O CONTO DO VIGÁRIO E A ÉTICA NO MARKETING DIGITAL

A origem da expressão “cair no conto do vigário” tem sua origem no século XVIII, na cidade de Ouro Preto entre duas paróquias: a de Pilar e a da Conceição que disputavam a mesma imagem de Nossa Senhora.

Diz a história que um dos vigários propôs que amarrassem a santa no burro ali presente e o colocasse entre as duas igrejas. A igreja que o burro tomasse direção ficaria com a santa. Acontece que, o burro era do vigário da igreja de Pilar e se direcionou para lá deixando o vigário vigarista com a imagem.

Os séculos passam, as formas se modificam e algumas estratégias se sofisticam com o propósito de sempre se obter vantagem, nos atualizados “contos do vigário”.

O universo digital é farto de estratégias matreiras, para obter de forma sorrateira os seus dados, seja para lhe ofertar produtos e serviços, ou para de forma criminosa se aproveitar das suas falhas de segurança e lhe aplicar golpes lesando os mais ingénuos.

São essas estratégias, que transformam após um clicar ingênuo, em verdadeiro inferno a vida do usuário, criando uma péssima “experiência do usuário” que invariavelmente só muda o tom do dissabor.

Desde um simples spam nas nossas caixas de e-mail, que muitos consideram ser dos males o menor problema, pois com os avanços na filtragem antisspam das caixas de e-mail e nos livrarem de golpes através de phishing, quase sempre tendo como isca, as ofertas milagrosas, a renda na minha conta de milhões em bitcoin, as heranças de parentes perdidos, as fotos de traição do ente querido, ou um empréstimo internacional com módicos juros, acabam caindo nas caixas de spam, onde uma rápida revisão, fruto de um leve aprendizado acaba resolvendo. Em que pese o fato que por muitas vezes, alguns e-mails legítimos que não deveriam ter ido para aquela pasta, acabam sendo classificados pela inteligência artificial classificados de forma equivocada, logo mesmo na caixa de spam, precisamos olhar com calma.

É obvio, que a transformação digital, antes de mais nada é do homem, empresas não realizam a transformação digital, apenas com novos softwares é preciso inserir nesse processo seus colaboradores e também seus clientes, por isso a comunicação é constante, e assim o aprendizado de um simples compliance na sua caixa de e-mail também tem importância.

E o mesmo com chamadas de negócios, o que pressupõe a inclusão do seu nome em sites como o www.naomepertube.com.br que ajuda na sua gestão de ligações e e-mails que você não precisa receber, de ofertas de serviços que você também não quer.

A publicidade na internet é, hoje, um modelo fracassado, e colaborar com esse modelo é, um equívoco. Se muitos usuários bloqueassem a publicidade na Internet, as empresas que recorrem a ela perceberiam que é necessário mudar sua operação odiosa. No navegador que uso para trabalhar não quero perder tempo. Portanto, uso a combinação do navegador Brave, um dos melhores do ponto de vista de proteção de privacidade, e o plugin Ghostery, o que me libera de ver muita publicidade desnecessária.

Toda essa poluição de ofertas de produtos e serviços que você não quer, quase sempre não precisa, mas mesmo assim é bombardeado, gera uma relação de animosidade entre você e o anunciante, o que nem sempre os profissionais de marketing digital comunicam ao seu cliente, afinal uma parte considerada deles sempre mantém maliciosamente o foco na visualização e não na conversão.

As ferramentas que são utilizadas, nessa relação pouco ética, e logo fadada ao desgaste no tripé, anunciante, consumidor final e profissional de marketing, não é nova, e por isso muito do seu uso já deveria ter sido extinto.

Melhorar a experiência do usuário, é um dever de todos na construção das novas formas de comunicação, e os reguladores devem estar atentos a isso.

A publicidade digital, sempre mostra uma aparente transparência para quem contrata as visualizações, curtidas e ou conversões, mas acaba sendo na maioria das vezes uma caixa preta, que tem regulada no seu piso a lei Geral de Proteção de Dados, e no seu teto os interesses corporativos das plataformas digitais. Logo a sua redefinição radical é uma questão de tempo.

No seu início, a promessa da publicidade digital era clara: diante da uni direcionalidade da mídia clássica, usaremos a bi-direcionalidade da rede para adaptar a mensagem publicitária ao usuário que está do outro lado, e isso vai melhorar a eficiência do investimento. O clássico axioma de “Eu sei que desperdiço metade do meu investimento publicitário, mas não sei o que metade”, foi substituído por atiradores qualificados capazes de entregar a mensagem sempre a um perfil considerado dentro de um determinado alvo, maximizando a eficiência.

