ROBÔS NAS CASAS, ESTAMOS PREPARADOS?

Se a cada dia fica mais comum sermos atendidos por robôs ao telefone nas inúmeras centrais de atendimento, quando isso chegará em nossas casas é a pergunta que muitos fazem?

Curioso é que em que pese toda dinâmica social e econômica, o homem anestesiado em seu ópio existencial não percebe que a relação social entre homens é na maioria das vezes utilitarista, variando sempre de acordo com a necessidade e o desejo dos outros para conosco, naquilo em que provamos ser mais ou menos uteis aos outros, por mais que seja dolorosa essa reflexão, mas ela é o registro dos tempos.

Com o caminhar da humanidade, o conjunto de valores se modifica, pois entra em cena mais do que um elemento ideológico, entra a sua necessidade primária de sobrevivência, de perda de espaço. Na sociedade, máquinas ficam obsoletas, e pessoas também ficam, afinal pense nas antigas ascensoristas de elevador?

Quando você procura comprar uma camiseta mais barata você levou em consideração que aquele preço foi possível graças a automatização (entrada de robôs no lugar de pessoas) daquela produção? Ou apenas o preço lhe importou?

A Inteligência Artificial presente em softwares de atendimento, ou na presença física de robôs na produção é a materialização dessa substituição, logo lembro que a Inteligência Artificial é transversal, e vai atingir todos os meios de produção em menor ou maior grau, ela vai invadir escolas, e residências, alterando apenas a intensidade e o momento que vai bater na sua porta. Por isso o avançar da Internet da Coisas, deve ser um grande aliado a entrada de robôs em inúmeras atividades domésticas.

Recentemente a Amazon chamou a atenção dos usuários ao apresentar seu primeiro robô doméstico, astro.  É um dispositivo de 50 centímetros de altura e duas rodas grandes capazes de fazer o trabalho de um vigia doméstico, mas também um assistente para ele. Claro, poucas horas após o anúncio, as notícias que alertam para o perigo deste pequeno dispositivo eclipsaram a apresentação.

De acordo com a publicação Motherboard, que observa fontes próximas à empresa que trabalharam no projeto, “Astro é terrível e quase certamente saltará escada abaixo se a oportunidade se apresentar. A detecção de pessoas não é confiável na melhor das hipóteses, o que torna a proposta de segurança doméstica ridícula.” Você colocaria um robô assistente em sua casa?

O dispositivo da Amazon não é o primeiro a tentar invadir casas para supostamente facilitar a vida das pessoas. Um exemplo disso é Jibo, um robô que estrelou na capa da revista Time em 2017 pela inovação que representava. Este dispositivo foi capaz de conversar com as pessoas, conectar-se a alguns dispositivos e controlar aspectos da casa ou oferecer informações, como um assistente de voz.

Outro robô que foi chamado de volta, mas depois colocado de volta à venda, foi o cão da Sony, Aibo. Depois de desaparecer das lojas em 2006, a empresa japonesa ressuscitou seu mascote em 2017, mas atualmente é vendida apenas no Japão e nos Estados Unidos, provando mais uma vez que o mercado de robôs domésticos não é enorme.

Por sua vez, a Samsung apresentou em 2020 na Feira de Tecnologia em Las Vegas CES um robô em forma de bola de tênis (Ballie) que, segundo eles, seguiu você em casa realizando tarefas de automação residencial, como abrir cortinas, ligar a TV ou ativar outros dispositivos. Além disso, ele foi capaz de avisar se detectou que alguém caiu sem ser capaz de se levantar, o que poderia ser feito por qualquer monitoramento digital.

Com os exemplos acima, podemos imaginar que em breve eles estarão em nossas casas, e logo as consequências da automação são inevitáveis. Obviamente, as coisas não são tão simples, pois é essencial trabalhar para encontrar um novo modelo social que não se baseia em horas de trabalho e que, acima de tudo, evita o aumento progressivo e já insustentável da desigualdade.

A disputa não será entre homens e máquinas, mas entre empresas que tem máquinas contra empresas que não tem. Portanto pensar em desestimular a tecnologia, renunciar ao seu desenvolvimento ou legislar para que ela não seja usada é simplesmente perda de tempo, irresponsável e retrógrado, e que vai lhe trazer apenas uma posição mais atrasada diante de um outro colega.

Os dilemas da automação exigem um novo modelo de pensamento: não é ter a tecnologia, mas a visão necessária para adotá-la. Não é um problema tecnológico, é um problema de design de modelo social. E não está claro para mim que temos maturidade para desenvolvê-la.

Na Espanha, o robô Misty é focado em ajudar idosos em casa, ainda que seu preço, cerca de US$ 3.600 não permite ainda uma venda em grande escala.

Os assistentes domésticos, já são populares, e respondem ao comando de voz, mas ainda com muita limitação, como os da Amazon e Google.

Nos mais diversos segmentos os robôs vem tomando o lugar de pessoas, nas atividades mais simples, como é o caso dos testes de robôs como policiais em Cingapura, onde os experimentos do governo já nos permitem imaginar um futuro em que cruzar com um robô em uma cidade faz parte da rotina usual, da mesma forma que hoje acontece quando você cruza caminhos com um policial, mas gerando maior escalabilidade e automação dessas tarefas de vigilância. A grande questão, obviamente, é até que ponto esses tipos de medidas automatizadas de vigilância são aceitáveis para os cidadãos, pois em muitos aspectos, o que o cidadão quer é que certas regras de convivência entendidas como consenso sejam respeitadas, e o fato de que a vigilância dessas regras é realizada por policiais ou robôs pode ser visto como indiferente? A ideia é que o hábito torno o novo “normal”.

