METAVERSO, COMPLIANCE E IDENTIDADE DIGITAL

Nesse novo espaço a identidade digital e os meios de pagamentos são itens indispensáveis, e a partir deles serão edificadas as regras de compliance.

Nos próximos anos a participação do metaverso como espaço digital deve ser ampliada consideravelmente, e logo os cuidados pelo uso desse espaço se ampliam.

Novas tecnologias sempre são identificadas em maior ou menor grau com gerações distintas, e esse deve ser o caso do metaverso, que fora do uso do ambiente corporativo deve ter uma participação gigantesca da geração Z, também conhecidos como Zoomers, os nascidos entre meados dos anos 90 e 2010, que a julgar pelo seu uso das redes sociais tendem a interagir de forma mais anonimizada ou com pseudônimos, muito distintos das gerações anteriores, o que faz com que no espaço de avatares tenhamos repercussões e cuidados diferentes.

Se no primeiro momento empresas como Roblox, a primeira empresa a incluir um meta-universo no seu prospecto, com um jogo onde os jogadores podem construir o seu próprio conteúdo, e que já está cotado na Bolsa de Valores de Nova Iorque, o avançar de outros players como Meta(ex-Facebook) promete acelerar nos próximos cinco anos o ouso do metaverso em novas rotinas, ou seja metaverso não é um vídeo game, ou um joguinho como se pronunciam alguns apressados.

Diferente da obsessão pelo Instagram que os millennials tinham, os zoomers optam por ferramentas como o Tumblr, que estava em franca declínio nas mãos do Yahoo! e vem experimentando um renascimento sob a propriedade da Automatic, ou Discord, na qual o normal é usar pseudônimos e perfis sem um vínculo claro com o emissor, algo perfeitamente desenhado para o futuro universo dos avatares do metaverso.

O evoluir dessas novas tecnologias é também a evolução dos seus dispositivos de hardware, o que apenas contribui para parte da composição da experiência humana no meta-universo, onde o evoluir desses, acaba por redesenhar novos hábitos. Logo nessa experiência de metaverso se aliam dois elementos mais fundamentais: Um é o “sistema de identidade” e o outro é o “sistema de valores”.

Depois de uma geração focada em redes sociais, perfis com nome e sobrenome e a pretensão de se tornar um influenciador, agora encontramos uma busca por interação na rede, mas livres das pressões de marca pessoal e pesquisas. O normal é que você não pode facilmente encontrar os usuários dessa geração, a menos que eles sejam gentis o suficiente para lhe dar seu nome de usuário, que em muitos casos eles escondem até mesmo de membros de sua família, ou você sabe todos os perfis que seu filho ou filha tem nas redes sociais e jogos?

Nas gerações anteriores, estar nas redes sociais era uma prova de existência, quem não estava nas redes sociais não estava no mundo, algo bem distinto das novas gerações que devem dominar o metaverso, agora, aparentemente, o que é citado é ter um perfil praticamente “secreto”, anonimizado com um nome de usuário que só é compartilhado com o círculo mais próximo, e no qual o rosto ou detalhes pessoais que facilitam uma identificação não são mostrados normalmente. O que antes era o mais normal, o upload de fotos em atividades em grupo, tornou-se, em muitos casos, algo para o qual você tem que pedir permissão.

O Discord, ultrapassou 150 milhões de usuários, e muitos jovens participam de servidores dedicados a tópicos de interesse, mas nos quais trocam mensagens, threads e conversas geralmente com um simples nome de usuário temporário ou um pseudônimo. As fotos ou vídeos que estão na rede de quando eram mais jovens e era impossível escapar da presença neles tendem a ser considerados embaraçosos ou desconfortáveis. A vida pública e na visão de todos tornou-se avassaladora, uma pressão que restringe sua liberdade e é irritante para eles, assim como a perspectiva de que uma possível empresa disposta a contratá-los possa, em algumas pesquisas, aprender sobre toda a sua vida e milagres.

A tendência já é importante e significativa nos Estados Unidos, mas tem sido exportada para outros países há algum tempo e considerada parte dos elementos definidores da geração como tal, como foi nos primeiros dias da Internet participar de fóruns, grupos usenet ou IRCs em que os usuários também costumavam se identificar por pseudônimos. Um novo “sinal dos tempos”, reinterpretado por uma geração diferente, onde o empoderamento já não é o mesmo, afinal com tanto por disputar a sua atenção o resultado é sempre diametralmente oposto, ninguém presta mais atenção em ninguém na atual sociedade da desatenção.

