O HOMO POLITICUS E AS REDES SOCIAIS

Como falar da evolução humana até o dia de nossas redes sociais, sem falar de Lucy?

Em 1974, depois de duas semanas de escavações na Etiópia, Lucy foi encontrada, ela era um dos fósseis mais antigos e completos de uma espécie humana jamais encontrados, provando que foi ali naquele continente nasceu a humanidade, vindo do bipedalismo à dependência da tecnologia, os traços humanos essenciais, os cérebros grandes, a inteligência, o pensamento abstrato e o comportamento simbólico.

Logo, faço aqui esse registro para enfrentar a evolução do pensamento e do ser nas nossas relações políticas, de Lucy para os nossos dias já se passaram três milhões e duzentos mil anos, de evolução e de desafios .

Como Arthur Paredes em sua obra “Homo Politicus” destaca, o surgimento da política ocidental como conhecemos remonta à Grécia Antiga. O filósofo grego Aristóteles a.c. foi um dos grandes articuladores políticos desse período, alegando que o homem é, por natureza, um zoon politikon ou “animal político” que precisa pertencer a uma coletividade, logo, é a coletividade que dá sentido ao nosso desenho evolutivo.

Por isso a evolução parece ter favorecido aqueles que são bons em política e em particular, aqueles que são bons em dar atenção a fatos relevantes, já que seriam menos propensos a serem manipulados. Seja entre os homens ou entre os primatas a liderança é e sempre será construída com a política nas suas referências reinantes daquele momento.

Na disputa por recursos de sobrevivência, uma pessoa capaz de proteger a si mesma da manipulação teria uma vantagem em relação às não capazes, o que nos remete no mesmo instante aos tempos atuais. E quanto mais recursos alguém possui, a psicologia evolutiva nos ensina que é mais provável estar em uma posição favorável para transmitir seus genes para as próximas gerações. Ou seja, ser bom em política deve ser bom para perpetuar nossos genes, o fato é que a relação construída através do debate e do diálogo dialético exerce um papel instrumental na nossa evolução

Como o autor bem lembra, antes de sermos animais políticos, como afirmou Aristóteles, somos animais sociais. Durante o processo evolutivo, a sobrevivência de nossa espécie foi favorecida por nossa organização em grupos, há dezenas de milhares de anos vivíamos em pequenos grupos nômades que eventualmente entravam em conflito com outros grupos, ou simplesmente se uniam em grupos maiores através de coalizões.

Um comportamento que se mantém independentemente do lugar ou do tamanho do grupo, a necessidade e o ferramental são os mesmos, muda o cenário mas a narrativa e o propósito permanecem, sendo da participação clara e transparente que o modelo e a espécie evoluem.

Próximos ou distantes, compreensivos ou indiferentes, a política apenas classifica as pessoas pelo comportamento e é pela distância ou proximidade que escolhemos ser protagonistas ou mero expectadores do nosso destino, que escorre por nossos mandatários.

No livro destaca-se que a política vai além do que vemos nos noticiários e na televisão e que replicamos em nossas conversas, é esse além que pode mudar o nosso destino.

O livro está coberto de exemplos que facilitam a compreensão e o propósito narrativo do autor, que destacam a importância da linguagem nas nossas proposições, assim o autor exemplifica com a criança pequena que está com fome, pode ficar inquieta, chorar, mas se você a perguntar o que ocorre objetivamente, ela não saberá responder com precisão. O mesmo acontece com os adultos.
Assim como o Neuromarketing trouxe para o Marketing uma quebra de paradigma revelando que o que dizemos nem sempre corresponde ao que sentimos, o mesmo se aplica à política. Por vezes a política nos faz lembrar um verso do poeta Ruy Guerra “há sempre muita distância entre a intenção e o gesto”.

Segundo estudos reproduzidos no livro, na maior parte do tempo de nossa história vivemos em pequenos grupos, mais precisamente cerca de 150 membros, que é o tamanho da rede que nosso cérebro é capaz de lidar. Conhecida como “número de Dunbar”, impressiona a necessidade que as pessoas através de suas redes sociais se preocupam em ter, milhares de pessoas que não conhecemos, que são nossos facefriends, quase nada sabem de nós e que pouco ou quase nada, nos influenciam ou somos por elas influenciadas.