Porém os robôs, em grande parte devido à novidade de seu uso ou sua capacidade de registrar e enviar tais comportamentos, ainda causam uma sensação distópica que os policiais não costumam gerar, e tendem a ser controversos, não se sabe por quanto tempo é claro. Lembro das primeiras pessoas caminhando nas ruas e falando nos seus celulares, algo bastante curioso, quando pessoas tornavam públicos hábitos que eram privados, realizados na sala, no quarto de suas casas ou nos seus escritórios. Agora imagine esses dispositivos assumirem as tarefas domésticas?

No Brasil o número de trabalhadores domésticos chegou a 6,3 milhões em 2019, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), logo tente imaginar esse contingente sendo substituído total ou parcialmente por robôs? Qual seria o impacto social?

Por certo ao ler esse artigo uma parte significativa continuará de forma incrédula imaginando que é apenas um exercício ficcional desse escriba. Não de forma alguma é a mais pura realidade, onde eu não preciso ser Nostradamus pra lhe dizer que quase tudo, “quase” que o homem faz pode ser feito e o será um dia feito por máquinas.

Por hora quero lhe dizer que seremos substituídos por maquinas sim, por softwares sim, ou pelo simples fato do que fazemos não precisará mais de nós.

É fato de que o desenvolvimento de tecnologias relacionadas à robótica representa um paradoxo semelhante ao que deu origem à Internet na época da sua criação? Estamos diante de uma nova mudança drástica no conceito de sociedade, que altera muitas das regras que damos como essenciais em nossas vidas? Muito possivelmente sim. E que, além disso, está se aproximando a uma taxa muito mais rápida do que muitos acreditam.

A supremacia da máquina sobre o homem sobre um assunto como dirigir um veículo já é uma discussão completamente ultrapassada e se você não pensa assim, é melhor ampliar seu horizonte de leituras, por mais doloroso que seja essa reflexão e por mais que não nos agrade.

Porém tais reações de aversão dos cidadãos ao uso de robôs, no caso desses primeiros experimentos, para monitorar a conformidade são justificadas, ou é simplesmente um problema decorrente da falta de familiaridade com esse tipo de tecnologia? Se entendemos a convivência social como um contrato que dita uma série de regras, devemos considerar que o uso de tecnologias como robôs para garanti-las está além dos limites do que é socialmente aceitável, ou é simplesmente mais uma extensão do trabalho dos policiais, e, portanto, tão aceitável quanto a que há policiais patrulhando a rua rotineiramente, ou câmeras monitoradas em todos os cantos da via pública? Quando começaram a ser usadas há algumas décadas, as câmeras de monitoramento estavam sujeitas a alguma controvérsia, que na maioria dos casos parece ter sido normalizada, e elas continuam ai, e na maioria das cidades do mundo cada vez mais presente e com fraca ou nenhuma regulamentação, o Direito que demora para se atualizar e faz dos novos hábitos de aceitação cultural algo incorporado aos novos valores sociais, quase sempre sem tempo para uma discussão profunda, o que por certo desenha inúmeros riscos. O Marco Civil da Internet, ou a LGPD, ou RGPD no caso europeu são freio regulatórios ao ímpeto do mercado que tudo atropela.

Se a Lei dos retornos acelerados proposta por Kurzweil estiver correta, e ele faz uma boa demonstração de sua validade, esses prognósticos poderão se concretizar.”

É bom lembrar que ele previu, que:

  1. Haveria memória digital suficiente para armazenar as maiores bibliotecas do mundo.
  2. Surgimento de imensas redes de informação e a possibilidade de milhões de pessoas fazerem pesquisas a partir de suas casas, em terminais de baixo custo.
  3. Fornecimento de conteúdo personalizado para cada pessoa.
  4. As empresas manteriam listas de estoques em seus computadores para acesso por qualquer cliente.
  5. Um sistema de computador poderia controlar todas as sinaleiras de Manhattan.
  6. Ampla utilização de videofones.

O Direito tem o poder de direcionar, de controlar, de moldar o futuro ou deve permanecer atado ao seu paradigma de regular no só-depois?

O tempo com referência, virou um registro apenas, pois a aceleração das previsões ocorre hoje ou amanha pela conveniência dos mercados, que sacodem valores e que por muitas vezes se sobrepõe aos valores humanos, e não são poucos os exemplos ao longo da nossa história.

Não tenhamos dúvida, como bem destaca James Bride, na sua obra “A Nova Idade das Trevas. Tecnologia e o Fim do Futuro”: “A tecnologia amplia poder e discernimento; mas, quando ela é aplicada de forma desigual, também concentra poder e discernimento. A história da automação e do conhecimento computacional, desde os moinhos de algodão até os microprocessadores, não é apenas de máquinas qualificadas que aos poucos tomam o lugar de operários humanos. É também uma história de concentração de poder em menos mãos, e concentração de discernimento em menos cabeças. O preço da perda de poder e discernimento é, por fim, a morte. Às vezes temos como avistar modalidades de resistência a essa poderosa invisibilidade. A resistência exige o entendimento tecnológico, em rede: exige que voltemos a lógica do sistema contra o próprio sistema.”

Se lermos Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee em sua “Corrida contra a Máquina”, a conclusão, no entanto, parece clara: desta vez é diferente, porque a capacidade das máquinas irá tão longe quanto substituir vantajosamente cada vez mais das tarefas que as pessoas podem fazer, o que significa que, de uma forma ou de outra, elas acabarão eliminando mais posições do que são capazes de criar.

O futuro é o que é: continuar a desenvolver tecnologias melhores, mais eficientes, inteligentes e mais capazes de fazer mais, e preparar o homem para trabalhar o melhor possível com elas. E quem não entender isso terá, sem dúvida, de se colocar na fila do desemprego.

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