SAÚDE, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E PRECONCEITO NA ECONOMIA DA DESATENÇÃO

Em que pese a Lei Geral de Proteção dos Dados das Pessoas e o Marco Civil da Internet fixando limites e parâmetros para o tratamento dos nossos dados, a lógica do mercado na economia da desatenção é por demais avassaladora. Não faltam subterfúgios, convênios e parcerias para driblar a proteção do usuário ou até mesmo convencê-lo de que para ter algum benefício ele precisa abrir as portas do inferno da invasão da privacidade.

Na disputa do seu tempo, para com ele obter mais dados seus, vale tudo no uso de ferramentas e estratégias de marketing para tomar a sua atenção e de quebra receber mais dados seus. Afinal quanto mais dados mais personalizada fica a comunicação e a oferta, e logo mais barata será a “conversão” da sua atenção em receita, e quanto mais distraído, mais tempo você perde e logo tempo é dinheiro para eles, na lógica canhestra da economia da sua “desatenção” mas como se viram os canais de mídia tradicional que não dispõe da mesma quantidade de dados? E quem precisa de tantos dados?

A digitalização de nossas rotinas fez crescer o espaço dedicado ao armazenamento dos nossos dados, que vai desde os nossos registros pessoais até os dados das máquinas que nos servem e tem no uso, tratamento e estudo desses dados a possibilidade de conduzir as nossas escolhas futuras sobre a dedicação do nosso tempo, a aquisição de produtos e de serviços.

Essa disputa pela sua atenção e seus dados ganha novos riscos quando os dados se referem à sua saúde, e perigosos são os desdobramentos que podem ser feito do uso desses dados.

Nesse momento corporações da área de tecnologia desenvolvem constantemente aplicativos e dispositivos com sensores, ao mesmo tempo que ampliam o discurso de que o ser humano precisa se autorrastrear para manter a própria saúde, o auto rastreamento implica em registrar o que ele faz 24 horas por dia, quanto caminha, quantos degraus costuma subir ou descer, o tempo médio que você repousa, a velocidade que caminha, se anda de bicicleta, qual o seu batimento quando dorme, quando corre, quando caminha, qual a sua pressão média e nos seus momentos de esforço físico.

Afinal ao adquiri um Apple Watch ou um Samsung Watch pelos mais variados motivos, ele carrega uma série de sensores em seus dispositivos que, interligados a um aplicativo de saúde instalado em seus smartphones, registram e apresentam dados relacionados à saúde de uma pessoa, como atividades físicas realizadas, quantidades de calorias gastas, monitoramento de batimento cardíaco, quantidade de passos dados no dia, quanto tempo a pessoa ficou sem se movimentar, se ela dormiu bem ou não, se ela está concentrada, se ela precisa respirar melhor, devido à detecção de uma respiração mais ofegante, entre outros. Inclusive, esses relógios são comercializados por essas corporações com propagandas como “controle da saúde e bem-estar no seu pulso” ou “monitoramento mais avançado de saúde”, no caso da Samsung, logo acabamos viciados nessa troca de benefício, quanto mais usamos eles mais dados nossos eles coletam e nos informam.

Todos esses dados acabam alimentando uma série de sistemas, que por sua vez alimentam algoritmos, desenvolvidos por uma série de razões, notadamente de objetivos comerciais, o que não seria problema se você fica sabendo de tudo que é feito com esses seus dados, como são protegidos, quem realiza o tratamento desses dados, se existe troca ou venda desses dados com fornecedores e parceiros.

Logo é importante frisar que, apesar de serem executados por máquinas, os sistemas algorítmicos foram desenvolvidos e programados por seres humanos, de modo que suas funções não devem ser tratadas como meramente tecnológicas, isto é, como se houvesse neutralidade em seu funcionamento. Portanto, os “artefatos podem ter propriedades políticas”, econômicas e sociais. Preconceitos humanos e valores estão embutidos em cada passo do desenvolvimento dessas tecnologias e, por isso, a informatização acrítica pode conduzir ao aprofundamento de desigualdades e de processos discriminatórios, como bem destacam, Sérgio Amadeu da Silveira, Joyce Souza, João Francisco Cassino, Débora Franco Machado na obra “Colonialismo de dados: como opera a trincheira algorítmica na guerra neoliberal”.

