MILÍCIAS DIGITAIS E A NOSSA INOCÊNCIA

Quem de nós já não ouviu, na boca de um amigo, parente ou professor que “as redes sociais democratizaram a informação”, ou que “deram voz as minorias”. Definitivamente são frases belas, tal qual encontramos em muitos preâmbulos de constituições de países totalitários.

No geral, como diz em verso o poeta Ruy Guerra, na letra da canção, fado Tropical:

“Se trago as mãos distantes do meu peito.

É que há distância entre intenção e gesto”

Se a intenção era dar voz, o gesto sofre hoje e amanhã a força da lógica comercial, dos robôs das milicias e da propagação ingênua dos que querem acreditar das mentiras com aparência de verdade que nossos havidos dedos replicam compartilhando em nossas redes sociais.

No ano passado, as eleições nos EUA forçaram muitas mídias a aprimorar seus sistemas de alerta à desinformação, suspender contas falsas e elevar padrões de qualidade da informação e da civilidade nas praças virtuais, um esforço desmedido que parece ser sempre superado por quem quer fazer valer seus interesses e não poupa meios e nem novas maneiras de construir suas versões de fatos públicos.

Segundo o inventário anual da Manipulação Organizada das Mídias Sociais do Oxford Internet Institute, a atividade das milícias digitais (cyber troops), e lembro que aqui nesse artigo, não nos referimos as populares milícias que dominam muitas comunidades no Rio de Janeiro, mas os chamado “atores governamentais ou partidários empenhados na manipulação da opinião pública online”, permanecem em crescimento.

O relatório conclui que a “A desinformação industrializada tornou-se mais profissionalizada, e foi produzida em larga escala por grandes governos, partidos políticos e empresas de relações públicas”.

Apenas em 2019, o inventário identificou 70 países onde as mídias sociais foram amplamente utilizadas para disseminar propaganda e desinformação sobre política. Já em 2020 foram 81.

Em 57 dos 81 países verificou-se a utilização de contas automatizadas (os chamados “bots políticos”) para amplificar certas narrativas e sufocar outras. Cada vez mais comuns são as contas com “curadoria humana” utilizadas para se engajar em conversas por meio de comentários ou de mensagens privadas. Contas como essas, verdadeiras ou falsas, foram identificadas em 79 países, sendo que a comunicação mais comum tinha como propósito os ataques à oposição ou campanhas de difamação.

O caso de Hong Kong é um bom exemplo onde através do uso de calúnias feitas aos ativistas de Hong Kong, as milícias digitais apoiadas pelo Partido Comunista Chinês, tentavam influenciar o processo.

Desde 2009, o inventário identificou mais de 65 empresas operando em 48 países por meio de contratos que somam US$ 60 milhões. Mas, segundo os próprios pesquisadores, essas cifras são defasadas.

Recentemente, um relatório do FBI nos EUA apontou que “muito provavelmente” ideias difundidas pelo movimento QAnon levariam grupos a cometer atos criminosos, mais do que uma mera reunião de família, a imagem era uma prova de que novos líderes com inclinações totalitárias são os escolhidos.

A teoria da conspiração Qanon surgiu nos EUA em 2017, quando um usuário com pseudônimo afirmou ter acesso ao nível mais alto de acesso a informações confidenciais dos EUA, todo boato e delírio surgem com essas frases de efeito:

“Veja antes que a Globo apague”

“O Supremo está querendo caçar esse vídeo!”

“O Vídeo que os comunistas não suportam! ”

E assim vai, sempre com a ideia do “veja com exclusividade antes que os “inimigos” do Estado apareçam!”

O Q começou enviando mensagens criptografadas no fórum de mensagens 4Chan, para historiadores e especialistas em extremismo de extrema direita, o Qanon é um fenômeno muito novo e ao mesmo tempo muito antigo, pois a ideia de uma elite sugadora de sangue e sem raízes que abusa e até come crianças é uma reminiscência da propaganda medieval sobre judeus bebendo o sangue de bebês cristãos, na versão do século 21 do “libelo de sangue”.

O Facebook age, constantemente contra grupos e páginas ligadas ao movimento QAnon e que violam as políticas da empresa. Não se trata de censura, mas de controle de conteúdo impróprio fora das políticas da plataforma. Por isso em recente declaração o Face comunicou que: “Esses movimentos evoluem com rapidez, o que exige do facebook um esforço contínuo.

É importante que se diga que a rede conspiratória não foi banida da plataforma, apenas as páginas com conteúdo dissonante da política do Face, com isso a derrubada afetou somente contas que “celebravam condutas violentas, mostravam armas de fogo, sugeriram usá-las, pois mantinham seguidores com padrões comportamentais violentos”.

O YouTube por sua vez declarou que desde que atualizou sua política de discurso de ódio, em junho de 2019, removeu “dezenas de milhares” de vídeos relacionados ao QAnon e encerrou “centenas” de canais com conteúdo sobre o tema por violarem diretrizes de comunidade.

A intervenção segue também na ferramenta de busca pois quando os usuários vêm ao YouTube e pesquisam tópicos sujeitos a desinformação, são fornecidos textos adicionais e conteúdo complementar para apurar a veracidade dos fatos.

