O FIM DO IPOD, DEVER E DIREITO DE INOVAR

Muitas vezes na vida é tênue a linha que divide o resiliente do teimoso, enquanto o primeiro planeja, edifica um processo e busca uma meta, o segundo muitas vezes se convence da primeira ideia, não escuta vozes discordantes e procura em tudo sinais pra se convencer que a sua ideia está correta, esse talvez seja o maior traço entre líderes de verdades e falsos líderes, pois mesmo que ambos possam ser vaidosos só os primeiros são capazes de identificar quando uma outra e nova ideia pode ser melhor do que a sua, seja ela materializada por uma nova tendência, um novo produto ou um novo serviço, e é nessa categoria que se encontra Steve Jobs.

Quando a Apple anunciou que o seu dispositivo que foi lançado há 20 anos, desaparecerá quando o iPod Touch estiver esgotado, ela estará dando fim a um ciclo que bem desenha a nova economia digital.

Em 23 de outubro de 2001, Steve Jobs apresentou a primeira geração de um de seus dispositivos mais icônicos, o iPod. “Mil músicas no bolso”(hoje você tem mais do que isso em apenas uma playlist), anunciou o fundador da empresa Apple.

Pouco mais de 20 anos depois, a Apple decidiu matar seu músico permanentemente, como a empresa explicou em um comunicado.

Intitulada “Music Is Still Alive”, a Apple diz que o iPod não faz sentido quando as pessoas carregam suas músicas em seu iPhone, iPad, Mac ou Apple Watch. “Hoje, o espírito do iPod ainda está vivo. Integramos uma experiência musical incrível em todos os nossos produtos, desde iPhone a Apple Watch até HomePod mini, e no Mac, iPad e Apple TV. E o Apple Music oferece qualidade de som líder do setor com suporte para áudio espacial,– não há melhor maneira de desfrutar, descobrir e experimentar música.”

Se em 2006 a venda do iPod contribuiu com 40% da receita total da Apple, isso significou apenas 1% em 2014, último ano em que seus dados foram fornecidos, logo a Apple toma essa decisão três anos após lançar seu mais recente iPod, o Touch, que com uma aparência muito semelhante ao iPhone tentou capturar os últimos amantes deste formato, praticamente atendendo nos últimos anos um segmento de nostálgicos, ou a forma mais acessível de se entrar na família de produtos da empresa de Cupertino.

Mas a realidade é que carregar mais um dispositivo no bolso que faz exatamente a mesma coisa que o iPhone, não fazia sentido, e o fim do iPod é o resultado mais lógico.

A empresa Apple diz que manterá o iPod Touch em estoque enquanto durarem as ações, para usuários que desejam adquirir o que será o último iPod da história, algo para colecionadores.

A Apple é sem dúvida uma referência para se pensar nos tempos atuais tanto na força do seu criador como no DNA que a empresa mantém mesmo 11 anos após a sua morte. Quantas empresas brasileiras sobreviveram ou sobreviveriam a morte do seu fundador?

Afinal Jobs, além de ser a principal força criativa da Apple, foi também um visionário, que profetizou as maiores mudanças tecnológicas do início do século XXI, logo a morte dele em 5 de outubro de 2011, como resultado de uma parada respiratória derivada das metástases do câncer de pâncreas que havia sido diagnosticado oito anos antes, deixou todos atordoados.

Steve Jobs profetizou com seus conceitos, serviços e produtos, o que estavam por vir no universo tecnológico, que hoje modificam as nossas vidas, e que na época a maioria de nós não tinha a dimensão do alcance e da velocidade, o conceito de plataforma, que virou a referência de negócio para as big techs é o seu melhor exemplo.

Em um discurso na Conferência Internacional de Design de 1983, quando mesmo computadores pessoais mal haviam penetrado na maioria das casas, Jobs já explicava que sua ideia era trabalhar para “colocar em um livro um computador incrivelmente poderoso que pode ser levado onde quer que se vá e que possa ser aprendido a usar em vinte minutos”.

Vinte e quatro anos depois, a empresa que ele dirigia mostrou pela primeira vez um telefone iPhone em público; e três anos depois, o primeiro tablet iPad.

Com seus recursos inovadores e design impecável, tanto o iPhone quanto o iPad foram os dispositivos que abriram caminho para dois novos mercados, smartphones e tablets.

O que aumenta a importância do líder na Apple e em outras empresas pode ser resumido na reflexão de referência, pois é bem difícil prever se essas duas revoluções teriam acontecido da mesma forma sem a iniciativa da empresa de Jobs, o líder impulsionando suas equipes.

Lembro que os smartphones, por exemplo, já eram uma realidade incipiente antes do iPhone, Palms e Blackberry já eram as referências antes de Jobs apresentar seus conceitos, e onde eles estão hoje?

O tempo impõe permanentes desafios para os líderes, mais do que visionários eles e as empresas que criam são postos a prova em novos desafios, sejam eles tecnológicos ou regulatórios.

