PLATÃO, A CAVERNA E AS REDES SOCIAIS

Quem procura verdades nas redes sociais? Quem procura saber o que é real e o que não é por traz daquelas fotos maravilhosas, e não falo dos filtros que elas tem, mas do sorriso alegre e plástico em algumas reuniões de famílias? Quem se interessa verdadeiramente com a dor do outro, ao ponto de parar suas tarefas pra ajudar o amigo, o irmão, o colega de trabalho, ou acalentar o coração da pessoa amada?

As redes sociais produzem muito barulho, muita desinformação e principalmente muitas projeções de avatares que nos tornamos em nossos perfis.

É lá, nas mídias sociais, que pela instrumentalidade dos algoritmos compartilhamos, curtimos e comentamos projeções de uma tentativa de verdade, seja sobre nós mesmos, ou sobre ideias e políticos que queremos defender.

A dura realidade da desinformação é que ela funciona porque serve perfeitamente aos propósitos daqueles que a espalham, seja sobre si ou sobre outrem. Afinal, quando conseguem curtidas sobre as suas projeções de verdade se sentem gratificados, reconhecidos, até às vezes valorizados pelos outros.

Sem querer reproduzimos versões de mentiras, fantasias ou opiniões unilaterais sem escutar, compreender e entender um outro lado, afinal já escolhemos um lado, aquele que nos apresenta mais conveniente, pois refletir, questionar e pensar exige um esforço hercúleo que nos tira da nossa zona de conforto logo, é melhor aceitar como verdade o que o outro publicou, mesmo que não seja verdade, ou que seja única e exclusivamente a versão comprometida de alguém.

São tempos em que a compreensão nos remete a “Alegoria de Platão”.

Num texto de Luis Alberto Hara, ele reflete sobre a obra de Platão e a nossa vida em redes sociais.

Lá, na alegoria da caverna, Platão fala de alguns prisioneiros “que são como nós”, que vivem acorrentados (ou para os tempos atuais, conectados) e que só observam as sombras lançadas na parede pela passagem de diferentes objetos e estátuas transportadas por outros humanos que se movem na parte superior da caverna. Eles passam a vida assistindo a uma espécie de show de marionetes. “Homens como esses diriam que a verdade nada mais é do que a sombra das coisas artificiais”, diz o filósofo.

A alegoria da caverna Platão pretendia explicar a educação, ou a falsa educação que o homem recebe no mundo. Talvez hoje possamos chamar essa falsa educação de “informação”, ao contrário do que Platão chama de conhecimento da alma. Somos educados dando acesso à informação, dados, e não ensinando a pensar criticamente e a desenvolver o que Platão chamou de olho da mente.

Platão sugere que a verdadeira educação é transformar toda a alma em direção à luz, em direção “ao que é”, tanto quanto as ideias e particularmente a ideia do bem, que no mundo “luz visível implora”. Um apelo a busca pela reflexão, pela verdade, por mais dolorosa que ela seja.

Podemos entender isso, tirando da alegoria, dizendo que a verdadeira educação e a vida filosófica consistem em contemplar a fonte ou essência e não as projeções ou sombras. Ou seja, em contemplar a realidade e não a virtualidade, por mais sedutora que ela possa parecer com seus filtros e fotos exuberantes.

Talvez outra analogia seja permitida: hoje em dia consumimos informações novas, pré-digeridas e diluídas, mas não conhecemos as fontes, os clássicos. O mundo, a caverna, nos apresenta distrações que nos hipnotizam de tal forma que somos massacrados testemunhando um simulacro, sem sequer pensar que há outro mundo possível.

No estado ideal de Platão, a tarefa dos adeptos, dos filósofos, era ascender à luz das ideias eternas, mas não permanecer na felicidade da contemplação, mas voltar à caverna e instruir os outros. Esses filósofos que eram capazes de lembrar a ascensão da alma, tinham que governar a cidade não mais dormindo como, de acordo com Platão, as cidades são geralmente governadas, mas acordados e com uma visão clara. Essa visão aristocrática ou meritocrática de Platão tem sido especialmente criticada na modernidade. Hoje, onde a opinião pública, a “sociedade” e o politicamente correto governam, todas as opiniões contam igualmente e uma multidão nas mídias sociais pode aniquilar sem dó nem piedade.

Hoje a caverna de Platão foi introjetada e tornou-se portátil, e esta na mão de cada um de nós através dos nossos celulares.

E logo a nossa tecnologia nos faz medir nossa interação com o mundo real, através de uma espécie de caverna platônica que carregamos conosco. Um exemplo disso é o homem que percorre a natureza ouvindo música em fones de ouvido com um smartphone, que são “instrumentos para introdução voluntária, em que pese o som da natureza, no campo ou na praia, ele segue com seu fone para a interioridade de uma caverna, aqui um corpo sutil, uma caverna de música.

Esse ser humano recua para um mundo interior, mas esse mundo interior não é o mundo de sua alma; é um mundo artificial, um mundo de imagens secundárias, sombras ou simulacros da realidade primária. Levamos nossa caverna conosco: nossas telas são como aquela parede onipresente na qual sombras de baixa resolução da realidade são lançadas e que nunca paramos de olhar. Neste caso, estamos voluntariamente conectados. Talvez essas analogias sejam um pouco hiperbólicas, mas o estado atual de dependência tecnológica admite ou mesmo requer urgentemente esse tipo de comparação radical para tirar o estranho do tédio da caverna diária.

