O PREÇO DO AMANHÃ

No filme estrelado por Justin Timberlake, “O Preço do Amanhã”, que é do mesmo diretor de Gattaca, outra grande obra da Ficção Científica, Andrew Niccol, que escreve, produz e dirige o filme fala de um futuro não muito distante, onde o tempo virou moeda. As pessoas param de envelhecer aos 25 anos. Os ricos conseguem “ganhar” décadas de uma só vez, podendo até se tornar imortais. Os outros têm de pedir esmolas, pegar emprestado ou roubar mais horas pra chegar vivo até o final do dia. Ao ser falsamente acusado de assassinato, Will Salas(personagem de Justin) terá de provar sua inocência e descobrir um jeito de destruir este sistema.

O debate poderia ser assim resumido “tempo é a moeda agora. Nós ganhamos e gastamos. Os ricos podem viver para sempre e o resto de nós? Só quero acordar com mais tempo disponível do que algumas horas durante o dia.”  A metáfora do filme é brutal para nós que estudados a economia da desatenção, que rouba o nosso tempo para vender serviços, produtos e conteúdo que nem sempre queremos. E logo o filme capta o fundamental da vida, onde em um mundo injusto o tempo vira privilégio para poucos.

Quando o universo corporativo desfila sua lógica querendo a nossa atenção, nos sentimos muitos dias esgotados, sugados por todos os programas e aplicativos das redes sociais que sugam o nosso tempo, essa moeda a cada dia mais valiosa para lógica da nova economia.

O resultado, é o que se chama de “Thrashing”, o pesadelo extremado dessa lógica econômica, onde todos querem parte da sua atenção, ao mesmo tempo e quanto mais melhor.

O thrashing é um estado humano muito identificável. Se você alguma vez passou por um momento no qual quis parar de fazer tudo só para ter a oportunidade de anotar tudo que supostamente estava fazendo, mas não conseguiu arranjar tempo para isso, você estava em thrashing. E a causa é quase a mesma para pessoas e para computadores: cada tarefa é uma retirada em nossos limitados recursos cognitivos. Quando meramente lembrar tudo que precisamos fazer ocupa toda a nossa atenção, ou quando a priorização de cada tarefa consome todo o tempo de que dispomos para realizá-las, ou quando nossa linha de pensamento é continuamente interrompida antes que esses pensamentos possam se traduzir em ação, então a sensação é de pânico, como que uma paralisia por hiperatividade. É thrashing, como destacam os autores Brian Christian, Tom Griffiths, Paulo Geiger, no livro “Algoritmos para viver: A ciência exata das decisões humanas”.

Nós assim como as máquinas podemos realizar multitarefas sim, mas sobre qual preço? Qual o critério de escolha nessa disputa de atenção? As máquinas são treinadas e formatadas para realizarem multitarefas mediante um processo chamado threading, que pode ser imaginado como fazer malabarismo com um conjunto de bolas.

Assim como o malabarista só atira uma bola de cada vez mas mantém três no ar, uma CPU só trabalha com um programa de cada vez, mas faz a troca de um para outro com tamanha velocidade (na escala de dez milésimos de segundo) que parece que o computador está passando um filme, navegando na web e avisando da chegada de um e-mail tudo ao mesmo tempo.

Toda essa conexão parece cobrar um preço, um estado físico da plenitude da desatenção, onde fazemos tudo ao mesmo tempo e mesmo assim o tédio parece tomar conta do nosso corpo, como se fossemos tomados pela rotina mecânica em nossas curtidas protocolares nesse universo extremo de conteúdos, seja por imagens, vídeos, ou textos, tudo ao mesmo tempo.

Nossas vidas permanentemente conectadas podem se beneficiar da sensação de que o tempo está se arrastando por um tempo, um período de permanente tédio, quando todos os aplicativos e gadgets se dedicam a consumir o nosso precioso tempo.

Uma forma de tédio puro e duro, do tipo que pode afetar mentes acostumadas a estímulos constantes quando desaparecem. Embora possa ser terrível por um tempo, é o tipo de tédio que pode acabar criando o espaço para reflexão, criatividade e um renovado senso de prazer e motivação, quando bem aproveitado.

Mas não é o tipo de tédio que a maioria de nós experimenta. Há um tipo diferente, mais lânguido de tédio ao qual nossas vidas sempre conectadas são expostas.