Logo tente imaginar o que ocorre na coleta massiva e contínua de dados na área da saúde, tendo como origem diversos segmentos: hospitais, clínicas, laboratórios, planos de saúde, registros de compras em farmácias, aplicativos médicos móveis, sensores de monitoramento de atividades físicas e do sono, mecanismos de buscadores de pesquisas, interações em redes sociais, entre outros.

Já imaginou se o seu plano de saúde recebe do google a informação de localização sua de forma constante em uma farmácia, e se essa farmácia informa de maneira online, ainda que sem dizer o seu nome, os remédios que são vendidos de forma online, e por cruzamento de dados entre a sua localização, a venda online seu plano de saúde recebe a informação dos medicamentos sem prescrição médica que você compra. Tente imaginar o impacto desse cruzamento de dados com o resultado dos seus exames laboratoriais no momento da renovação do seu plano. Tente imaginar que na próxima oferta de plano o calculo actorial do fator risco saúde, doença ou falecimento pode ter considerado essa informação para assinatura ou renovação do plano de saúde , previdência ou seguro de vida.

Toda essa coleta é comumente justificada pelos benefícios sociais que ela envolve, principalmente, nos aspectos relacionados à prevenção e nos âmbitos dos trabalhos da medicina baseada em análises de evidências e da medicina “personalizada”.

Esse processo de dataficação e mineração dos dados de saúde, visto apenas sob o viés positivo, está baseado em suposições ideológicas pautadas no dataísmo, que pressupõe que a coleta de dados ocorra fora de qualquer estrutura predefinida e que a análise desses dados é neutra e serve apenas para ampliação de conhecimentos, que serão revertidos em benefícios à sociedade, um misto de ingenuidade é fé.

Sim, com todos esses dados disponíveis uma pessoa pode ter seu dado classificado como alto custo médico ou probabilidade alta a doenças graves e só descobrir isso quando algum serviço ou produto lhe for negado, como um seguro saúde ou de vida, um crédito ou financiamento ou uma vaga de trabalho. Essas classificações ocorrem sem que a pessoa ao menos saiba de onde elas se originam, quais são os mecanismos de coletas de dados utilizados, se os dados foram coletados em distintas plataformas e serviços, incluindo aqueles com os quais a pessoa sequer imagina que tenha relação, como compras em supermercado. Quanto mais opacos forem esses processos de classificação, tanto maior serão a discriminação e a desigualdade. No caso de um processo judicial visando à contestação e revisão das classificações impostas a um indivíduo, poderão ser necessários inúmeros passos, de sorte que a capacidade de arcar com esses custos dependerá, como sempre, de uma distribuição preexistente (provavelmente desigual) de recursos para contratação de profissionais e pagamentos de custas judiciais, como bem destacam os autores na obra acima citada.

Nesse momento todas as empresas, e as de saúde não ficam de fora, estão enfrentando uma mudança cultural que lhes permita extrair todo o valor de seus dados. O desenvolvimento de talentos é fundamental para alcançar o objetivo.

Os dados tornaram-se a verdadeira espinha dorsal que articula processos de tomada de decisão nas empresas. É um ativo estratégico para organizações que, graças ao uso de tecnologias como inteligência artificial e machine learning, podem aproveitar ao máximo seu potencial para obter maior eficiência operacional, melhorar a satisfação do cliente, aumentar o volume de negócios adicionais nas linhas atuais de negócios e até mesmo criar novos desenhos de negócios. Isso faz com que a diversidade de dados disponíveis, tanto em termos de origem quanto de volume, ganhe uma importância ímpar, logo na sociedade da desatenção tudo flui para captura de dados e diversificação das novas linhas de receita, onde os seus dados ganham ainda mais importância.

