PLATAFORMAS, E O RISCO DO MERCADO FINANCEIRO

Se as cinco maiores empresas de tecnologia no mundo fossem juntas como um país, elas seriam a terceira maior economia do mundo, o que pode dar a dimensão dessas empresas e ao mesmo tempo demonstrar que juntas elas estão dando as cartas da economia no mundo, goste você ou não. Para ter uma ideia desse tamanho e da importância, veja que hoje elas tem uma carga tributária privilegiada, pagando menos tributos do que qualquer empresa da velha economia.

As chamadas “big tech” formariam assim uma economia maior do que França, Reino Unido e Rússia.

Seus produtos são, na maior parte, intangíveis, e seus modelos de negócio, híbridos, vendendo serviços, softwares e, principalmente, publicidade online, nessa economia de atenção.

Só a Apple, com seus US$ 2,44 trilhões de valor de mercado, é mais rica do que o Brasil, cujo PIB registrado em 2019 foi de US$ 1,8 trilhão. Microsoft e Amazon são maiores do que Espanha e Austrália. Alphabet, detentora do Google e do YouTube, entre outras empresas, é mais rica do que a Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo do mundo, e o Facebook supera Turquia e Suíça, isso usando dados de 2020, que se atualizados como no gráfico que juntamos abaixo, torna essa distância ainda maior.

Com esse tamanho, muitos questionam qual o efeito dessas plataformas na economia mundial, quando elas pretendem ser sua carteira digital?

Considerando os dados que essas empresas já possuem de seus usuários, podemos ter uma leve ideia do medo que isso provoca no sistema bancário.

Quando essas plataformas passam a ser sua wallet, por mais conveniente que seja para você, deve levar em consideração que essas empresas, independentemente de qual for, terá dado à empresa total visibilidade sobre seus hábitos e o que você faz com o seu dinheiro, em um modelo já visto na China, com a empresa WeChat. Logo se você confia suficientemente no Facebook, independentemente de todos os casos que ele tem de quebra de privacidade, vá em frente.

Mas antes tente imaginar um banco que possa nascer no Brasil com 120 milhões de correntistas, e que esse banco, diariamente, sabe os sonhos de consumos dos seus correntistas que escrevem, descrevem e fotografam todas as suas rotinas? Pense que o seu próximo banco pode ser o Facebook? Pois é exatamente essa a concorrência impossível de bater que os bancos olham pela frente quando veem o Facebook, entre outras plataformas digitais, com um número de usuários que é superior ao número total de correntistas de todos os bancos somados e com mais informações que todos eles juntos. Já pensou esses usuários virando correntistas e transacionando entre si sem pagar tarifas administrativas? Ou melhor, já pensou se esse banco resolve cobrar R$5,00 de tarifa da conta por mês, e oferta um pacote ilimitado de benefícios para transacionar entre os usuários das suas redes sociais (Facebook, Instagram e WhatsApp)?

É por isso que nesse momento esse é o verdadeiro pesadelo para os bancos, e não uma fintech jovem e sem escala, mas sim uma bigtech capitalizada que pode operar muitos anos no prejuízo. Por todo o seu potencial, os bancos olham com total desconfiança e medo sim. É claro que banqueiros não irão fazer protestos em frente ao banco Central (como os táxis nas prefeituras), seu corpo jurídico e político é muito mais hábil.

Reduzir juros e tarifas será um grande ganho, pois ninguém ganha mercado cobrando mais do que já cobram os bancos no Brasil. Diferentemente das fintechs, empresas como Facebook, Amazon e Apple não surgiram no setor de serviços financeiros, mas de uma outra forma de prestação de serviços tecnológicos e logo, avançaram para outras frentes em busca de obter mais dados dos seus usuários. Após conhecer todo o seu perfil social, querem saber dos seus hábitos de consumo, utilizando dados e seus onipresentes algoritmos para cuidar,  agora, do seu bolso. Um setor em transformação acelerada, sempre cria um mundo de oportunidade e isso é o que ocorre no sistema financeiro do mundo, notadamente no Brasil.

É bom lembrar os números dessa transformação nesse seguimento, pois se em 1990 o Brasil contava com cerca de 732 mil bancários, para uma população de cerca de 149 milhões de habitantes, hoje com 210 milhões devemos fechar o ano com cerca de 450 mil bancários, isso mesmo, em 30 anos foram fechados quase 300 mil postos de trabalho, com o fechamento de cerca de 1500 agências apenas nos últimos três anos. O fato é que todos querem ser cada dia mais digitais e isso implica em derrubar paredes e ceifar empregos, tudo em nome da redução de custos e melhoria dos já polpudos resultados.

A digitalização do dinheiro já está aqui, e não estamos falando apenas de meios eletrônicos de pagamento, mas de moedas digitais. Cada vez mais movimentos em um processo de interrupção em que você deve ser guiado e ter uma ideia dos diferentes fatores envolvidos. Por algum tempo, veremos várias alternativas: moedas digitais emitidas por bancos centrais, por empresas privadas ou outros tipos, mas diante da arbitrariedade destes e de seu uso para tentar ter mais graus de liberdade para tentar corrigir problemas conjunturais das economias de cada país, o uso de criptomoedas, e o bitcoin como aquele que desempenha um papel mais central entre eles e o que tem mais estradas percorridas, será consolidado como a opção mais lógica. O mercado de tecnologia, como qualquer outro, é movido por oportunidades, e é claro o gigantismo paquidérmico do sistema financeiro, que com a elevada concentração acabou abrindo diversos nichos para setores onde os grandes bancos não exploravam, como por exemplo os desbancarizados que movem esse mercado, que já são mais de 45 milhões de pessoas, e isso apenas no Brasil, desenho que se repete em parte significativa dos demais países em desenvolvimento.

As grandes plataformas, além de ter estrutura para o mercado financeiro, hoje já atuam nele como importantes fornecedores, armazenando todos os dados do sistema mundial. É preciso destacar que a velocidade e a magnitude em que as instituições financeiras estão movendo operações essenciais, como sistemas de pagamento e bancos on-line para a nuvem, constituem uma mudança nos riscos potenciais e é preciso garantir uma solução adequada caso haja problemas. Bancos e empresas de tecnologia afirmam que o maior uso da nuvem é benéfico para todos, pois resulta em serviços mais rápidos e baratos que são mais resistentes a hackers e quedas de energia.

Abaixo o gráfico com as maiores empresas de tecnologia e o seu valor:

Logo o medo das big techs, vai além da entrada delas como “fintechs” e alcança também a necessidade de uma garantia estrutural dessas plataformas como fornecedoras, pois hoje, muitas autoridades temem que uma falha em uma empresa de nuvem possa derrubar serviços-chave em vários bancos e países, deixando os clientes incapazes de fazer pagamentos ou acessar seus serviços, minando a confiança no sistema financeiro.

De acordo com uma pesquisa da IDC com 50 grandes bancos em todo o mundo, existem apenas seis grandes provedores de serviços em nuvem: IBM, Microsoft, Google, Amazon, Alibaba e Oracle.

Dessa forma antes dessas grandes plataformas entrarem como fintechs no mercado de capitais, o sistema já depende dele para armazenar todas as suas informações. É esperar pra ver quais serão os próximos passos dessas gigantes plataformas.

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