SHAKESPEARE E O SONO NA SOCIEDADE DA DESATENÇÃO

A história dos homens é também a história dos seus símbolos comunicacionais, e logo muitos gestos falam mais do que muitas palavras, o que dizer do casal que em um restaurante a luz de velas, escolha o celular como diálogo e frente a frente pouco se falam, apenas registram curtidas e likes em seus celulares. Quando deixamos de ser interessantes uns para com os outros? A sociedade da desatenção e nossos vícios milimetricamente estudados para o usos das nossas telas de celulares vem gerando a cada dia um distanciamento maior daqueles que estão do nosso lado. A minha crítica ao uso das redes sociais nunca é sobre o que entendemos ser relevante publicar, mas o tempo que resolvemos usar para ver, não é sobre escolhas mas sim sobre o tempo e atenção que damos aos que estão longe e a desatenção para os que estão próximos. O que me lembra de Shakespeare “Há certas horas, em que não precisamos de um amor, não precisamos da paixão desmedida, não queremos beijo na boca e nem corpos a se encontrar na maciez de uma cama. Há certas horas, que só queremos a mão no ombro, o abraço apertado ou mesmo o estar ali, quietinho, ao lado, sem nada dizer…

É dessa proximidade que nossos celulares nos afastam, onde curtimos, e nos esquecemos de ligar e de perguntar como vai você?

É sobre deitar ao lado e estar definitivamente presente, com o ombro e o abraço ofertado.

Segundo um trabalho publicado na Sleep Epidemiology, viciados em mídias sociais sofrem muito. Um novo estudo, feito por cientistas da USP e da Unifesp, 65,5% dos brasileiros relatam problemas relacionados ao sono.

As mulheres são as mais afetadas: respondem por um terço dos casos, um dado recorrente em outros estudos nacionais e internacionais. Sofrem também os aficionados em mídias sociais, que não conseguem deixar de lado os smartphones nem na hora de ir para a cama.

O novo trabalho, revelou ainda algo pouco comum: um aumento dos problemas de sono entre homens jovens, o que costuma ser raro.

Os chamados transtornos do sono são, basicamente, apneia, síndrome das pernas inquietas, narcolepsia e, o mais comum de todos, insônia. Mas as pessoas podem ter um sono ruim por vários outros fatores.

São vários os fatores que contribuem para isso, como estilo de vida, problemas financeiros, dificuldades de agenda, insegurança, ansiedade, depressão, obesidade, conectividade excessiva, explica.

O trabalho mostrou que os fatores mais citados como responsáveis pela qualidade ruim do sono são: o diagnóstico de insônia, o uso de mídias interativas pouco antes de dormir e a ausência do parceiro na mesma cama. Isso mesmo: os brasileiros dormem pior quando não estão acompanhados.

O sono é fundamental para a saúde física, o bem-estar, a performance cognitiva e o funcionamento diário mais básico. Pessoas que não dormem bem têm mais tendência a apresentar problemas cardiovasculares e obesidade.

O nosso evoluir precisa muito disso, de trocarmos a visualização das telas de celulares por nossos olhares apaixonados, por filhos, amigos, pais e pela pessoa amada, presente ou distante, hoje ou amanhã. Seja no revigorar dos nossos sentimentos ou na ressignificação da saudade, a desintoxicação digital deve ganhar espaço na valoração do tempo.

O tempo esse ativo intangível, um presente de nossa existência terrena, que precisa ser ressignificado. O tempo é igualmente dividido de forma cartesiana para você ou para o seu vizinho, o valor dele sempre será na escolha das suas atenções, ou das suas desatenções.

Por isso nasce a importância do controle do tempo que dedicamos as redes sociais e outros usos que fazemos de celulares, tablets e outros dispositivos, que são consumidores vorazes das nossas preciosas horas, minutos e segundos, de onde trocamos o olhar de amados, de paisagens e memórias afetivas para saber o que o distante amigo digital resolveu almoçar no dia de domingo, em qual praia foi ou qual vinho escolheu para beber. A vida é o caminhar das escolhas e da valoração dessa comoditie chamada tempo.

Tente fazer esse teste, e vá nas configurações do seu celular e veja lá “tempo de uso” pra ter a medida de quanto tempo da sua atenção o seu celular consome.

