REDES SOCIAIS E O DIREITO AO AMOR

Como e onde está a felicidade nos tempos digitais? De que maneira essa magnitude de tempo dedicada a internet ajuda ou atrapalha na nossa felicidade?

Até onde algoritmos que regram a lógica comercial das redes sociais podem de forma legal regrar nossas relações pessoais?

Onde o Direito nos protege dessa interferência malévola que despreza o despertar de um sentimento entre diferentes, em nome da lógica da economia de atenção?

Ate onde podem algoritmos que nos aprisionam em bolhas definir ou influenciar nossas escolhas?

Em 2013 dois pesquisadores criaram um algoritmo capaz de determinar com quem uma pessoa está saindo e quais as chances de um namoro chegar ao fim, considerando apenas as suas interações no Facebook.

Os autores da pesquisa, Jon Kleinberg, cientista da universidade de Cornell, e Lars Backstrom, engenheiro do Facebook, lançaram a proposição de um novo parâmetro para avaliar o relacionamento entre duas pessoas, que chamam de dispersão, com a ideia de que amigos próximos tendem a ter muitas conexões em comum. Com um par romântico, acontece o oposto. Um acaba apresentando ao outro seus amigos da faculdade, do trabalho e de outros grupos sociais. Mas, muitas vezes, a única ligação da pessoa com esses outros grupos é seu cônjuge.

Assim pelo algoritmo criado por eles, que representa o conjunto ideológico desses cientistas, uma alta dispersão entre duas pessoas indica que seus amigos mútuos não têm muitas conexões entre si. É o que geralmente acontece com os casais. Já amigos próximos têm baixa dispersão. O resultado foi obtido com base em um big data, onde foram lançadas de forma cruzada 8,6 bilhões de conexões de 1,3 milhão de usuários do Facebook. Essas pessoas foram selecionadas ao acaso entre aquelas que têm pelo menos 20 anos de idade, possuem entre 50 e 2 mil amigos na rede social e identificaram um parceiro amoroso.

Esse trabalho utilizou um corte temporal de cerca de dois anos, e mostrou que a dispersão é um critério razoavelmente preciso para identificar um par romântico. O algoritmo acertou em 60% dos casos. Se os dois pesquisadores tivessem chutado, teriam acertado menos de 2%.

Curioso é que o critério funcionou melhor do que outros que Kleinberg e Backstrom tentaram usar. Ainda assim, há casos em que o relacionamento amoroso existe mas a dispersão é baixa. O algoritmo, então, não consegue reconhecer a relação, logo para esses casos qual seria a influencia dos algoritmos das redes sociais que acabam afastando ainda mais pessoas diferentes?

Segundo os pesquisadores, quando isso acontece, geralmente significa que o relacionamento não vai bem. A chance de o namoro acabar nos próximos dois meses é, então, 50% maior do que nos casos em que a dispersão é alta, logo a conclusão desse estudo seria que os relacionamentos mais duradouros parecem ser aqueles que, de alguma forma, expandem o universo de cada pessoa, dando, a ela, conexões que ela não possuía.

Esse estudo deve ser enfrentado por isso juntamos aqui um trabalho publicado na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, pesquisadores utilizaram Inteligência Artificial para descobrir quais são as principais características que tornam os relacionamentos duradouros.

Onde um software analisou 43 estudos preexistentes envolvendo cerca de 11 mil casais de países como Estados Unidos, Canadá, Israel, Nova Zelândia, Suíça e Holanda. Depois, agregou os resultados para identificar o que funciona para a maioria dos namoros e casamentos.

Não há nada errado em ser seletivo no momento de buscar uma relação. No entanto, encontrar alguém que atenda a todos os requisitos idealizados para o “parceiro dos sonhos” não é garantia de um relacionamento estável. De acordo com o estudo, a personalidade do parceiro conta apenas 5% para o sucesso do casal, o que contraria a lógica dos algoritmos que criam bolhas de iguais.

A sua própria personalidade carrega uma importância bem maior: 21%. O modo como você enxerga o mundo, sua capacidade de ter empatia e até mesmo sua idade e renda influenciam na maneira como você acolhe o outro. Desta forma, o que faz a diferença num relacionamento é menos o modo como o seu parceiro age, e mais como você o recebe, ou seja, a sua tolerância a diferença.

Segundo esse estudo, o que faz com que os casais realmente deem certo não são os aspectos de cada indivíduo separadamente, mas as características do próprio relacionamento. A rotina construída em conjunto é responsável por 45% da longevidade da relação. Entre os fatores analisados, estão as dinâmicas de poder, a satisfação sexual e o afeto compartilhado entre os membros do relacionamento.

Esses dois estudos nos remetem a obra de Iberê Camargo, “Tudo Te É Falso e Inútil “, conjunto de quadros que foram pintados pela artista em 1992 e cuja paleta de cores pressupõe tristeza e melancolia e no primeiro quadro da série, nota-se um indivíduo sentado observando um dorso nu feminino e entre as duas figuras, está uma bicicleta, esse destaque feito Por Emerson Wendt e Fernanda Sartor Meinero, em seu artigo “Tudo te é falso e inútil: O amor e a solidão desde o contexto cultural virtual, artigo publicado na obra Perspectivas Contemporâneas do Ciberespaço” dá o tom do que queremos abordar neste artigo.

No caso da obra de Iberê, os quadros podem ser colocados como a representação simbólica das relações afetivas no nosso tempo, a qual os indivíduos estão situados numa sociedade de consumo e cujas relações são líquidas. A proximidade das figuras humanas, que não se tocam, faz alusão ou pelo menos uma prospecção, ao ambiente cibernético, ao desejo latente dos corpos nus que não concretizam o ato. Além disso, o título do conjunto das obras nos remete à incessante busca pela mercadoria felicidade.