E é sobre isso que o livro fala com muita propriedade, pois, podemos ter milhares de amigos nas redes sociais, mas somos incapazes de acompanhá-los, porque nosso cérebro não foi projetado para isso. Ainda assim, dentre todos os animais, humanos são os que possuem a maior rede social, tudo isso graças à linguagem, que nos permite criar vínculos três vezes maiores com outros indivíduos do que os outros primatas. As redes digitais apenas organizam nossas redes multiplicando e organizando as mesmas.

Em tempos atuais a política tem gerado mais conflitos do que a felicidade dos cidadãos, proposta inicialmente por Aristóteles, temos seguido o caminho oposto do consenso, estamos cada vez mais divididos, mais individualistas, mais tribais.

Estamos voltando à nossa natureza mais primitiva, tratando de questões básicas sobre como nos relacionamos com os outros, quem são nossos amigos, quem são nossos inimigos, o que é bom ou ruim, quem merece ou não nossa ajuda.

Cada vez mais vulneráveis à persuasão e à manipulação em larga escala, temos dado poder a primatas ambiciosos confiando em nossos instintos primitivos e fazendo leituras equivocadas de suas reais intenções. Vivemos em períodos que parece ser mais importante vencer uma discussão do que aprender com ela, praticamos o debate pelo acirramento e não pela construção.

E nesse ponto mais uma vez o autor destaca que a política tem se tornado complexa, pois, o mundo assim também tem se tornado. Esbarramos em nosso limite cognitivo, e percebemos sua consequência em comportamentos que à primeira vista podem parecer bizarros, mas que são apenas resultado de nossa própria natureza, onde com todo o avanço tecnológico ainda agimos e nos organizamos socialmente de maneira instintiva e primata.

Vivemos no mundo sob a projeção e a sombra de nossos medos e a eles respondemos com agressividade, com a vil ideia de que o grito encurrala o medo que dentro de nós habita, esquecendo que os gritos apenas nos distanciam de nossos páreas,, que acuados com tanto barulho, respondem com mais barulho, onde todos gritam e ninguém se escuta.

É em meio a tantos gritos que através dos processo eletivos escolhemos nossos líderes, que reproduzem grupos que também gritam, nas esperança vã que seu grito seja o nosso e no fim é só mais barulho e distanciamento, assim permanecemos manipulados por nossos medos e por hábeis interlocutores que conhecem sobre esses medos e que seguem a melhor cartilha dos ilusionistas, sem cartola, mas com promessas.

O novo processo comunicacional criou novas figuras até então desconhecidas, como a memética, a disciplina científica devotada ao estudo teórico dos memes que busca entender como a cultura, o conhecimento, as crenças e os comportamentos se disseminam até se transformar em um estilo de vida de ampla aceitação, sobre ela o autor se debruça na construção dessa nova linguagem.

Bots, astroturfings, por todo esse arenoso e desafiante terreno o autor passa, analisando pormenorizadamente as tendências por ele construídas, na tentativa de construir uma nova linguagem que manipule e influencie no processo de consumo de novas mensagens, seja para adquirirmos um produto ou um novo político.

Nascem assim fake memes onde o chamado astroturfing constrói a tentativa de criar uma impressão de amplo apoio popular a uma política, indivíduo ou produto com pouco apoio na vida real. Através do astroturfing são criados perfis e grupos de pressão falsos para induzir o público a acreditar que o pensamento desejado é a visão comum e assim eleições são modificadas.

São tantas as ferramentas e com tanto conteúdo disponível nunca estivemos tão desinformados, onde a velha mídia entrou em crise e a nova não consegue ter controle do que é ou não verdade.

São novas tribos sim, onde são por meio do efeito manada reproduzimos velhos erros, da escolha de um mandatário influenciada por falsas notícias que alimentam velhos medos, ou em novas artimanhas tecnológicas, é nesse espaço que novos líderes embrenhados no velho populismo vão ampliando seu espaço, loucos por mais espaço e por discípulos que multipliquem o seu discurso, que como a velha tradição dos populistas adoram namorar com o totalitarismo, não sem razão o regime onde apenas um grita e os outros sufocados pelas botas no pescoço tentam respirar.

O artigo de hoje é parte do prefácio que fiz para obra citada, o livro já disponível é um ótimo estudo. Espero que o leitor goste tanto quanto eu gostei de prefaciar essa viagem pelo tempo da comunicação dos primatas até a nossa pouca evolução dos dias atuais, onde Lucy espantada olharia incrédula dos velhos debates de nossa vida em sociedade.

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