SE ALGO ACONTECER…TE AMO

Dirigido por Will McComarck e Michael Govier, “ Se Algo Acontecer…Te Amo”, belíssimo curta exibido pela  Netflix oferece uma dura, mas imensamente necessária, reflexão sobre a efemeridade da vida, e pra isso bastam cerca de 12 minutos, afinal a profundidade das relações e das narrativas não dependem do tempo, mas da intensidade que colocamos nelas, como as escolhas de nossas vidas.

Na animação, um casal tenta reconquistar a conexão perdida por uma tragédia familiar, uma conexão que foi e é forte, mas que a tragédia colocou sombras sobre tudo que havia de bom.

Os tempos digitais parecem a todo momento repetir essa armadilha, tentam resumir vidas em fotos ou pequenos vídeos, jogam fora tudo que se vive e viveu de forma intensa, distorcem relações e acontecimentos para focar apenas nas narrativas curtas de momentos ruins onde as diferenças e versões se destacam.

Essa dinâmica atual, como na música do Chico, parece colocar tudo de bom que se vive na sombra, afinal amantes da perfeição digital acreditam que dar luz as diferenças e ao desconforto pode matar o que a vida nos proporciona de bom, e ai a letra de Roda Viva é perfeita:

“ Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu  “
….

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

E assim segue o curta metragem quando adentra numa emocionante jornada através das memórias de um tempo distante, eles enfim começam a consertar as fraturas de seu relacionamento.

Para narrar sentimentos, não precisa de muito orçamento, para encantar o coração não precisa de investimento, mas sim de muita ação e desprendimento, arrumar o que tem de errado, perdoar o que não foi feito com propósito de magoar e dar luz ao que de fato é importante.

Usando de animação com desenhos feitos à mão, a produção se destaca principalmente por seu visual, adotando estratégias de composição, marcada por uma coloração que mistura o preto e o branco, se o início a narrativa é melancólica, pois são as feridas que se evidenciam, e logo faltam cores, conforme o pessimismo de esvai surgem as cores com o surgimento de tons mais vibrantes.

Na animação, as sombras ganham destaque, hora na esperança, hora no medo, como todo caminhar relacional da vida, afinal amar é só para os fortes.

As sombras, remetem a tristeza do universo construído, de forma que esses espectros de penumbra oscilam entre ações negativas, que amplificam a tensão uma vez que revelam a intensidade do distanciamento entre os protagonistas. Logo, onde e o que daremos destaque nas nossas relações? Qual memória dos encontros e das rotinas queremos dar nesses tempos líquidos, onde amores dão lugar à distância e projetam sombras nas paredes das nossas casas?

O casal distante olhas paras as sombras, e se esquece das cores de toda peregrinação. São vários os traços que antecipam a breve história que o filme convida o espectador a conhecer, preparando-o para esse mergulho tocante que ainda é alavancado por uma bela trilha sonora.

“Se Algo Acontecer… Te Amo” apresenta, como num balanço, um mosaico de memórias que navega entre o passado e o presente e que por isso comove, por ser humano, e distante da almejada perfeição que nossos avatares digitais divulgam.

Chico Buarque poderia ter feito a trilha desse curta metragem, pois não faltam em suas letras, narrativas para contar esse curta, ou nossas vidas, como “ Pedaço de Mim” uma letra pra rasgar a alma, e lembrar que as luzes são feitas para iluminar o que há de belo entre nós, e deixar as sombras e a projeção dos nossos medos, para nossas sessões no divã.

Afinal, como diz a letra:

“ Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar…..

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Faça das dúvidas uma curta passagem, das sombras uma distante lembrança, e do amor uma missão.

Que sejamos felizes, com as nossas melhores lembranças….

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