O exercício permanente para melhoria de produtos e serviços depende também de arranjos societários que deem tranquilidade a empresa, onde a sucessão e o cuidado com ela seja um horizonte permanente. Afinal com o tempo aprendemos que “só os diamantes são eternos.”

A junção de um telefone com um computador não é nova e se entendermos de forma menor rigorosa, que um smartphone seria união desses dois aparelhos, a invenção dele poderia ser atribuída a Nikola Tesla, que em 1909, desenvolveu o primeiro conceito de combinação de telefonia com computação.

Mas os primeiros assistentes pessoais, também chamados de PDAs, eram portáteis e com função de processamento de dados, e começaram a aparecer em 1984 com o Psion Organiser. No entanto o primeiro celular com PDA, foi surgir apenas em 1992, um aparelho desenvolvido pela IBM e recebeu o nome de Simon, esse primeiro celular já continha tela de toque e conseguia acessar os e-mails, sendo que o termo smartphone só foi usado pela primeira vez em 1997 pela Ericsson.

Esses aparelhos eram inicialmente de uso de executivos, e sua popularização só veio no final da década de 90, com a entrada do Palm OS e BlackBerry OS, sendo que a Blackberry lançou seu primeiro smartphone em 2002, foram cinco anos de liderança e referência em matéria de qualidade.

Até que em uma terça feira, no dia 9 de janeiro de 2007, com as luzes do auditório apagadas, Steve Jobs subiu, silenciosamente, no palco do Moscone Center, em São Francisco, com uma luz branca o acompanhando, e no fundo uma tela gigante projetava o símbolo da Apple, trajando sua roupa tradicional, para essas apresentações ele começou a falar: “Por dois anos e meio (resiliência) eu estive esperando por este dia”. E continuou: “De vez em quando, surge um aparelho que revoluciona tudo.” E ele segui fazendo a narrativa dos sucessos lançados por sua empresa” Um por um com uma plateia enlouquecida.

O interessante é que a Apple em cada lançamento nunca se preocupou se o novo produto poderia matar o anterior, ela queria ser apenas a referência do que existia de melhor e de estar na frente dos demais, lembre-se que ao lançar o iphone ela estava colocando um produto no mercado que matava o seu iPod, o tocador de música que ela mesma havia lançado em 2001, mudando a forma das pessoa de escutarem música, e foi certamente o primeiro aparelho móvel de comunicação a aliar conforto, praticidade, estilo e comodidade. Se você for no museu de arte moderna em NYC vai encontrar o primeiro iPod como exemplo de design revolucionário.

Com design revolucionário o iPhone virou o objeto de desejo quando o assunto era smartphone e logo acelerou a decadência da líder BlackBerry, se o segundo era a junção de um computador ao celular o segundo era completamente diferente. Primeiro por um design revolucionária que abolia o teclado, segundo pelo reduzido número de botões, apenas um botão na frente do aparelho.

Mais uma aposta na mudança cultural acompanhada de muita tecnologia pra se digitar em uma tela touch, porém havia algo ainda maior, o conceito de plataforma, a junção de produto e serviços, e assim foi que a Apple foi batendo recordes de valores na bolsa, por compreender e realizar com perfeição o conceito de plataforma.

O mercado demorou a reagir (novamente a resiliência se distinguindo da teimosia) e a Apple Store tratou de completar o sucesso da empresa de Cupertino, com o maior número de aplicativos disponíveis para um celular, ou seja com o tempo o smartphone serviria pra absolutamente tudo, até fazer uma ligação. Não era apenas um produto mas um conceito da nova economia vertida na tela de um celular, e as suas evoluções foram mudando inúmeros negócios, mudou-se a forma de comprar e ouvir música, a forma de ver vídeos, de participar de reuniões, o celular como plataforma é um ambiente adaptável para quase tudo, e logo tudo precisava ser vertido em aplicativo.

A queda do BlackBerry, esta umbilicalmente ligada aquela terça, 9 de janeiro de 2007, ao subir no palco ao som de “I feel good” interpretada por James Brown estava sendo criada uma nova época na história.

Desde essa data, smartphones deixaram de ser privilégios de executivos e passaram a fazer parte da rotina de todos nós em maior ou menor grau.

Com uma loja aberta, autorizando todos a desenvolverem aplicações para o seu celular, Steve Jobs, tornou seu aparelho o com o maior número de aplicativos disponíveis e essa foi mais uma chave para o sucesso e explosão do valor da Apple.

O que o tornou eterno foi a total ausência de medo de inovar, de entender que se pode fazer melhor e de que consumidores querem sempre algo melhor mesmo que nem mesmo saibam o que isso seria. Ver tendências é para poucos, a eles chamamos de visionários e claro os pobres de espírito irão chama-los de sonhadores, mas isso é só um detalhe da miséria humana.

(Artigo publicado no site www.jusbrasil.com.br, em 11 de Maio de 2022).

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