NOVOS EMPREGOS E A TRANSFORMAÇÃO DIGITAL

Se tem algo que a pandemia nos ensinou é da necessidade de saber trabalhar em equipe ainda que distante.

Independentemente da profissão escolhida, ou do seu negócio, saber trabalhar em equipe mais do que nunca é o uma necessidade da transformação digital, onde trocamos o vizinho de mesa por um colega que está em outro bairro, em outra cidade ou em outro país, pois em tempos de transformação digital empregos e empregados podem estar em qualquer espaço físico desde que estejam conectados pela internet.

Saber controlar as ferramentas digitais para essa nova etapa da vida é um requisito mínimo, logo instrumentos de colaboração em tempo real em torno de um documento, como Google Docs, Office 365, etc., ganha uma nova dimensão e importância.

Essas ferramentas estão começando a atingir um nível razoável de conhecimento, o que significa que muitos estão começando a saber que elas existem, porém ainda é pequeno o número dos quem sabem usá-los regularmente. Afinal ao contrário do que aconteceu com ferramentas de gerações tecnológicas anteriores, não é porque suas barreiras à entrada em termos de aprendizado, disponibilidade ou preço são altas, mas porque representam uma forma de trabalhar com uma abordagem completamente diferente. Do meu ponto de vista, infinitamente melhor, mas ninguém acredita nisso, pois a nova cultura de trabalho tem seus desafios, além do necessário compliance digital para uso delas.

Porém a adoção generalizada, quase sempre é muito mais lenta, sempre bem mais do que se espera, pois depende da incorporação de pessoas e da compreensão urgente dessa necessidade.

Em que pese a gigantesca diferença em termos de produtividade e ganho de inspiração coletiva que é brutal.

Mas se uma ferramenta é simples, poderosa, não tem barreiras notáveis à entrada e melhora muito a produtividade, então por que seu uso não se espalha ainda mais? Simplesmente, porque testar seriamente essas ferramentas de trabalho colaborativo requer colocar o grupo de pessoas que têm que colaborar de acordo para testá-las. Pessoas que se consideram familiarizadas com outra filosofia de trabalho, que tendem a ser conservadoras sobre as ferramentas com as quais se sentem confortáveis, e que desencadeiam a crítica como a maior funcionalidade dessas ferramentas, mesmo sendo funções que usaram menos de uma dúzia de vezes em toda a sua vida. Também pode exigir mudança de procedimentos, mudança de costumes entrincheirados, mudança de disciplinas e agendas de quem tem o hábito de trabalhar em grupo pessoalmente, na mesma sala. Isso sem falar na necessidade embrionária de comunicar e acordar com os colaboradores a disseminação dessa nova cultura e das suas implicações de ordem legal.

Nos parece obvio que outras diferenças surjam, pois ao se considerar a elaboração de um documento conjunto entre várias pessoas, reuni-lo e prepará-lo, implica em envolver, e levar um certo número de horas. Assim elevá-lo no modo virtual geralmente significa que alguém abre o documento, convida o resto dos participantes e que o documento permanece aberto até que o último participante tenha entrado e supervisionado o que tem que supervisionar. Por alguma razão, a disciplina imposta pela reunião presencial não tem necessariamente um lugar diante do que deveria ser seu equivalente na rede. É mais difícil para nós alocarmos tempo de qualidade para uma reunião em torno de um documento compartilhado em rede do que fazê-lo em uma reunião que, devido às suas circunstâncias presenciais, nos obriga a fazê-lo.

Na prática, o ganho de produtividade de uma reunião virtual desenvolvida seriamente em torno de um documento ou planilha versus a alternativa de discutir todos juntos em uma sala de reunião é consideravelmente elevado, e não requer nenhum treinamento especial.

Quase sempre por simples conservadorismo, não tentamos uma tecnologia certamente superior simplesmente porque estamos mais confortáveis com a que conhecemos, porque achamos que não funciona mal, porque não vemos a necessidade de mudá-la. Se você ainda não experimentou em sua empresa, coloque-o à prova.

Isso é fácil de ser identificado, na troca de um aparelho celular por um mais novo, quando o usuário tem mais de 40 anos, naturalmente somos mais resistentes, pois já dominamos o modelo antigo, logo é exatamente assim que agimos em nossas empresas ou em nova competências laborais, temos medo do novo, e é esse medo que enterra novas vocações.

Nesse momento de transformação digital, os chamados nômades digitais, deixaram de ser um nicho e passaram a ser uma parcela significativa entre a mão de obra disponível, e como lidar com eles? Como contratar? Quais são os riscos legais e operacionais?

Pense por hora na dimensão que o teletrabalho ganhou? E afinal como cada vez mais empresas o utilizam de forma completamente normal para definir ambientes de trabalho em que a sede corporativa é usada apenas esporadicamente por trabalhadores que, de forma habitual, trabalham em casa ou de onde querem.

