

Um desafio que alcança a todos, também atinge a mídia e quem trabalha nela, afinal você sabe como será o seu emprego em 5 anos? Como estará a sua empresa com seus produtos e serviços em 5 anos? E mesmo que você seja um servidor público, tente imaginar se em 5 anos a arrecadação do estado não for suficiente para garantir o seu salário ou a sua aposentadoria?

Exato a transformação digital atinge a todos em menor ou maior grau, logo a mídia tradicional não poderia ficar de fora disso. Pense nas empresas e não são poucas que nesse instante desperdiçam a oportunidade de se redesenhar, empenhadas em não aproveitar a oportunidade da pandemia para fazer mudanças na forma como trabalham, contra aquelas que consideram entender as mudanças no contexto para buscar modelos organizacionais mais adequados.

Como destaca Henrique Dans, essa lógica é avassaladora: o uso da tecnologia como forma de melhorar a eficiência da coordenação. Uma organização que trabalha de forma distribuída, independentemente de alguns ou todos os seus trabalhadores podem ir a um determinado local físico com uma frequência relativa, força o desenvolvimento de meios e rotinas de coordenação que possibilitem uma gestão mais eficaz, que não precisa se concentrar tanto na vigilância e na microgestão, mas na tentativa de coordenar talentos.

As novas plataformas que concorrem com a velha mídia, surgem sim, com novas gestões, mais flexíveis em empresas que foram capazes de se adaptar bem ao trabalho distribuído, que estão perfeitamente dispostos a incorporar trabalhadores nesse formato, e incorporar talentos sem se preocupar muito, exceto às vezes por razões operacionais de horário, de onde no mundo eles estão.

O mercado nem sempre aguarda você se adaptar, pois é um redesenho de ocupações, funções e com isso toa a estrutura que cerca essas relações.

Logo a nova mídia é multicanal e multiplataforma, por isso se você trabalha em uma rádio, se prepare para os podcasts, para as redes sociais, para a multiplicidade de canais de mídia que permitem você multiplicar seu conteúdo.

E se você é um canal de mídia como uma rádio ou um jornal? Pense nas alianças estratégicas, lembre-se que quanto mais demora para redesenhar seu negócio, e redimensionar o tamanho dele é sempre um processo moroso. Quantas são as alianças possíveis com os veículos que você sempre olhou como concorrente? Quais são as alianças necessárias que resultem em redução de custos?

No processo de redesenhara a velha mídia, que ainda tem credibilidade é preciso entender as novas rotinas desses novos leitores ou telespectadores.

Não existe mágica nesse processo de transformação da velha mídia.

O que me faz lembrar o que na mitologia Grega, ganhou o nome de Cornucópia, um símbolo que representa a fertilidade e a abundância. É uma espécie de fonte natural que fornece gratuitamente e ilimitadamente todos os bens necessários às expectativas humanas. Algo próximo do paraíso.

Cornucópia era representada por um vaso em forma de chifre, com uma enorme abundância de frutas e flores transbordando em torno dele. Na era moderna, a Cornucópia é representada pela mistificação da racionalidade humana e da tecnologia, a tecnologia que tudo movimenta, e que cria facilidades para todos e novos impérios.

Os autores Peter Diamandis e Steven Kotler, no livro “Abundance – The Future Is Better Than You Think” (Abundância – o futuro é melhor do que você pensa), de 2012, tratam a tecnologia como uma Panacéia capaz de fazer brotar a abundância, manter o crescimento exponencial e democratizar o bem estar. Para eles, um guerreiro Masai, do Quênia, dispõe hoje em dia de mais informação, pelo Google, ou pelo celular, do que o presidente dos Estados Unidos há 15 anos, curioso, nunca tivemos tanta informação e nunca se viu tanta ignorância.

No livro Abundance, os autores consideram que todas as pessoas do mundo teriam acesso aos direitos básicos de alimentação, energia de baixo custo e mínimo impacto ambiental. Todos os seres humanos viveriam em democracias plenas, graças a 3 vetores de forças: 1) devido a filantropia e ao crescimento de doações generosas dos chamados tecnofilantropos multibilionários que estão investindo em inovação?e transparência, com foco global; 2) devido ao empreendedorimo schumpeteriano de indivíduos e pequenos grupos capazes de brincar com genética e desenvolver engenhocas no fundo do quintal, disponibilizando suas descobertas na world web; 3) devido ao crescimento da classe média mundial que estaria incorporando as pessoas extremamente pobres e famintas (cerca de 1 bilhão de habitantes do mundo que estão em situação de insegurança alimentar e ganham menos de US$ 1,25 por dia) ampliando o universo de riqueza potencial, devido, principalmente, à tecnologia.

