QUERO TER UM MILHÃO DE AMIGOS?

Em 1974, quando Erasmo e Roberto Carlos compuseram a canção “Eu quero apenas” com um refrão que ficou popular “eu quero ter um milhão de amigos” não imaginavam na época a internet e muito menos as redes sociais.

É claro que sempre tem quem delire e imagine que a canção foi quem inspirou Mark Zukemberg para criar o Facebbok, e é óbvio que em tempos de pandemia, criatividade e delírio sobram.

Para os amantes das “teorias da conspiração” não faltam traços da canção no conceito das redes sociais, e logo podemos imaginar que Roberto e o Tremendão bem que poderiam requerer uma parte das ações, a essa hora da leitura já tem advogado pensando em peticionar.

Mas imagino que inspirado na canção, no início do Face muitos usuários pensavam na canção, claro que a limitação a 5.000 amigos no perfil colocou um freio na pretensão, nada que uma página comercial não resolva.

A canção em sua letra parece guardar ou prever o que havia de mais puro e belo nas redes sociais, exaltando a amizade e o bem, na pura e total liberdade de expressão, é só ler:

“Eu quero apenas olhar os campos

Eu quero apenas cantar meu canto

Eu só não quero cantar sozinho

Eu quero um coro de passarinhos

Quero levar o meu canto amigo A qualquer amigo que precisar

Eu quero ter um milhão de amigos E bem mais forte poder cantar.

…Eu quero crer na paz do futuro Eu quero ter um quintal sem muro Quero meu filho pisando firme Cantando alto, sorrindo livre”

Por certo sua rede hoje não tem 1.000.000 de amigos, e é cada dia falar com uma dúzia deles sem ter uma boa discussão, afinal temos uma rede tomada por robôs que interferem no conteúdo e na autonomia informacional.

Uma rede que virou uma arena de opiniões extremas, ainda que possamos ter mais de uma rede, ter uma mais suave como o Instagram onde podemos ver e curtir fotos, pois é bem mais simples do que parar para ler um texto, faz com que criemos um mundo onde a imagem curtida precisa dizer mais do que mil palavras, e é claro a maioria absoluta das fotos não precisam mais do que uma ou duas palavras para serem explicadas.

É um volume de dados irascível, onde é cada vez mais difícil permanecer neutro, e se o volume de dados do dilúvio informacional não permite a seleção, hierarquização e organização das informações que trafegam no ambiente digital, esse processo foi tomado pelos grandes atores da cibercultura com a criação de códigos que filtram esses dados a depender de quem adentra a internet, assim filtros de conteúdo agem por comando de algoritmos.

O que Pariser denominou de filtro-bolha, onde ”o código básico no coração da nova internet é bem simples. A nova geração dos filtros de internet olha para as coisas que você parece gostar, as coisas de fato você fez ou coisas que pessoas parecidas com você gostam, e tenta ir além. Eles são mecanismos de predição, constantemente criando e refinando uma teoria de quem você é, do que você vai fazer e querer em seguida. Juntos, essas engrenagens criam um universo único de informação sobre cada um de nós, o que denominei filtro bolha, que, fundamentalmente altera a forma com que nos deparamos com ideias e informações. O filtro-bolha, baseado no seu histórico de navegação, de busca e no que pessoas semelhantes a você gostam e fazem, possibilita que o usuário habite uma zona de conforto e encontre facilmente o que lhe é aprazível.”

Cria-se ou ao menos se tenta criar um ambiente de iguais em pensamento, onde as ideias são pouco ou quase nada oxigenadas e onde a diferença da lugar a unicidade de pensamento nem sempre crítica.

Redes sociais podem ter harmonia sim, porém é difícil quando grandes líderes políticos alimentam as redes com raiva, ódio e indiferença com postagens catalisadas por robôs e replicadas por fiéis com pouco ou quase nenhum discernimento do que é verdade e do que é Fake News.

Certamente não precisamos de 1 milhão de amigos, mas seria melhor não perdermos tantos para a indiferença e a radicalidade que toma nossas páginas digitais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *