REDUÇÃO DA JORNADA DE TRABALHO NA “ECONOMIA DA DESATENÇÃO”

Toda tentativa de atrasar a transformação digital só produz um resultado, o atraso e a perda de competitividade para outras empresas, regiões ou países.

A transformação social é tão inevitável quanto o impacto nas nossas relações sociais e econômicas.

Quem contrata um serviço ou adquire produtos, com valor mais barato está atrás de economia e infelizmente o faz com pouca ou quase nenhuma visão social, logo o papel da sociedade civil organizada é operar de forma ordenada na intervenção construtiva dessa transformação.

Só a inovação cultural que aposta nas pessoas e nos seus processos produtivos se mantém, a inovação permanente não é mais um diferencial, mas um pré-requisito para se manter vivo no mercado, onde a inovação é uma estrada obrigatória.

A Constituição brasileira elege o trabalho e também o fomento a iniciativa privada como valores indissociáveis, e logo é preciso avançar nessa regulamentação, sempre pensando na formação de uma poupança previdenciária, logo é do requisito da indissociabilidade que deve caminhar a transformação digital, no sopesamento desses valores.

Recentemente o Governo da Bélgica, estabeleceu um limite diário de 10 horas de trabalho e também regulamenta o direito de desconexão. A ideia é modernizar o mercado de trabalho que permitirá concentrar as horas da semana de trabalho em quatro dias e flexibilizar os horários dos trabalhadores.

O objetivo da reforma é fortalecer trabalhadores e empresas, e segundo o presidente do Governo belga, Alexander De Croo, estabelecer uma reforma que vise uma “economia mais sustentável, inovadora e digital”.

A reforma trabalhista permitirá que os trabalhadores concentrem sua semana de trabalho em quatro dias para lhes dar maior “flexibilidade” na gestão de seus horários, embora essa mudança não signifique uma redução das horas trabalhadas. Os funcionários poderão reduzir um dia útil se aumentarem o número de horas diárias trabalhadas, para que possam passar de trabalhar de cinco para quatro dias. A reforma contempla uma condição máxima de 9,5 horas de trabalho diário prorrogável até 10 horas, acordo prévio entre empresa e sindicatos.

Os funcionários que desejarem fazê-lo poderão trabalhar mais horas por semana para compensá-lo com menos horas de trabalho na próxima. No entanto, deve ser o trabalhador que solicita ambas as fórmulas de trabalho. Além disso, os funcionários com horários variáveis devem ter uma previsão de seus dias com pelo menos sete dias de antecedência.

Além disso, empresas com mais de 20 funcionários devem oferecer aos seus funcionários o direito de desconectar após o horário de trabalho, o que significa que eles não terão que atender chamadas ou responder a e-mails entre 11 p.m. e 5 a.m.

A reforma do mercado de trabalho belga também fortalecerá o direito à formação dos funcionários, com base no qual empresas com mais de 20 funcionários terão que apresentar planos de treinamento para desenvolver as habilidades dos trabalhadores, na lógica de que a transformação é responsabilidade de todos.

A reforma do mercado de trabalho belga contempla uma seção para as plataformas de “entrega” pelas quais facilitará o trabalho noturno para o setor de comércio eletrônico e que os trabalhadores das empresas de entrega de alimentos tenham melhor proteção, algo que já vem ocorrendo no enfrentamento das plataformas de economia “colaborativa” na garantia de direitos mínimos.

À medida que os funcionários reclamam do burnout e lidam com o trabalho híbrido (uma combinação de trabalho remoto e escritório), alguns empregadores estão tentando reduzir o número de reuniões. A Microsoft reportou um aumento de 150% no tempo que um trabalhador americano médio gastou na plataforma Teams entre setembro de 2019 e setembro de 2020, com um ligeiro aumento no ano seguinte. O número de reuniões por pessoa também aumentou, assim como as reuniões fora do horário convencional de escritório de 9 para 5, levando a empresa de tecnologia a concluir que mais pessoas se adaptaram a um dia de trabalho mais longo.

A “bolha de reunião” significa que os gestores gastam cerca de três quartos de seu tempo em reuniões ou se preparando para eles. “Os gestores precisam se perguntar: ‘Eu realmente preciso dessa reunião?’ E cancelá-lo mais tarde.

Logo reserve um dia por semana para reuniões internas, como reuniões de equipe e um a um. Em seguida, solicite um ou dois dias de reuniões externas, incluindo reuniões com clientes ou entrevistas com novas contratações; os dias restantes são reservados para trabalhos ininterruptos.

Esse tipo de planejamento requer um pensamento estratégico na escala superior da empresa, diz Henrik Stenmann, presidente da Internet Intelligence House Nordic, uma agência de marketing digital, que introduziu uma semana de quatro dias em 2017. Isso proporcionou o impulso para reduzir o” tempo de inatividade “. A empresa encurtou o sistema de reserva padrão: as reuniões de uma hora foram de 45 minutos e as reuniões de meia hora foram reduzidas para 20 minutos.

Ele também deu a todos na empresa um mandato para recusar um convite para uma reunião se ele viesse sem uma agenda. Durante os encontros, todos os dispositivos são armazenados em uma caixa. Se você acha que pode fazer duas coisas ao mesmo tempo, há muitas evidências de que você não pode. Estamos tão acostumados a ter duas telas que temos hábitos muito ruins.

