O HOMEM É O MAIOR ATIVO DA TECNOLOGIA?

As novas tecnologias por vezes acabam reduzindo o papel do homem nessa transformação, como se não fosse ele o centro das decisões e propósito.

Seja na ciência, no esporte ou na política as decisões desses homens e a sua intervenção é que fazem a diferença.

Tente imaginar as descobertas de Einsten sem o apoio da boa ciência? O que seria do talento da jovem skatista Rayssa sem bons técnicos que muito treinaram e estudaram o seu esporte? O que será de um presidente da república e da sua nação quando desdenha da ciência e vê na diferença de opinião um inimigo? É o ser humano que torna possível com suas decisões as conquistas das máquinas.

Quando se trata de resolver seus problemas, os humanos escolhem cada vez mais entre “a máquina” ou “a multidão”: por um lado, o hiperracionalismo dos algoritmos, aprendizado de máquina e inteligência artificial; por outro, instintos e emoções, como se fosse uma escolha única.

Mas, ao escolher qualquer extremo, é alertado em Framers: Human Advantage in an Age of Technology and Turmoil (veja o vídeo e o livro), desistimos de nossa poderosa e única capacidade cognitiva de fazer abordagens: o “ato deliberado de aproveitar modelos mentais para obter escolhas antes de tomar uma decisão”. O livro mistura alguns ingredientes familiares. Histórias coloridas de avanços históricos em pesquisa e inovação, do voo alimentado à edição de genes, uma explicação de técnicas para melhorar a tomada de decisões. Causalidade, análise contrafactual e limitações ajudam a aplicar a abordagem correta a um problema.

O homem na busca de soluções, como num processo transcendental, elege a máquina, por vezes esquecendo ser ela uma criação do próprio homem em um processo curioso.

O que me faz comentar sobre a importância de uma característica humana no processo de aprendizado de máquina, em particular tratada na obra “O Caminhar da Inteligência Artificial: Um olhar para a reprodução do modelo humano e os aspectos comparáveis das pessoas com as máquinas” de Carlos Henrique Ribeiro Fernandes, que trata da neuroplasticidade.

“A neuroplasticidade ou também plasticidade neuronal é o nome dado à capacidade que nosso sistema nervoso tem de mudar e se adaptar na dinâmica de eventos. Quer dizer que o nosso cérebro é capaz de se modificar no decorrer da nossa vida, de reinterpretar e ser flexível sobre o que antes incomodava ou nos fazia intolerantes e receosos. É uma propriedade que se observa como algo precioso, porque nosso sistema pode reinventar uma forma de lidar com o que foi doloroso e traumático em nossas vidas, o que nos levaria a uma espécie de cura na convivência diária. É em nosso cérebro que reside a maior complexidade do ser humano, que nos permite processar o que vem de nossos sensores (ouvimos, sentimos, vemos etc) e coordena tudo de maneira integral. As ações humanas podem ser feitas sem que haja um comando consciente para fazer isso, mas como reação natural do sistema nervoso. A neuroplasticidade entra em ação mais efetivamente quando passamos por algo que exige que continuemos dando passos e superemos situações que jamais desejamos que tivessem acontecido. Se imaginássemos uma estrada interrompida, um vetor que não pode ser percorrido, a neuroplasticidade seria uma ponte para que o indivíduo possa pular e deixar para trás o que não pode resolver. Antes de entrar em ação, logo após o trauma que uma pessoa passou, a neuroplasticidade aguarda o período de resolução, das tentativas e do necessário sofrimento e lamentação que as vezes a situação pede, mas dali nascem os bloqueios do que não se pode contar e muitas vezes são apresentados novos possíveis caminhos ou a visão mais clara de novos subsídios. O reencontrar do indivíduo com o vetor que ainda percebe necessário (seguir em frente com as coisas) é promovido pela neuroplasticidade que pôde transformá-lo. Uma pessoa que ficou cega pode ampliar seus demais sensores como a audição e o tato, a percepção da distância pelo barulho, o sentimento do calor aumentando quando não há visão do fervor etc. A neuroplasticidade não é uma fuga, não é uma negação ao problema, mas permite que se alterem os caminhos como parte da adaptação à realidade que se observou. Algumas pessoas a percebem como fruto da maturidade e de fato é, mas não a maturidade no que tange exclusivamente à experiência de vida, mas pelo autoconhecimento sobre as reações que ocorrem no físico e que fortalecem a capacidade de aceitação de uma verdade imutável.” É ela que permite o aprendizado e o evoluir para novas experiências tendo sua referência no passado.