O Qanon (sigla para “Q Anônimo”) foi adaptado ao Brasil e a cada dia, nessa época de extremos, ganha adeptos entre radicais nacionais. A versão brasileira da teoria da conspiração criada pela extrema direita americana tem sido cultivada em fóruns e alimenta campanhas de fake news.

Com cerca de 572 mil membros ou seguidores, somente o maior grupo de adeptos da Qanon reunia mais de 22 mil integrantes. Páginas identificadas como “oficiais” e dedicadas à publicação de conteúdos agressivos ou falsos também foram encerradas. A Qanon não é banida do Facebook, a rede aceita os conteúdos conspiratórios, desde que não incentivem comportamentos violentos. Nesses fóruns havia compartilhamento de campanhas que inventavam ameaças à vida dos que usam máscaras e se submetem à aferição de temperatura contra a disseminação da covid-19.

Tudo isso só amplia a força dos negacionistas, que tem contribuído e muito pelo prolongamento da crise, com sua desinformação. Em artigo recente para o Jama, o prestigiado Journal of the American Medical Association, os igualmente prestigiados economistas David Cutler e Larry Summers apresentaram os custos do negacionismo pandêmico nos Estados Unidos, afinal lá Trump dizia que seria uma gripezinha.

Logo, partindo de evidências apresentadas em vários artigos científicos recentes sobre a covid-19, além de cálculos do Congressional Budget Office para a queda estimada do PIB associada à pandemia na próxima década, e de estudos atuariais e demográficos, os autores concluíram que a conta pode chegar a US$ 16 trilhões até outubro de 2021.

As teorias circulam por todo mundo, pois sempre encontram pobres de espírito e ouvidos afiados para escutar e retransmitir todo e qualquer tipo de delírio.

Nos EUA, o Qanon já evoluiu de uma subcultura marginal da internet para um movimento de massa popular, mas a pandemia está alimentando as teorias da conspiração para além das costas americanas, e o Qanon está se espalhando como metástase também na Europa. Afinal, se a pandemia acelera a crise não vai parar de existir gente que precisa colocar nome e sobrenome nos causadores, não importando se é certo, justo ou real.

Para o serviço federal de inteligência doméstica alemão: “tais teorias de conspiração podem se transformar em um perigo quando a violência antissemita ou violência contra funcionários políticos é legitimada com uma ameaça do Estado Profundo”.

Ao que parece o Qanon está atraindo uma combinação ideologicamente incoerente de oponentes da vacina, teóricos marginais e cidadãos comuns que dizem que a ameaça da pandemia é exagerada e as restrições do governo injustificadas.

Existe neste momento muita cautela em recuperar a credibilidade pelo conteúdo distribuído por parte das plataformas digitais, por isso o Facebook e o Twitter impuseram restrições aos links para uma reportagem do tabloide americano New York Post, que trata de um suposto caso de corrupção do candidato democrata Joe Biden e seu filho, Hunter Biden, na Ucrânia. As plataformas digitais alegaram que havia dúvidas sobre a veracidade do material. O Twitter explicou que limitou a divulgação do texto em razão de dúvidas sobre a “origem do material” incluído na reportagem. O New York Post garante que o material foi tirado de um computador que foi deixado por Hunter Biden em uma assistência técnica no Estado de Delaware, em abril do ano passado.

Tudo isso requer muito cuidado, pois pode ser tênue a linha entre o cuidado com a veracidade do texto publicado e a censura propriamente dita.

Nesse momento o QAnon tem ganhado corpo na política dos EUA e esse crescimento no território americano acendeu um alerta. Relatório do FBI que veio a público em agosto de 2019 apontou que ideias como as do QAnon “muito provavelmente” cresceriam e levariam grupos e indivíduos extremistas a cometer atos criminosos ou violentos”. A agência classificou o movimento como potencial ameaça interna de terrorismo.

Entre as páginas que reproduzem conteúdo QAnon estão algumas que se apresentam como “Aliança com o Brasil”, “Brasil Acima de Tudo” e “Bolsonaro direitista”. Em vídeos com “explicações” sobre a teoria é comum a defesa da “hidroxibolsonaro” no combate à covid-19. As páginas costumam ser mantidas por perfis falsos ou apócrifos, segundo reportagem do Jornal estadão.

É sem dúvida um momento delicado, pois basta uma fagulha para que ela logo vire fogo, daí nasce mais um “escândalo” e a pressão midiática para provocar a onda do populismo punitivo, mesmo que não se tenha apurado a verdade.

As redes sociais estão em busca de serem porta vozes da verdade, uma tarefa difícil que mais parece o enxugamento do gelo.

Até conseguirmos, muitos delírios serão compartilhados nas redes sociais. Pesquise com cautela, e lembre-se que a verdade é como um rio de água turva, ela precisa percorrer por muitos caminhos até encontrar um fundo lajeado e aclarar seus feitos e fatos em água cristalina.

Por vezes a política consegue transformar eleitores em seguidores cegos, que mais do que na verdade estão preocupados em fortalecer o ponto de vista do seu líder, ainda que ele não seja nem messias e nem salvador.

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