O tempo nos ensina que não existem soluções simples para problemas complexos e esse é um deles, pois além de cuidarmos da atualização dos que perdem seus empregos é preciso entender que apenas reciclar com programas de treinamento esses profissionais não será suficiente, logo é necessário flexibilizar algumas regras de contratação, seja na sua carga de horário ou no seu local de trabalho, sempre é claro levando em conta o compromisso desses postos de trabalho com a previdência na sustentabilidade do cálculo atuarial.

Vejamos então, se o desenvolvimento tecnológico permite um esforço menor, então qual a razão de nos sentirmos ainda mais cansados?

Afinal se o desenvolvimento da tecnologia permite níveis cada vez mais elevados de produtividade, qual a razão de levarmos tanto trabalho para as nossas casas e atravessarmos noites e fins de semana trabalhando?

Afinal, se a automação contínua destrói diariamente mais empregos, então por que não reduzimos o número de horas trabalhadas para conservarmos mais posições de trabalho?

Recentes experiências abrem espaço para esse debate atual, como a da Microsoft, que provou que dar mais um dia de folga aos seus trabalhadores como uma semana de quatro dias com um fim de semana ocioso de três gera mais produtividade, maior satisfação, menores custos em eletricidade ou papel e menos estresse. Obvio que isso dito para um pequeno empreendedor que nesse momento sofre para pagar suas contas, pode dar tons de total heresia.

Segundo um estudo da Comissão Europeia, atualmente 37% dos empregos no continente europeu poderiam ser realizados remotamente. Logo, pense no seguinte: mais pessoas trabalhando em casa significa uma mudança no trânsito, com ganhos de produtividade na locomoção para todos, bem como alteração de parte do eixo econômico para os bairros, o que significa uma melhor distribuição do fluxo da renda. O que representa mais atividade no bairro com tempo para academias, cursos de línguas e pais que podem levar e buscar seus filhos no colégio a pé.

Incrível como as coisas mudam ao nosso redor, e para o nosso negócio continuamos respondendo de forma conservadora, querendo ver todos ao nosso redor e dispor a todo tempo, exigindo mais e mais atenção, em um processo que produz como resultado mais desatenção.

Nesse instante não faltam recursos tecnológico para o trabalho a distância para parte significativa da mão de obra. É obvio que isso não é para todas as funções.

Fica cada vez mais claro que o trabalho do futuro não terá nada a ver com engarrafamentos ou trabalhadores sentados em uma cadeira por quase 8 horas para mostrar que estão fazendo algo. Quando o empresário bloqueia essa mudança pode estar colocando a sua empresa em desvantagem, em comparação com aqueles que são capazes de entendê-lo antes.

Enquanto o empregador não pensar sobre isso, desde que não seja capaz de pelo menos oferecer aos seus trabalhadores a opção em termos justos e razoáveis, a empresa poderá ter trabalhadores desmotivados que sentem que estão trabalhando para uma empresa do século passado. Trabalhadores que, em muitos casos, estarão simplesmente esperando a oportunidade de partir para outra empresa.

O isolamento forçado pela pandemia, apenas evidenciou a possibilidade de trabalharmos de forma distribuída, ao mesmo tempo toda essa necessidade de atenção, presencial, remota ou por aplicativos produz como resultado trabalhadores mais desatentos, alimentando a economia da desatenção.

Outro ponto, são as questões ambientais que podem sim serem um grande influenciador nesse caminho, que hoje elege os automóveis (a combustão) como grandes vilões das emissões. Um artigo de 2018, um pouco antes de acelerarmos a tendência de eletrificação dos meios de transporte, “Working Hours and Carbon Dióxido Emissions in the United States, 2007-2013” (Fitzgerald, J., J. Schor e A. K. Jorgenson, analisa dados sobre horas trabalhadas nos 50 estados norte-americanos contra as emissões de dióxido de carbono, e conclui que a redução do tempo de trabalho pode representar, de forma altamente significativa, uma política positiva capaz de contribuir não apenas para melhorar a qualidade de vida e reduzir o desemprego, mas também para a mitigação de emissões nocivas.

Para a ideia de trabalhar menos horas, acrescenta-se outras propostas, como a de conversão nos dias de hoje em propostas mais flexíveis, mais adaptações às necessidades e preferências do trabalhador, ou com a possibilidade de desenvolvê-las remotamente, e estão associadas à possibilidade de incluir essas propostas como alternativa para basear todo um novo sistema econômico com capacidade de resposta aos desafios colocados pela emergência ambiental.

No caso de algumas empresas de tecnologia, como a Microsoft, o desempenho dos trabalhadores tem sido ainda maior durante a pandemia, o que levou fez com que a empresa de Bill Gates atribui-se novas recompensas como férias e bônus adicionais.

As velhas culturas corporativas podem ser ameaçadas pela total ausência de interação pessoal, o que tende a dificultar um pouco a comunicação e complicar o desenvolvimento de, sobretudo, novos projetos sim, e isso faz parte do desafio em qualquer processo de evolução.

As inovações tecnológicas são vantajosas por um período de tempo, cada vez mais curto. Quando você substituiu sua máquina de escrever por um computador seu ganho foi imediato diante de todos os seus colegas, mas esse ganho durou alguns meses até que eles também comprassem seus computadores.

Porém hoje a velocidade com que as inovações tecnológicas são produzidas em escala são ainda maiores, veja por exemplo no número de atualizações que seus aplicativos recebem diariamente no seu celular.

Os ganhos tecnológicos permanecem hoje por um período bem menor, pois a cultura do mercado compele novos agentes para ofertarem os mesmos ou melhores benefícios em escala para todos.

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