É por isso que quem tem ótima memória tem uma considerável vantagem no processo de aprendizado.

Pois a aprendizagem é promotora da neuroplasticidade, permitindo que as pessoas raciocinem sob outras hipóteses, e quando falamos de uma máquina, devemos considerar a capacidade de um sistema em reagir a impactos radicais na forma de processar, no modelo de instrução que servia ou até na forma de informar aos usuários. Imagine, se uma nova moeda passe a operar, mas no longo período de transição, imaginemos 6 meses, o sistema deva conviver com as duas unidades. Um sistema pode estar preparado para atender a mudanças imediatas de moedas porque no final será pago na mesma moeda e ele não precisaria converter. Uma maçã que custa 2 pelo quilo, poderia custar outro valor como 1, e assim isso poderia ser um problema de informática tradicional, convertendo a moeda e depois apresentando ao usuário uma soma simples de tudo o que comprou no mercado, o quanto ele tem que pagar. Mas imagine se alguns produtos estejam em moedas diferentes dos outros, ou que o usuário queira pagar em outra moeda ou uma parte em uma moeda e outra parte em outra. Esta seria uma mudança radical ou “traumática” para o sistema e o melhor que poderia ser feito é que ele mesmo pudesse, a partir da capacidade de cognição da sua rede neural artificial, mas nem todos os sistemas poderiam reagir a estas dinâmicas, certo? A complexidade de uma máquina em conseguir escolher saídas, deve antes de tudo compreender as formas de saídas, tal como o ser humano quando identifica e aprende outras formas de fazer ao se observar impedido nos métodos que fazia antes. A plasticidade desses sistemas neurais artificiais depende da forma que a rede neural foi desenvolvida. Quando falamos em aprendizado de máquina, machine learning, falamos da propriedade de um sistema em aprender mais informações, classificar sem supervisão e assim criar novas classes diante de novas entradas, e isso não se refere a trabalhar a rede neural para que adote outra maneira de atuar. Se uma rede não está preparada para atuar diante de uma alteração “traumática” na sua forma de atuar, não pode contar, portanto, com uma neuroplasticidade artificial. Um outro exemplo interessante é com relação às leis, que estão sempre sofrendo alterações, que podem ser substituições, exclusão ou novas considerações e providências.

É bom lembrar as diferentes características de homens e máquinas quando comparamos as redes neurais, pois as redes neurais artificiais (RNA) são visões computacionais inspiradas no cérebro biológico, que são capazes de reconhecer padrões através do aprendizado de máquina. O aprendizado de máquina pertence ao campo da ciência ou engenharia da computação, que procura dar este significado ao software que está preparado a compreender e registrar padrões diante da entrada de valores. Obviamente, se é um software, pode estar aplicado nos bastidores de interfaces de sistemas de informação (front end), assistentes virtuais (chatbot) ou mesmo aplicado à robótica. Uma RNE pode ter centenas e até milhares de neurônios, enquanto cérebros, não só de humanos, mas de mamíferos de uma forma geral, são extremamente complexos e contêm bilhões de neurônios. A título de conhecimento, um cérebro humano adulto possui cerca de 85 bilhões de neurônios em seu corpo, e por incrível que pareça com toda essa vantagem e essa disponibilidade por vezes parecemos não usá-los.

Uma pesquisa recente, publicada sugeria que a NASA deveria designar um membro da tripulação com uma personalidade coringa para futuras missões espaciais de longa distância para desarmar tensões e incentivar o pensamento inovador, visto que a abordagem é um complemento indispensável à cooperação humana, a ferramenta de resolução de problemas mais usada. Eles apontam que pesquisas recentes trouxeram à tona porque o uso de modelos, ou quadros, uma habilidade que desenvolvemos quando crianças, nos ajuda a tomar melhores decisões. Ao explicar a importância do raciocínio causal, por exemplo, destaca-se o trabalho de Tania Lombrozo, da Universidade de Princeton, que descobriu que, à medida que os humanos explicam o mundo, aprendem mais sobre ele e desenvolvem melhores conhecimentos.

