ONDE ESTÁ O DINHEIRO PARA TANTA CONTA DIGITAL?

O Universo digital tem muito de inovação e ao mesmo tempo tem muito de copia e cola, que o diga a nova onda de contas digitais onde todos, do Facebook ao padeiro da esquina, querem ter e ser a sua conta digital, ou seja, todos querem ser seu banco.
Curioso que todos queiram ser exatamente o setor da economia que menos sofre com as crises e logo, em que pese a ironia, o mercado vem inovando e oferecendo novos serviços.
Porém, carteiras digitais e meios de pagamento se juntam em novas fintechs e novas fintechs vão se juntando para formar novos bancos com preço e custo de velhos bancos.
Devemos encerrar 2020 com quase 1.000 fintechs, nessa nova onda em que pese a crise e é claro a maioria delas deve desaparecer, pois, grandes players, ainda que demorem, olham o mercado e ao ver o horizonte na janela fazem novas parcerias para se posicionarem de forma estratégica no novo cenário.
Mais recentemente a Linx, empresa de tecnologia de software para o varejo, deu início às suas “tratativas finais” para uma possível combinação de negócios com a Stone, que já fez seu IPO e hoje é mais conhecida pelas maquininhas de cartão de débito e crédito, aquelas verdinhas.
Como tem capital aberto, a Linx anunciou, em fato relevante, que neste momento não há nenhum documento vinculativo sobre a transação, porém, o mercado já reagiu e seus papéis após o anúncio subiram 31,4%, algo natural pois essa parceria pode potencialmente ajudar a Linx a ganhar força, especialmente em termos de distribuição, que é uma das forças da capilarizada rede da Stone.
Contas digitais e soluções de pagamento digital disputam negócios em um mercado acirrado, onde a velocidade nas parcerias estratégicas irão fazer a diferença. No meio digital, mais do que em outros segmentos, colocar de pé faz a diferença, ainda que não seja a versão final do produto.
A pandemia do coronavírus vem sendo um grande motor para conversão dos negócios do mundo analógico para o digital, o que se pode concluir pelo elevado número de lojas virtuais que foram criadas, onde registramos a abertura de mais de uma loja virtual por minuto. E assim, junto com as lojas digitais, caminham juntas as contas digitais das pessoas Jurídicas, pois essa é a solução da maioria dos players como a Pagseguro e todo esse ecossistema mantém as fintechs em um crescimento registrado de 34,1% com relação ao ano passado. O mercado ainda registra menos opções quando comparadas ao mercado das operadoras de maquininhas físicas.
No ambiente digital o peso para a escolha das empresas intermediadoras de pagamentos é diferente, por isso o pacote de serviços e de tarifas faz toda diferença, o que criou um leilão permanente nesse mercado na disputa por sua conta digital, seja ela de pessoa física ou jurídica.
Para as pessoas jurídicas, as soluções são as mais diversas e logo em empresas como C6, GetNet ou Mercado Pago, o cliente ganha facilidades como a concentração de um número ampliado de bandeiras de cartões e diferentes formas de pagamento, tudo já negociado pela empresa de solução digital, além de incluir benefícios como sistema antifraude para redução do chargeback.
Assim as pequenas empresas procuram soluções que tragam mais segurança e redução dos seus custos na negociação do seu adiantamento de recebíveis.
Como via de regra o mercado financeiro brasileiro vem acompanhando uma tendência mundial e logo viu o número de fintechs explodir. Em 2019 encerramos com 742, segundo último levantamento. Logo, neste momento já temos no Brasil mais fintechs do que bancos. E o que todo esse movimento representa?
O mercado de tecnologia, como qualquer outro, é movido por oportunidades, e é claro o gigantismo paquidérmico do sistema financeiro, que com a elevada concentração acabou abrindo diversos nichos para setores onde os grandes bancos não exploravam, vejamos por exemplo os desbancarizados que movem esse mercado, são mais de 45 milhões de pessoas. E de que maneira o tradicional mercado com suas altas tarifas resolve isso?
É óbvio que não resolve, afinal, dentro das estatísticas dos chamados bancarizados, uma parcela considerável é de portadores de “conta salário”, ou seja, temos no Brasil quase metade de toda população que usa pouco ou quase nada dos serviços bancários.
Para se ter ideia da importância das fintechs vejamos o mercado de maquininhas, o mercado de pagamento com cartões de crédito e débito que se caracterizava em um duplo monopólio até o final de 2010, onde apenas duas credenciadoras autorizadas a transacionar as bandeiras mais relevantes do mercado (Visa e Credicard).
Com a abertura em 2010 e posteriormente com a publicação da Lei Federal 12.865/2013, novas Instituições passaram a atuar no mercado de meios de pagamentos desenvolvendo inovações, tecnologias e estimulando a concorrência.
A inovação legal trouxe novos player, como Pag Seguro, Getnet, Stone, entre outros, que com suas políticas agressivas mudaram o modelo do mercado. Afinal, os dois tradicionais líderes no exercício de um duopólio cobravam taxas escorchantes, além de uma série de custos que não levavam em consideração o grau de fidelização.
Maquininha sem aluguel, com esse argumento esses novos player revolucionaram o mercado, claro que se excluiu a taxa de aluguel e se amarrou a um contrato de aquisição da maquininha, nascendo assim a fidelidade pela aquisição, que lentamente foi sendo ampliada pelo pacote de novos serviços, como a conta digital.
Foi mirando nesse mercado, inicialmente de pequenas, micro empresas e MEIs, que esses novos operadores cresceram, logo, em qualquer estabelecimento que você vai hoje poderá avistar a guerra das maquininhas no balcão do comerciante, onde sobra máquina e falta adquirente pelo pouco valor transacionado na média.
Todos seguem a toda velocidade abrindo as APIs (application programming interfaces) que são conjuntos de padrões e ferramentas que permitem a conexão entre sistemas, para recepção ou envio de dados. Assim, outros sistemas podem se conectar ao da empresa, com o trabalho de programadores externos, um requisito mínimo para o open banking que bate as portas do mercado.
Esse mercado de adquirentes e subadquirentes, onde entram muitas fintechs, é uma briga de margens apertadas e foco na escalabilidade, afinal, qualquer rede de supermercado para reduzir seu custo, virou subadquirente.
Um mercado gigante que só em 2019 movimentou cerca de R$ 1,8 trilhão em pagamentos feitos nas modalidades crédito, débito e pré-pago.
Um mercado em violenta transformação, onde a pandemia deve acelerar com o uso cada dia maior de cartões para as compras e pedidos pela internet. Afinal, há uma década os brasileiros pagavam por meios eletrônicos menos de 20% do que consumiam, o que neste ano já passou de 50%.
A grande referência para essas fintechs de meios de pagamento certamente é a PayPal, wallet mais conhecido no mundo e que só no Brasil tem cerca de 5 milhões de usuários. Quantos bancos tradicionais tem esse número de correntistas?
O curioso é que toda a legislação de arranjos de pagamento foi criada imaginando que as operadoras de telefonia iriam ocupar esse espaço, afinal com mais de 150 milhões de clientes, que hoje usam smartphones, seria natural transformar contas telefônicas em contas digitais, mas aí reside um problema de DNA, perderam tempo e agora vão precisar correr atrás do prejuízo.
A grande pergunta que não quer calar é: Onde encontraremos tanto dinheiro para movimentar os milhões de contas digitais criados na sua maioria por tradicionais clientes dos velhos bancos? Onde está todo esse dinheiro?

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