RON BUGADO, NOSSOS FILHOS, TECNOLOGIA E AFETO

Se tem algo que a sétima arte sabe fazer como poucos é tratar com suavidade temas pesados levando-nos a reflexão, e esse é o caso da animação “Ron Bugado” que mostra a relação entre um garoto e um robô avariado e desconectado das redes sociais, imperdível para você ver com os seus filhos nesse fim de semana.

Dirigido por Vine e Sarah Smith e codirigido por Octavio Rodriguez, com roteiro de Smith e Peter Baynham, a animação nasceu de um sentimento que eles compartilham como pais: como as crianças se veem e enxergam os outros pelo filtro dos algoritmos. De que maneira nossos filhos escolhem seus amigos hoje? Quantos são os amigos dos seus filhos que conseguem manter a amizade se estiverem desconectados?

Em tempos que a popularidade é medida em likes, curtidas, comentários e compartilhamentos como nossos filhos podem avaliar e serem avaliados na qualidade das suas amizades? Qual a profundidade que se constroem as amizades hoje de forma distinta de décadas atrás, bem antes das redes sociais e do permanente compartilhamento de fotos, vídeos, postagens das rotinas, das festas e das viagens?

O filme o tempo todo trabalha com sarcasmos nos termos, pra começar o local onde é fabricado o pequeno robô assistente das crianças se chama “bolha” qualquer semelhança com o que muitos de nós e dos nossos amigos e filhos vivem hoje não será mera coincidência.

No filme a bolha, que bem poderia ser a Apple ou qualquer outra Big Tech, faz o lançamento do seu novo produto com uma apoteótica apresentação, mais uma coincidência, e o que faz esse novo robô?

Um “assistente como amigo pra fazer tudo, e facilitar tudo” diz o comercial do produto, e quem não gostaria de nessa vida de procura constante por facilidades e diante de uma geração que tem muita dificuldade para as críticas e oposições? Quantos dos nossos pequenos príncipes não gostariam de um robô desenvolvido com a inteligência artificial dos dados digitais dos nossos filhos que pudesse atender todos os seus pedidos?

A empresa chama a Inteligência Artificial embarcada como “Um algoritmo da amizade” mais uma sarcástica semelhança com os pequenos semideuses da tecnologia que acreditam saber tudo que nós precisamos, basta armazenar os nossos dados, e modularem as nossas preferências e gostos através dos seus algoritmos. Logo tente imaginar, pois o “B-Bot” é exatamente isso, um robô programado com o algoritmo da amizade, alimentado pelo histórico de dados das crianças ao longo das suas vidas.

Como um novo I-Phone, tinha de tudo na festa de lançamento, sorteio, para as crianças que se sentiam privilegiadas em serem os primeiros, e mais uma vez, qualquer semelhança com as filas em meio a madrugada para aquisição dos novos modelos de celulares é mera coincidência.

A criança ao tocar sua mão no robô é imediatamente reconhecida por ele e o aparelho e seu “algoritmo da amizade” busca na internet absolutamente tudo, músicas, contatos, vídeos tudo da criança, que agora é o seu dono, e que esteja disponível nas pegadas digitais deixadas pela criança em sites, redes sociais, aplicativos e tudo que se comunica na internet das coisas onde ela trafegou. Basta tocar para que a identificação biomédica apure seus registros, na lógica corporativa de que nossos dados pertencem as big techs, tudo em conexão imediata com a rede bolha que tal qual a Apple tem nossos filmes, música e dados guardados na nuvem, prontos para performarem um novo produto ou serviço, “melhorando a experiência do cliente”.

E assim em um toque sem nenhuma discussão, debate ou disputa a criança ganha ou melhor compra seu novo amigo, seu assistente virtual.

Imediatamente o produto vira uma febre na animação, e claro o personagem principal Barney um menino que mora com seu pai e sua avó, em uma casa na periferia e é o único que não tem o seu Buble Bot.

Seguindo a lógica consumista que bem serve para o tênis da moda, para a roupa da moda ou para o gadget da moda, o B-Bot vira também um símbolo do “empoderamento”, acho essa expressão tão pobre quanto o seu sentido.

Na escola todas as crianças possuem sua estação para recarga do B-Bot, e claro Barney tem o espeço de recarga, mas não tem o seu robô, que de imediato vira para as crianças a extensão das suas “personalidades”.

O algoritmo de cada B-Bot vai sendo calibrado de acordo com cada dono, ganhando cores, preferencias e temperamentos.

Entre as muitas passagens fantásticas do filme uma é no mínimo curiosa, a escola tem no seu pátio um “banco da amizade” e curiosamente ele sempre está vazio, afinal os melhores amigos das crianças são os robôs, ao ponto que Barney se senta só nele, recebendo apenas a companhia da professora.

Não ter esse símbolo do “empoderamento” é por si só um motivo para o exercício mais cruel dos nossos jovens, o bullying, feito e estereotipada sobre os novos padrões de consumo, e acredite, nossos jovens sabem ser bem cruéis principalmente quando estão longe dos pais.

Barney, é literalmente uma criança analógica, criada com muito amor e com pais que não terceirizam a educação dele para os inúmeros gadgets disponíveis, e isso faz toda a diferença, ele tem afeto e carinho, de carne e osso, diferente de uma geração onde tudo gira em torno da audiência das redes sociais.

Mas como todo jovem também sonha em ter seu B-Bot e dessa forma não ser excluído o típico e necessário sentimento de pertencimento.

Com poucos recursos acaba ganhando do seu pai um B-Bot, que havia sofrido uma queda e estava como diz o meu filho “bugado”.

Ron Bugado se interessa pela vida real do Barney e não apenas pelo que está postado ou vertido em dados digitais. Seu bot “bugado” se interessa pelos livros, que ele lê, pelo que gosta de usar seus hábitos.

Na escola o menino sente-se inseguro, não consegue fazer amizades e tem um pouco de vergonha da casa de onde veio, com sua avó búlgara que cria animais e seu pai sempre no mundo da lua.

Até aparecer Ron, que não está conectado ao algoritmo da bolha e por isso se torna a melhor companhia possível para Barney, logo o robô não sabe o que um amigo deveria ser dentro dos padrões corporativos da bolha, e logo os dois constroem juntos um algoritmo da amizade, daquelas sempre complicadas, dificuldades, diferenças e com muitos percalços, mas verdadeira.

Ron não sabe que está quebrado, ou, se sabe, não liga. Ser diferente aqui é qualidade, como todos nós somos, diferentes e iguais na vontade de ser feliz, e é justamente aí que reside a beleza, na diferença.

Em tempos pós pandemia, onde terceirizamos ainda mais a educação dos nossos filhos para esses dispositivos onde temos pouco controle e eles muito uso, acabamos por permitir que os algoritmos e sua lógica de atenção conduzam a intensidade das relações de nossos jovens.

Voltando a animação, Ron conecta Barney com pessoas que não se parecem com ele, pois não sabe quem é “certo” ou “errado” para o garoto, mostrando a importância da pluralidade.

O filme serve para refletirmos se temos necessidades ou não de colocar limites nesse processo educacional valorativo onde à vontade corporativa não deve se sobrepor a amizade e o afeto, no incomparável valor de um abraço e de uma amizade sincera. No mais chega de spoiler e vai lá ver o filme.

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