Da mesma forma, ao fazer uma análise contrafactual, testamos possíveis resultados e podemos evitar tirar conclusões precipitadas, o que impediria muitos dirigentes políticos de entenderem que todos os dados que não lhe são favoráveis fazem parte de uma trama da mídia internacional e comunista para lhes derrubar, ao invés de aprender e ver esses dados como referência e desafio.

Mais recentemente, quando a pandemia atingiu no ano passado, muitas empresas descobriram que o planejamento de cenários era essencial para que elas determinassem como superar uma crise antes inconcebível.

Por mais que se avance na ciência ela depende do homem para evoluir, e interpretar os dados, ou seja a IA dependem da abordagem humana.

Como destaca Cukier e Vériciurt: A única abordagem ruim é aquela que nega outras abordagens”, uma exceção que eles usam para deplorar o totalitarismo, a censura e a atual “cultura da anulação”. Esta seção esperançosa exige diversidade, iluminação e valores humanos progressistas em oposição à tirania da multidão e da máquina: “Não estamos sujeitos a forças além do nosso controle. Pelo contrário, como pensadores, estamos armados com estratégias para construir a sociedade que queremos.”

O conhecido lema interno do Facebook, “Mova-se rápido e quebre as coisas”, responsável pelo desastre que se tornou a evolução das redes sociais e a privacidade da história por causa da empresa criada por Mark Zuckerberg, criando um divisor de águas entre como a tecnologia pode avançar sem respeitar a ética.

Logo voltamos ao ponto inicial onde o avanço da tecnologia depende do homem e de seus valores.

Uma empresa deve abordar a inovação como um terreno sem limites, sem pensar em sua pesquisa e desenvolvimento pelo fato de que algo vai além de algum tipo de convenção predeterminada?

É evidente que não pois quando empresa, pessoas e incluindo ai os políticos estão projetando produtos ou serviços, a ética precisa ser o alicerce a base.

Retirar um produto quando você vê que está produzindo problemas de primeira classe que ameaçam a sociedade não é uma questão relacionada à velocidade que você aplicou ao seu desenvolvimento ou à inovação, mas um problema relacionado à ética. Quando você vê que seu produto foi usado para manipular processos eleitorais, para provocar genocídios ou para perseguir seus usuários com base em todos os tipos de informações pessoais, algo deve dizer que está errado. Se você não tem uma voz interior para lhe dizer, você tem um problema sério.

Se há uma coisa que o Facebook e seu fundador demonstraram ao longo dos anos, não é precisamente sua capacidade de inovação, mas sua total ausência de abordagens éticas, o que deve fazer com que qualquer parametrização de ética e conteúdo em suas redes sociais um desafio gigantesco.

Logo o problema não vem de se mover rápido, ou quebrar algo de vez em quando. As consequências potenciais de uma inovação podem às vezes não ser claras durante seu design, ou mesmo nos estágios iniciais de seu lançamento. Mas quando todos estão dizendo que o que você fez está causando consequências horríveis e você segue em frente, porque você acha que absolutamente todos os outros estão indo na direção errada, você tem um problema. O problema é saber que você está quebrando coisas muito importantes e não só não parando ou recuando, mas continuando a fazê-lo conscientemente, a fim de ganhar um pouco mais. Não é um problema de inovação, mas de falta de bússola moral. É por isso que é profundamente claro que os problemas nunca serão corrigidos permitindo que empresas como o Facebook se autorregularem, porque não têm precisamente o que é preciso para ser capaz de fazê-lo.

Assim a desculpa de “não fui eu, foram outros usando meu produto”, usados ontem por uma empresa israelense fingindo fugir da responsabilidade pelo uso de seus produtos por certos governos, é completamente ridículo e injustificável, prova de uma relatividade moral brutal inaceitável, como “minhas armas não matam, seus donos fazem” ou “meus combustíveis não destroem o planeta, vocês que não param de usá-los”.

A sociedade não deve ser protegida da inovação. Deve ser protegido de pessoas antiéticas e inescrupulosas de qualquer tipo, estejam ela na política ou em qualquer campo.

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