Vivemos prisioneiros de uma ideologia dicotomizada das redes sociais, mudando as formas de nossas grades, onde a lógica comercial dos algoritmos ditam o que você vai ver, ler e ouvir, continuamos assim envoltos de novas formas de prisões, marcados pelo massacre da alienação às ideias virtuais de massa e cada vez mais desconectados da subjetividade humana.

A obra do filósofo grego Platão (427 a.C. – 347 a.C.) foi exposta no Livro VII da República, e ela trata de um diálogo entre Sócrates e Glauco, que expõe sua teoria das ideias: existência do mundo sensível e do mundo inteligível. Entretanto, para compreender o seu conhecimento antes é necessário apresentar, de forma breve, a narrativa da alegoria, de uma forma mais didática.

Sócrates propõe a Glauco que imagine homens vivendo acorrentados e imobilizados, desde a infância, em uma morada subterrânea, em forma de caverna, sem acesso algum ao mundo exterior, a não ser pelas respectivas sombras na parede, projetadas por uma fogueira acesa do lado de fora; registrando as atividades externas dos homens no seu cotidiano, assim como objetos e animais. Um desses prisioneiros é liberto das correntes e sobe em direção à entrada da caverna. A princípio, seus olhos são ofuscados pela luz do sol, mas depois, habituado à claridade, finalmente pode contemplar tudo o que existe fora, como o próprio sol. Ele passa a enxergar as coisas como realmente são e não simplesmente por meio de suas sombras e projeções. Ao retornar à caverna, com o intuito de narrar tudo o que viu e sentiu, ou seja, a verdade por detrás das sombras, desta vez, são as trevas que ofuscam seus olhos, uma vez que é ridicularizado pelos seus companheiros que não iriam acreditar ou concordar com a verdade que lhe estaria sendo apresentada, pois só conseguem acreditar na realidade que enxergam na parede iluminada pelo fogo, alegando assim, não valer a pena ir para fora (PLATÃO, 2000).

Ao fazer a interpretação da alegoria da caverna de Platão, observa-se que a ignorância retratada é uma realidade possível de ser considerada na sociedade contemporânea que, uma vez acreditando ter conquistado a sua liberdade, são incapazes de reconhecer as formas mascaradas de prisões ou escravidão que a potencialização do uso abusivo e frenético das redes sociais estão provocando, já que cada vez mais ela se torna acessível às pessoas de todas as classes sociais, como bem destaca o artigo do Frei Paulo Vinícius de Oliveira, sobre a “Alegoria da Caverna e a Escravidão Moderna”.

Como destaca o autor já citado, “a estagnação dos prisioneiros da caverna é a mesma em que os homens contemporâneos estão imersos pela alienação às redes sociais? Qual a influência sobre a liberdade na busca irrelevante e deficiente pelas redes sociais?”

Por certo, o homem, metaforicamente, preso dentro das “cavernas” e refém das sombras apresentadas pelo “mercado social”, ou ainda, manipulado por ideias, critérios e concepções determinantes como valores para uma cultura de inclusão, sem dúvida, surrealista, adotou as redes sociais como vitrines, passando a serem vistos como espécies de mercadorias, onde é necessário exibir um padrão de vida “perfeito” para se sentirem aceitos em um determinado grupo social. À medida que camuflo o meu verdadeiro perfil, desde aquilo que realmente sou, sinto e faço, é que alcançarei “amizades”, “curtidas”, “likes” e “seguidores”.

Para muitos, o crescimento do uso das redes sociais deveria se comprometer e adotar uma ética que se preocupa com o crescimento do indivíduo dentro do contexto social e, não apenas, atender necessidades supérfluas e imediatistas. Afinal, não é o homem que está a serviço da era digital, mas sim, a era digital que está a serviço do homem, mas para isso é acreditar na inocência do mordomo até que se prove o contrário.

Assim, a libertação da manipulação e alienação das cavernas contemporâneas só acontecerá por meio da busca da verdade e da razão. Por isso, depois de contemplar o mundo inteligível, ou melhor, se dispor à filosofia, o homem não pode apresentar o mesmo comportamento, uma vez que ele adquiriu a capacidade pela busca do conhecimento.

Nossas timelines, por certo são nossas cavernas, e são os algoritmos destas plataformas, as nossas correntes, com suas logicas de predileção baseadas no nosso comportamento on line, que nos confinam em nossas bolhas (nossas cavernas).

E assim, escolhem o que nós veremos ofuscando nossa visão real do mundo. Começamos a ter uma geração que a partir das Redes Sociais mais usadas, tem sobre si mesmo e sobre o outro apenas uma sombra, um vaga imagem do que são.

Dessa forma ficamos mais estreitos, refratários às diferenças e muitas das vezes mais ignorantes, e como lembra Benício Filho “Sabe qual é o meu maior medo? Assim como na caverna de Platão, ao tentar mostrar que havia vida fora da caverna, penso que em muitos movimentos radicais nascidos nas redes Sociais mais usadas temos o mesmo comportamento. Queremos matar quem não é do nosso “time eleito”.

Eu tenho medo que a luz da verdade pode cegar os cegos, que se acostumam com seu mundo de mentiras e ilusões, onde lá tudo é melhor e mais confortável, e quem ousa dizer que é mentira, para aqueles que vivem entregues ao ópio?

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