O tratamento de todos esses dados gerando novos dados pelo cruzamento desses mesmos faz com que a capacidade de armazenagem ganhe uma importância ímpar. No entanto, esse cenário também faz com que a complexidade não pare de crescer para as empresas. Os processos de extração de valor são dificultados por diferentes razões e, portanto, novas tecnologias são a chave para aumentar a eficiência e otimizar o tratamento de grandes volumes de dados. Devido a essa natureza estratégica, há uma preocupação crescente de ter controle total sobre os dados e garantir sua proteção, custo e segurança, além do risco no vazamento e tratamento desses dados já regulados por diplomas como o RGPD e a nossa LGPD.

Por certo, o mundo está caminhando em uma direção onde cada vez mais fontes de informação enriquecem os dados, então há mais atores envolvidos e isso implica uma complexidade quando se trata de controlar ou proteger os dados. Até o momento, o problema fundamental é que na empresa não houve uma mudança cultural em torno dos dados. Esse salto requer investimentos que, até agora, se concentraram em tecnologia com pouco valor de negócio.

Diariamente, empresas sejam elas públicas ou privadas, precisam entender que os dados são um ativo muito valioso para elas, e essa mudança cultural é uma das grandes questões pendentes para que as organizações extraiam todo o valor dos dados. O valor de um negócio, a cada dia será definido pela capacidade de extração e uso dos dados da sua operação, e qual a importância daquele dado quando do cruzamento com outro dado de terceiro. Logo as rotinas e a nossa pegada digital ganham mais importância.

Vejamos no setor público a quantidade de dados que são utilizados de forma repetitiva, o que seria resolvido pelo compartilhamento público de um só cadastro, com chaves de acessos para melhor controle dos dados sensíveis, para evitar vazamento ou tratamento e acesso de dados sensíveis por servidor sem autonomia e competência funcional para fazê-lo.

Devemos modernizar a gestão de dados e desenvolver um conceito de soberania integral. Os dados são o mais importante porque nos permitem articular todo o resto, a instrumentalização dessa soberania representa menores custos na gestão pública ou privada.

Pense na administração pública projetando um novo posto de saúde ou um novo hospital, através do uso da inteligência artificial de forma justa e honesta.

Por sua vez, precisamos nesse processo de integração do comprometimento em ter regras claras, impostas pelo proprietário dos dados, e usar tecnologias e modelos de governança que o habilitem, protegendo e tendo uma via de duas mãos na governança desses dados. Ou seja, precisamos de estruturas organizacionais e tecnológicas para compartilhar dados onde a soberania e a segurança sejam respeitadas.

É sobre o poder desses dados que devemos nos debruçar na edificação de um novo desenho que aproveite o potencial dessa imensidão de novos dados, registrados das mais diversas formas.

Lembro o papel do governo, nessa transformação seja pela sua gigantesca base de dados, que vai dos dados financeiros até a nossa saúde que como nossos hábitos e relações, tudo devidamente registrado e pouco tratado.

Por último lembro que com o aprendizado de máquina, caracterizado por computadores que utilizam a combinação de big data e algoritmos para organizar dados, reconhecer padrões e aprender sem serem explicitamente programados para tal – e o aprendizado profundo – que por meio de algoritmos complexos cria uma rede neural artificial capaz de fazer previsões e tomar decisões –, a IA passou a ser aplicada nas mais diversas práticas da medicina, a saber, no atendimento a distância, no monitoramento de doenças, no auxílio em diagnósticos, em cirurgias com uso de robôs e assistentes virtuais, no avanço de tratamentos e descobertas de doenças, no fluxo de trabalhos de clínicas, hospitais e laboratórios, entre outros. Nesse sentido, entre os impactos positivos que a IA tem propiciado à área da saúde, pesquisadores e especialistas destacam: ampliação do alcance dos atendimentos em locais onde os serviços de saúde não são acessíveis; diagnósticos e tratamentos mais precisos e com menor risco de erros em emergências que exijam soluções rápidas; acompanhamento e assistência ininterruptos a pacientes com doenças epidêmicas e infecciosas; monitoramento constante de pacientes com doenças graves; ampliação na capacidade de análises de dados na área da saúde; redução de custos e auxílio na demanda por profissionais de saúde qualificados.

Esse é um ótimo exemplo do uso de dados públicos para promover avanços sociais, um assunto quente pulsante e que merece ser estudado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.