De acordo com a mitologia grega, a cabra Amaltea criou com seu leite um Zeus forçado a esconder de seu feroz pai, Cronus. Quando criança, e enquanto brincava com um de seus raios, Zeus inadvertidamente quebrou um dos chifres de Amaltea, e para compensá-la, ele conferiu ao chifre quebrado o poder de que quem a possuísse seria concedido tudo o que ele poderia precisar ou desejar. É daí que veio a lenda da cornucópia.

Já o significado de Panaceia está associado com a Mitologia Grega, sendo o nome de uma das filhas de Asclépios, o deus da Medicina e filho de Apolo. Panaceia é aquela que consegue curar qualquer tipo de doença, irmã de Higéia, que significa “sã, em bom estado de saúde”. Hoje em dia, panaceia denomina algum medicamento que tem a capacidade de cura de qualquer forma de doença. Panaceia universal é uma expressão que designa uma medicação que é muito procurada por alquimistas, pois eles creem que ela pode mesmo curar todas as enfermidades.

Um bom exemplo do derretimento da mídia tradicional é que em 2020, o ano em que a Tv brasileira comemorou 70 anos, as emissoras de sinal aberto assistiram a NETFLIX sozinha faturar mais do que todas as tvs juntas, excluindo a Globo.

Se antes da pandemia a queda do faturamento já impressionava, vamos tomar como referência o fato de que de 2015 a 2018 todas Tvs juntas perderam mais do que o faturamento inteiro de um SBT (R$1,3bi), isso mesmo, em 2015 todas juntas faturaram R$ 14,2 bilhões e em 2018 faturaram R$12,8 bilhões, se levarmos em conta o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPC-A), neste período a queda de faturamento saltou para R$ 3,3 bilhões.

Neste ano de 2021, o mercado projeta que a Netflix deva faturar, no Brasil cerca de R$ 7,7 bilhões, logo, ao ser comparada pelas demais TVs abertas o canal de streaming sozinho é maior do que todas as demais tvs juntas.

Se em 2018 a base de usuários de Netflix no Brasil era de 8 milhões de assinantes, em 2021, ela pode ultrapassar 18 milhões, mais do que todas as tvs por assinatura juntas.

O fato é que quando a popularização da internet começou no final dos anos 90, a mídia tradicional progressivamente perdeu grande parte dos orçamentos publicitários que os anunciantes dedicavam ao papel, e grande parte desse orçamento, em vez de ficar em seus mesmos cabeçalhos, mas em suas versões online, foi para outras páginas. Além disso, eles perderam receita de anúncios classificados nas mãos de um bom número de serviços online, do eBay ou Craigslists, para outros como Idealista, Wallapop, Vinted, e muitos outros, o que também foi outro forte revés econômico. Agora, eles podem perder outro bastião importante quando se trata de atrair leitores: colunistas.

Esse é precisamente o terreno em que Substack se move perfeitamente: o da pessoa apaixonada por um assunto, que o conhece muito bem, e que escreve sobre isso não tanto cobrindo notícias, mas escrevendo sobre o que quer, com uma mistura de opinião, experiência e reportagem. Não estamos falando do típico jornalista que escreve várias crônicas por dia, um dia cobre um evento de um tema e outro, nem aquele que faz de você uma crônica de acontecimentos, muito menos aquele que escreve a partir de notas de agência, mas de outro perfil muito diferente, e para muitos leitores, de um valor diferencial da mídia que lê. E o que a Substack está fazendo não é apenas identificar esse perfil de escritor muito bem, mas até mesmo oferecer-lhes acordos financeiros e avanços para ir com eles e atrair assinantes. Em muitos aspectos, o criador de conteúdo capaz de manter um público razoavelmente leal sente seu talento melhore reconhecido monetariamente, e um maior compromisso de seus leitores em um site como Substack ainda melhor do que em um meio tradicional. E embora redes como Twitter ou Facebook tenham tentado atrair colunistas com serviços semelhantes ao Substack de boletins pagos, no momento eles ainda parecem estar longe de alcançá-lo, como bem destaca Henrique Dans.

Nesse sentido, o que a Substack oferece é praticamente total liberdade criativa um nível quase inexistente de moderação – e a possibilidade de que, se você convencer uma pequena porcentagem de seus leitores regulares a assinar sua newsletter, você pode ganhar quantias bastante respeitáveis. Essa proposta, que está efetivamente começando a atrair figuras cada vez mais relevantes e com acompanhamento da mídia tradicional, ameaça a capacidade desses meios de manter uma oferta de conteúdo atraente e geradora de fidelidade, e poderia deixá-los com a parte possivelmente menos diferenciada, além de representar um pagamento por uma assinatura adicional.

A mídia tradicional, não deve olhar a emissora do lado como concorrente, pois a maioria das empresas que concorrem nas verbas publicitária, não são do mesmo seguimento.

É preciso estar atento para o redesenho e para as oportunidades.

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