De acordo com um estudo da Universidade estadual de Washington publicado no final de 2019, apesar da quantidade embaraçosa de distrações digitais disponíveis nos dias de hoje, o tédio aumentou entre adolescentes americanos por vários anos, e especialmente entre as meninas. Isso reflete o aumento da depressão e do suicídio de adolescentes que tem sido registrado no mesmo período, e é atribuído principalmente ao aumento das mídias sociais, os devoradores do nosso tempo.

O estudo não examinou a origem do tédio ou sua natureza exata, mas apenas pediu aos adolescentes que avaliassem em uma escala de cinco pontos até que ponto eles se identificaram com a afirmação “Eu fico entediado muitas vezes”. Mas sua principal autora, Elizabeth Weybright, analisou a relação entre o aumento dos níveis de tédio e depressão e, mais especificamente, a “busca de sensações”, como destacou um artigo recente do Financial Times.

Essa “busca” um tanto sem direção evoca a descrição de Tolstoi sobre o tédio em Anna Karenina “um desejo de desejos” que aflige Vronsky, que não está feliz apesar de ter visto seus desejos mais ardentes satisfeitos.

A mente que sofre de tédio não é uma mente desesperada para receber estímulos ou para se libertar de suas limitações atuais; seu problema é que ela não está desesperada por nada: ela tem liberdade total, e ainda assim ela não pode encontrar nada que satisfaça ela.

James Danckert, professor de neurociência cognitiva da Universidade de Waterloo e coautor de Out of my Skull: The Psychology of Boredom, explica que o argumento de que o tédio gera criatividade por si só é equivocado. E, de fato, tem sido ligado a comportamentos muito mais destrutivos e violência. No entanto, criar um espaço na mente para se abrir para a possibilidade de tédio é vital, e como fazer se não estamos no comando dessas rotinas?

Ao recorrer a dispositivos digitais para evitar um dos grandes tabus dos tempos modernos, sensações desconfortáveis, acabamos sofrendo um desconforto muito mais profundo.

Para ciência da computação, tudo parece se resolver buscando mais memória, para armazenar mais informação, e para o homem?

O conselho de ser preventivo quanto ao thrashing não ajuda quando você se vê dentro dele. Além disso, no que concerne à atenção humana, ficamos empacados com aquilo a que chegamos, o que nos leva a aprender a dizer não, a muito do que toma o nosso tempo.

O que nos remete ao filme, como valor o tempo?

O argumento é bastante interessante. Num mundo futuro, a moeda de troca e valia entre os cidadãos passou a ser o tempo que cada um dispõe. Cada ser humano nasce com direito a apenas 25 anos, a partir daí o envelhecimento é interrompido e cada um vive de acordo com sua riqueza. Ou seja, enquanto alguns mal chegam aos 30, outros vivem até os 100, 300 ou mesmo 1.000 anos, mantendo a mesma aparência de quando tinham apenas um quarto de século na lógica ficcional do filme.

E, obviamente, para que alguns sobrevivam décadas em ótimo estado, centenas de milhares precisam amargar péssimas condições de sobrevivência, minguando por cada minuto extra. O mundo passou a ser dividido por fusos horários muito mais restritos, e para circular entre um e outro altas taxas são cobradas. Agentes do tempo controlam esse intercâmbio, e todo mundo possui um relógio digital no punho esquerdo que registra cada segundo conquistado.

O protagonista de O Preço do Amanhã é Will Salas (Justin Timberlake), um jovem proletário de 28 anos que vive apenas o dia a dia, sem grandes esperanças. Isso até o instante em que seu caminho cruza com o misterioso Henry Hamilton (Matt Bomer), um homem que o doa mais de um século, suicidando-se logo após. Essa mudança inesperada de condição desperta a atenção dos encarregados em manter a ordem social entre as classes, dando início a uma cuidadosa investigação. Ao lado de Salas estará Sylvia Weis (Amanda Seyfried), uma rica herdeira que se apaixona pelo fugitivo, dando início a um típico caso de Síndrome de Estocolmo aos moldes do clássico Robin Hood.

Imaginar que um dia teremos a doação de tempo como um gesto de bondade, nos leva a reflexão, afinal nessa disputa desenfreada da lógica corporativa das big techs por nosso tempo quantos de nós estamos focados em destinar nosso tempo para algo efetivamente construtivo e que nos faça crescer como pessoas, não pela disputa da atenção, mas com o propósito de dar mais atenção para quem de fato mereça. O tempo tem a mesma métrica para todos nós, o valor dele sempre estará no seu uso, logo não desperdice o seu. No mais chega de spoiler pois o filme vale a reflexão.

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