Esse contexto foi reforçado pelos fundamentos e garantias instituídos no Marco Civil da Internet no Brasil através da Lei 12.965/14. Estabelece a norma, em seu segundo artigo, que a disciplina de “uso da internet no Brasil tem como fundamento o respeito à liberdade de expressão”, bem como a “pluralidade e a diversidade” e, também, a finalidade social da rede.

Algoritmos e grupos vão ajustando a nossa rede de forma cada vez mais homogênea, ainda que por vezes aquele amigo antigo do colégio que você não via a anos pede pra ser adicionado e em poucos dias, acompanhando a publicações, você entende melhor as razões desse longo afastamento.

No fundo as redes sociais fazem isso, somos íntimos de quem não conhecemos bem e a cada dia mais distante dos próximos fisicamente.

Entre as principais características dessa nova comunicação está a anonimidade, e a sua correspondente interatividade na internet, que o processo de formação do laço de afinidade social sofre uma inversão, onde os interesses comuns são tidos como determinantes iniciais da interação e também sexo, idade, raça, aparência física não são automaticamente discerníveis, palpáveis, sendo que as interações não se dão diretamente entre “indivíduos”, mas entre imagens, projeções desencarnadas de um corpo físico, tidas como ideais a partir da ótica do visualizador, que evidentemente recebe tudo após o filtro das redes.

Lembrando a genial obra de Gabriel Garcia Márquez, e seu personagem Florentino, protagonista de “O Amor nos Tempos do Cólera”, talvez hoje tivesse seguido sua vida sem a busca ao amor de Fermina e como bem dizia ele “O coração tem mais quartos que uma pensão de putas” (MÁRQUEZ, 1985, p. 334). Florentino permitiu-se viver as paixões e os amores ocasionais, mas sempre existiu a certeza do amor romântico. Tivesse ele inserido na sociedade líquida preconizada pelos meios digitais por certo perder-se-ia em relações fugazes, dentro de um ambiente virtual e não em contos realísticos de Gabo, terminando seus dias só num navio, mas com wireless, claro! Por outro lado, seria ele a imagem representada por Iberê, a admirar o corpo nu, a desejá-lo e, posteriormente, a desprezá-lo. A rigidez/fluidez da solidão. O amor pode ser líquido, mas cada vez mais a solidão é sólida e flui na sociedade contemporânea, como bem destacam Emerson Wendt e Fernanda Sartor na obra já citada.

Assim, muitos permitem-se viver as paixões e os amores ocasionais, mas sempre existiu a certeza do amor romântico assim, para Bauman (2004, p. 12) “todo amor luta para enterrar as fontes de sua precariedade e incerteza, mas, se obtém êxito, logo começa a se enfraquecer e definhar”. O amor contemporâneo, ou líquido, tende a definhar e acabar tão logo se concretize, não há espaços para o amor romântico, e quem tenta matar esse amor romântico?

Nesse momento, no universo digital, tudo que conhecemos está datado pelo processamento de dados, filtrados do caos e confusão por algoritmos e transformados em informação por meio da interação com nossas inferiores inteligências de humanos.

São dados gerados na Internet em todo tipo de interação, cada click, cada link aberto, cada e-mail, cada busca, cada post no Facebook, cada foto, cada “curtida”. Em cada um desses eventos, novos dados são gerados.

Logo, sabendo que são muitos os motivos que nos levam a entrar em redes sociais, solidão, reconhecimento, divulgação do trabalho profissional, não importa os motivos, mas sim o uso que você faz dela.

Por vezes ficamos distante delas, outras vezes entramos para registro e ficamos lá em silêncio, observando o filme que passa na nossa timeline, afinal o silêncio, nem sempre é consentimento, pode ser apenas proteção de tanto ruído, logo ele nem sempre pode ser entendido como distância ou não querer.

Em meio a uma sociedade de fluxo informacional intenso e desmedido, reside na velocidade das redes sociais, dos aplicativos, parte da nossa inquietude, onde quem não curte, não responde ou não interage parece ser indiferente.

Criamos assim o conceito da indiferença digital, onde o tempo de resposta mudou para uma conveniência de aflitos, onde tudo nos deixa inquietos, uma inquietude que pode ser prejudicial as relações humanas.

Quem já não escutou um parente reclamar que não curtimos suas publicações? Como se a simples curtida fosse efemeramente um sinal de afeto ou concordância?

Logo, dentro desse padrão estético relacional, acabamos por compartilhar o que não lemos e assim aceitamos a sedução do conteúdo e da imagem como verdade, pois ela nos conforta no momento de angústia, nos iludindo com o que eu chamo de curtidas protocolares, o que antigamente poderia ser resumido na frase: “rir pra não perder o amigo”.

Na tentativa de se comunicarem os indivíduos contemporâneos buscam freneticamente satisfação, mas que não represente um aprisionamento, afinal, não se pode ter a certeza da escolha correta.

Nesse mundo cada dia mais digital, ver e encontrar quem amamos será sempre uma necessidade e não importa o que as curtidas ou comentários das esdrúxulas redes sociais digam, é preciso querer mais do que um post ou uma fotografia.

E é óbvio, que não importa em qual profundidade o estado de espírito nos jogue, desprezados, distantes, injustiçados ou incompreendidos pela ditadura dos estereótipos digitais, logo encontrar-se analogicamente será sempre um estado sublime.

O tatear da tela de um celular ou tablet, jamais vai substituir o ímpeto em percorrer a geografia humana com os dedos e mentes dos apaixonados, que buscam em cada trajeto escolhido, a entrega sublime, e que vá além desse universo digital ditado pela fria escolha de algoritmos.

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