MOTORISTAS, CELULARES E A FALTA DE EMPATIA NA DESATENÇÃO

Em uma sociedade digital, onde a lógica da retenção de atenção impera como ferramenta da monetização, qual o limite para que o olhar das telas dos celulares
Onde o Direito deve regrar para reduzir o vício causado por designs milimetricamente estudados para reter a nossa atenção?

Quantas vezes por dia, você esbarra em alguém que perdeu seus olhos no celular, numa desatenção cada vez mais comum? Quantas vezes em restaurantes as pessoas se perdem em suas telas e esquecem da comida ou até mesmo dos amigos e familiares envolvidos em atrativas telas que parecem ter a ultima notícia do mundo a qual sua vida parece depender dela?

Qual o tratamento jurídico para imprudência de motoristas que olham para os seus celulares e transformam esse hábito na terceira maior causa de acidentes no trânsito? Apenas a multa pecuniária resolve ou motorista ao volante de seus automóveis são homicidas em potencial?

Em 2021, foram 11.647 mortes no trânsito, ou seja, a cada dia, 32 pessoas perderam a vida em acidentes. O número de acidentes, no ano passado, foi de 632.764 registros. O equivalente a 72 incidentes por hora no Brasil.

Se considerarmos que a metodologia de mortes por acidente considera apenas quem faleceu no local ou em até 48 horas, podemos crer que o número de vítimas fatais, ou não, é muito maior.
Afinal, se acidentes são na maioria das vezes causados pela desatenção, como esperar algo diferente quando utilizamos um aparelho que reduz em 50% nossa visão? Imagine as consequências do uso cada dia maior desse “ladrão de atenção”.

Usar o celular enquanto dirige aumenta em 400% o risco de acidentes, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde. Com o desenvolvimento da tecnologia e a existência contínua de aparelhos em nossas vidas, esse risco se torna cada vez maior.

Dirigir mexendo no celular é tão perigoso quanto a ingestão de álcool!

Segundo uma pesquisa da instituição inglesa RAC Foundation, o envio de mensagens pelo smartphone é capaz de retardar o período de reação do condutor em 35%. Para você ter uma ideia, esse percentual é muito acima da demora provocada pelo álcool que é de 12%.

Ao usar o celular enquanto dirige, você perderá o campo de visão de 360º que deve ter com o auxílio do espelho retrovisor, o que afetará sua concentração no trânsito. Isso ocorre porque ao usar um celular, o motorista só consegue imaginar o que está à sua frente. Veja o que ocorre conosco, com seus filhos e seus amigos ao andar, seja no carro ou dentro próprios lares, feitos zumbis magnetizados pelas telas. Olhe seus filhos andando pela casa com os olhos fixos nas telas e tente imaginar se é diferente nos outros lugares como rua, pátios de escola e em breve ao volante.

O permanente hábito criou uma relação quase que orgânica entre nós e esses dispositivos, que a cada dia, tristemente, parece ser a extensão dos nossos corpos e assim, eles invadem todos os ambientes da casa ao trabalho e caminham velozmente para se transformar em um problema de saúde pública.

Tente lembrar quantas vezes ao dia o sinal abre e o veículo da frente não se desloca, pois o motorista resolveu ver a piada recebida no seu grupo de Whatsapp? Sem dar a mínima para o tempo e a segurança de todos, naquela prova de que não está nem aí para coletividade.

Ou preste atenção naquele veículo lento na pista da esquerda, que além de posicionado no lugar errado quase sempre tem um desatento motorista lendo ou respondendo mensagens.
Veja aquele carro que ao dirigir parece ter o direito de ocupar duas pistas e olhe para ele pra ver se não é mais um motorista embriagado pelas telas do celular?

Segundo um estudo realizado pelas psicólogas Ana Cristina Santos e Adaucilene Amorin, autoras de um trabalho sobre as alterações na percepção e atenção do condutor, “Mesmo que o motorista tenha as mãos livres, o foco direcional muda”, nesse estudo as autoras ainda abordam que numa conversa usando-se o viva-voz o condutor compromete os reflexos, ficando-o mais lento para a tomada de decisões.

“Ao dirigir, o indivíduo aprende olhar de forma instintiva e contínua para os lados. Porém, com a utilização do celular, a tendência do motorista é fixar o olhar à frente do volante e isso interfere na visão periférica e limita a varredura do campo perceptivo do condutor, o que é fundamental”, completa o estudo.

É de se lembrar que o uso do celular ao volante não é um perigo somente para os motoristas. Os pedestres também são vítimas constantes de atropelamentos originados pela distração do condutor e seu smartphone por motoristas que não conseguem ver pedestres na faixa de segurança ou ciclistas andando próximos.

A desatenção vem crescendo na proporcionalidade das ofertas de aplicativos nas telas dos nossos celulares. Mensagens, vídeos, ligações, jogos é uma farra de atos e gestos feitos por inconsequentes.

As pessoas no seu entorno não podem participar de uma roleta russa da sua desatenção, para a qual elas não foram voluntárias, pois toda vida é importante e não temos esse direito de colocar a vida delas involuntariamente em risco. Já existe tecnologia disponível para reduzir significativamente o uso desses aparelhos por condutores, e o poder público precisa agir, em defesa das vidas, pois a lógica da “economia da desatenção” além de roubar o tempo pode também roubar nossas vidas, nas cidades onde a combinação de carros e celulares pode ser uma arma fatal.

(Artigo publicado no site www.mistobrasilia.com, em 12 de Maio de 2022).

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