Cada vez mais, tirar um descanso das redes sociais e das telas e mudar a forma de se relacionar com a tecnologia é uma atitude que pode contribuir para a saúde física e mental, já que a pandemia forçou muitas pessoas a passarem prolongadas horas na frente da TV, computador ou celular, seja por trabalho ou lazer.

Segundo uma pesquisa realizada em janeiro de 2021 pela agência We are Social e pela plataforma Hootsuite, no ranking de tempo de uso da internet em dispositivos diversos, o Brasil está em segundo lugar,. Com 10h08 de uso diário, em média, só perdemos para as Filipinas neste levantamento feito com pessoas de 16 a 54 anos, sendo que a média global são 6h54 diárias. Já na pesquisa da Kantar Ibope Media, divulgada em março, 69% das pessoas que acessaram a internet por dispositivos móveis afirmaram não viver sem ela no celular.

O tempo dispendido, em muitos casos gera dependência e dependentes patológicos manifestam sintomas de ansiedade, angústia e nervosismo, como suor e tremores, quando percebem que estão impossibilitados de usar a tecnologia e necessitam de tratamento com medicamentos e terapias.

A educação digital, como instrumento de saúde pública deveria ser estendido para controle dos aparelhos e limitações de tempos de uso para muitos aplicativos, como jogos por exemplo, pois crianças hoje consomem horas do seu dia em jogos sem qualquer controle.

As redes sociais estabelecem uma relação de consumo, onde os aplicativos nos fornecem ferramental para divulgarmos nosso conteúdo e interagirmos e recebermos conteúdo de outros, em troca recebem nossos dados e o nosso tempo. É o nosso tempo, que é a moeda nessa troca, junto com nossos dados e ao mesmo tempo nosso vício, que nos transforma em escravos nessa relação que em muitos casos beira a enfermidade.

Logo quanto mais tempo nesse universo digital, mais distante nos colocamos no plano físico, a assepsia das relações digitais ergue um muro no mundo real com relações cada vez mais distantes e mais vazias, onde curtidas são confundidas com aceitação e comentários com concordância, alimentando sua bolha.

Nesse momento, nossos telefones nos enganam a acreditar que tudo é urgente, que nunca temos que ficar entediados e que somos bons em multitarefa. Eles nos dão afirmação positiva suficiente para que não possamos sair na rua sem eles, por isso em frente ao belo mar acabamos vendo pessoas contemplando a ‘natureza da sua tela de celular”.

Distância desses dispositivos é uma boa maneira de ressignificar seu tempo, pois se você o tem por perto, você dorme mais tarde porque você se distrai olhando para ele e a luz azul que ele emite torna difícil dormir. Além disso, se você olhar para ele no meio da noite, você pode acabar sendo perturbado pelas coisas que você vê.

Para não ir para a cama com inúmeras preocupações na cabeça, lembre-se que você é mais feliz se você só faz uma atividade de cada vez e neste caso é dormir, então concentre-se em deixar seu quarto confortável. Sono de boa qualidade não é sobre dormir quando você está muito cansado para manter os olhos abertos, é sobre fazer um plano ao longo do dia para obter o que você precisa descansar. Se você conseguir dormir melhor, você será capaz de resolver mais desses problemas no dia seguinte e fazer mais.” Quando se trata de se levantar, em vez de pegar o smartphone, ele se propõe a pegar um livro e, com paciência e desejo, dedicar 10 minutos de atenção a ele.

Em tudo, que tocamos ou fazemos existe uma escolha, de valor ao seu tempo, adoro esse trecho de lavoura arcaica, do brasileiro Raduan Nassar, um autor fantástico como os parágrafos abaixo: “O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é, contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo, entretanto, prover a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é…”

Seja feliz, nas escolhas do que tocar, o que falar e como dedicar seu tempo, afinal invariavelmente o design inteligente das telas não quer sua felicidade, mas apenas seu tempo. O que levamos pra cama pode falar muito sobre nós, e qual o sentido de levar a vida de estranhos e suas redes sociais pra cama?

Me socorro novamente de Shakespeare: “A miséria habitua o homem a estranhos companheiros de cama.”

Para ele esse momento era sagrado “para a cama, para a cama; O sono mate os olhos bonitos e dê como apego suave aos teus sentidos, como bebês vazios de todo pensamento.”

Logo a assepsia digital ganha seu maior apelo nessas valorosas horas de descanso, definindo o que levamos para cama. Tenha bons sonhos!!

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