O chamado teletransporte, ou trabalho remoto, é um assunto estudado há décadas. No entanto, estamos claramente passando de uma concepção desse tipo de acordo em um modo praticamente substituto, como recurso para certos casos e certos empregos, para empresas completamente estruturadas em torno de estruturas remotas, onde cada pessoa trabalha de onde quiser, e onde a grande maioria das reuniões ocorrem em ambientes virtuais, com recurso mínimo à presença física. Diante das visões dos anos 90 em que os trabalhadores normalmente realizavam tarefas de baixo nível de responsabilidade, às vezes ligadas a circunstâncias excepcionais, como licenças ou acordos específicos, e a partir das quais se dizia que eles vivenciavam um desprendimento crescente em relação à empresa, passamos para empresas que são diretamente projetadas com esse tipo de ambiente em mente, e que obtêm a partir dele vantagens muito claras.

Vários fatores afetam essa mudança de percepção, bem enumerados em artigo de Henrique Dans:

  1. Evolução das ferramentas de colaboração, desde ambientes baseados em e-mail até filosofias muito mais focadas na nuvem, documentos compartilhados, chats, ferramentas de gerenciamento de projetos ou reuniões de vídeo. Muitas dessas ferramentas já existiam, mas nem sua eficiência, nem sua simplicidade, nem a cultura associada ao uso eram como as atuais.
  2. Evolução dos trabalhadores. Ambientes colaborativos na rede têm toda a lógica para uma geração de trabalhadores nascidos e criados neles, acostumados a se relacionar com total normalidade por meio dessas ferramentas.
  3. Evolução das culturas corporativas. Diante de ideias como as de Marissa Mayer no Yahoo!, que na época acreditava que a suspensão de acordos de teletransporte resultaria em uma melhoria da cultura corporativa, e que descobriu que foi precisamente essa medida que gerou um maior distanciamento e uma maior rotatividade de trabalhadores, para culturas como o GitHub ou o WordPress , que entendem esse tipo de acordo como a possibilidade de atrair e reter um talento que, em muitos casos, não está disposto a mudar de local de residência ou vida pelo fato de se comprometer com uma empresa.
  4. A evolução da abordagem da sede corporativa, na qual o conceito de escritório como sala fechada que isola um trabalhador cai em desgraça, e a ideia de áreas abertas que permitem que a relação entre as pessoas ganhe inteiro. Se você vai trabalhar, faça isso para se relacionar com outras pessoas, não para se trancar em um quarto. Se seu trabalho naquele dia requer concentração, fique em casa.
  5. A evolução para culturas focadas em resultados e sistemas de controle de gestão que lhes permitem ser avaliados de forma mais objetiva, independentemente de questões como presença física.
  6. Evolução do aprimoramento de conceitos como conciliação ou responsabilidade do trabalhador.
  7. Disponibilidade de bons exemplos, de histórias de sucesso que transformaram esse tipo de ambiente remoto em boas práticas. A Automattic, empresa criada por Matt Mullenweg em torno do WordPress,tem514 funcionários em 52 países e falando em 70 idiomas. As empresas estruturadas em torno desse tipo de culturas distribuídas vão de casos isolados ou marginais, para se tornarem praticamente exemplos a seguir.

Dessa forma as empresas, cada vez mais, sejam elas startups ou não, precisam serem projetadas como base para isso, na medida que estão começando a fazer uso crescente desse tipo de ambiente, com evoluções das mais diversas formas.

Estamos sim, diante de uma redefinição do conceito de trabalho, e de um ambiente que facilita que as estruturas corporativas possam funcionar de forma eficiente em ambientes distribuídos não só não perdendo as supostas vantagens do presencial, mas até mesmo apresentando vantagens adicionais. Quando o desenvolvimento da tecnologia facilita cada vez mais certos tipos de uso, considerando não usá-los, fechar-se deles ou perpetuar estruturas clássicas pode se tornar um problema. Se sua empresa não tem esses tipos de ambientes em sua agenda, considere que, cada vez mais, seu acesso a um determinado tipo de talento, sua produtividade ou até mesmo sua reputação podem sofrer por eles.

Fica evidente, que a transformação digital, não é um software, mas um comprometimento em alterar um comportamento e de se incorporar essa nova cultura.

Independentemente da escolha da sua atividade laboral, o trabalhar em equipe, é mais do que um requisito é o caminho natural da nova economia.

A colaboração é fundamental na hora de gerar informações, para uso interno ou externo, e pode gerar muito valor para todos os fins, logo os processos devem ser redesenhados, observando os valores culturais, a produtividade e o cuidado no manejo com os dados.

A chave para o sucesso ou fracasso na atuação de uma empresa nos tempos da rede social tem muito a ver com o desenvolvimento ou reinvenção de uma cultura aberta, menos hierárquica, mais desestruturada e mais “moderna”, do que com a adoção de uma ferramenta ou outra, logo a transformação é e sempre será cultural, onde as ferramentas de tecnologia servem ao propósito, e não o contrário.

O desafio não é apenas regulatório, mas também de natureza legal sim, que deve acompanhar no contratos, circulares e sites, vendo a nova cultura sendo regrada por esses instrumentos nos termos da LGPD, mas com foco na transformação digital.

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