O que resta dessa promessa? Na rede, a publicidade, que já responde por quase metade do investimento publicitário total e deixa alguns meios clássicos reduzidos à categoria de marginais, criando uma concentração de verba de publicidade não mão de Google e Facebook jamais experimentada em toda história da humanidade.

Para melhor explicar, no modelo mais amplamente utilizado, publicidade programática (89% do total), a publicidade é decidida por algoritmos que leiloam perfis de usuários em tempo real: você entra em uma página, e o sistema leiloa seu perfil para o maior lance com base no que ele é capaz de saber sobre você com base em seus comportamentos anteriores.

O problema surge quando vemos que, na realidade, cada um dos atores envolvidos toma uma porcentagem do seu investimento, e do que resta, uma boa parte é devorada por atores maliciosos, que gerenciam bots e clicam para fazer fazendo com que você acredite que o seu anúncio foi entregue a pessoas de carne e osso consideradas dentro de seu alvo, quando, na realidade, não tem sido, e nem sequer foi visto por pessoas reais. Há estimativas  que calculam que o percentual de cliques fraudulentos hoje é próximo de 88%, já imagino para um investimento de R$1.000,00 feito por voc6e para gerar visitas no seu site, aproximadamente R$880,00 você pagou para robôs gerarem uma falsa visita?

Na prática, verifica-se que o aparato tecnológico supostamente maravilhoso criado para levar os anúncios para aqueles que podem estar interessados neles tem menos sucesso do que jogar uma moeda no ar ou colocá-las completamente aleatoriamente: uma coisa tão simples quanto segmentar por gênero acaba sendo correta em menos da metade.

Nesse momento a publicidade geosegmentada, que soava tão lógica e razoável, já demonstra estar repleta de imprecisões a ponto de desperdiçar assustadores 65% de seus impactos. Os algoritmos do Facebook, de acordo com um levantamento, estão apenas entre 9% e 41% dos casos certos, ou seja, a rede social, que sabe quem você é, o que faz, gosta, escreve e curti tem esse elevado grau de imprecisão, levando a máxima de uma frase que costumo usar “quem vê curtida não vê coração”.

De igual forma, a desgastada ferramenta dos cookies, agora limitados pela Apple e que a cada dia são mais interceptados pelos navegadores, com isso o resultado, ou a entrega no jargão mais atual é cada vez mais difícil para os profissionais de marketing e as concentradoras plataformas.

Na sociedade da informação, com tanta geração de conteúdo acabou-se por gerar a desinformação, fruto do uso de robôs e seus perfis falsos na utilização das redes sociais que compartilham diariamente milhões de fake news, tanta desinformação acaba levando para o lixo a credibilidade das notícias e junto também as marcas dos anunciantes desses canais.

As plataformas estão esgotando o resultado financeiro das suas ferramentas de marketing digital e quem paga essa conta são os anunciantes, e toda a sociedade. Os primeiros por precisarem investir a cada dia mais e ter um resultado a cada dia menor, o que só piora a sua condição de anunciante e enriquece as plataformas digitais e a sua concentração na divulgação dos anúncios. A sociedade, pois perde seu tempo, oferta seus dados na famosa experiência de usuário, isso quando não vira vítima dos inúmeros contos do vigário, além é claro de pagar mais caro por serviços e produtos que repassam o custo do seu marketing digital, e mais uma vez um só ganhador, as plataformas digitais que acumulam ainda mais informações, aperfeiçoando sua base, para venda de novos produtos.

Metaverso, carros autônomos, comunicação por nano satélites, são mais do mesmo, ou seja a concentração das plataformas digitais, as bigtechs que estarão dentro de qualquer nova tecnologia e serviço que faça uso dos nossos dados e que se aperfeiçoe com a nossa “experiência de usuário”.

A “economia da atenção” precisa do nosso tempo e dos nossos dados, só que quando todos correm para as mesma ferramentas e plataformas o resultado é mais tempo de uso, e menos resultado, devido a poluição e a desatenção gerada por esse excesso.

Após a geração da sociedade da desinformação, caminhamos a passos largos para a “Economia da Desatenção” onde o nosso tempo é apenas um laboratório para captura de dados e concentração de riqueza nas mãos de umas poucas plataformas digitais.

A ética e a moral, escorrem pelo ralo quando as big techs se juntam querendo dominar o nosso mundo, fazendo de cada um de nós apenas um amontoado de dados para serem estudados, na busca da oferta de produtos, serviços e mais publicidade, tudo tendo como único foco o resultado.

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