Nessa nova possibilidade de existência digital, é fundamental trazermos a etimologia, desse novo espaço. “Metaverse” é traduzido da palavra inglesa “Metaverse”, onde a palavra “Meta” não significa apenas “origem”, mas também “além” e “superior”. Se procurar a palavra “meta-universo” na Internet, certamente encontrará frases ou palavras tais como – O conceito teve origem no romance de ficção científica Snow Crash dos anos 90. É a próxima geração da Internet, um espaço-tempo virtual, uma Internet totalmente real. Todas estas descrições estão corretas, mas o problema é que estas palavras estão cheias de tecnologia e ficção científica, soam metafísicas e requerem camada após camada de explicação, e após a explicação pode ainda não saber o que é realmente o meta-universo, como bem destaca Daniel Patterson no livro “Incrível Metaverso: O Futuro da Internet….”

O metaverso pode também ser entendido como o possível mundo digital no qual as pessoas participam e vivem nas suas identidades digitais, e logo ganha importância as regras de compliance para especificação dessa “identidade digital”.

Veja nossa identidade digital é o tempo todo construída através de nossas pegadas digitais na internet, logo a segurança ganha importância ímpar no metaverso, pois nossos avatares estarão prestando serviço, consumindo produtos e serviços e identificados por uma identidade digital, necessária para configuração seguinte do meio de pagamento, sim pois o meio de pagamento no metaverso é também digital.

Logo sendo o metaverso um mundo digital, não é o mundo real, não é o mundo físico, mas um mundo digital, um espaço-tempo virtual, no qual as pessoas estarão participando numa capacidade digital, alargada e definida pela identidade digital e pelo meio de pagamento digital.

Então qual a distinção dele para o universo da internet que já vivemos?

Não é a Internet o mundo digital no qual participamos em capacidade digital? Vejamos duas palavras-chave, a primeira das quais é” identidade digital “. Quando participamos da internet já não nos identificamos digitalmente?

Vejamos atualmente nas redes sociais de facto, não, tem um apelido na plataforma social, precisamos se registar na plataforma de compras, estas são apenas contas digitais, ainda não chamadas de identidade digital completamente independente. Qual é a diferença entre as duas? Uma conta digital é uma conta que tem numa plataforma ou aplicação da Internet, onde os dados comportamentais que gera serão registados, e a sua informação de identidade é dispersa nestas diferentes contas. Por exemplo, o seu WeChat armazena informação social; a sua amazon armazena a sua informação de compras; o seu Ifood armazena a sua informação gastronômica, e assim por diante. Todas estas informações e dados fazem parte da sua identidade digital, mas de forma alguma o quadro completo, e nem sequer a parte mais crítica. Porque, estas contas digitais não têm o poder, nem a responsabilidade e obrigação, não são uma identidade independente, continuam a depender de si, que tem essa identidade real offline, como bem lembra Daniel Paterson em obra já citada.

Logo de forma ampla, por oposição ao estreito metaverso, a que chamo o metaverso amplo, não é um mapeamento do mundo físico, mas um espaço-tempo virtual construído puramente no mundo digital. A diferença entre estas duas direcções possíveis é que, em termos de quantidade, o metaverso estreito acaba por ser” um metaverso “, que está entrelaçado com o mundo real, onde “me tens e eu te tenho a ti, e quem tu és no mundo real continua a ser quem tu és no metaverso.” Teoricamente, pode haver inúmeros metaverseis, mas alguns deles estão mais desenvolvidos e têm mais pessoas envolvidas, enquanto outros têm menos pessoas envolvidas, mesmo que esteja sozinho, de acordo com as suas próprias preferências e necessidades.

A individualização digital como criação ficcional desse universo será sempre a maior distinção da nossa identidade digital.

Logo nossa identidade digital terá sim personalidade atrelada ao controle de um token, e por isso o meio de pagamento e o uso de blockchain ganham importância.

Assim a segunda diferença é o papel que o mundo real desempenha no metaverso. Na metaverso estreito, o mundo real é obviamente necessário, mesmo primário, e o mundo virtual é apenas um mapeamento adequado do mesmo. Mas no amplo meta-universo, o mundo real não é necessário, e até já vi algumas visões muito radicais de que, após a realização do amplo meta-universo, o corpo físico no mundo físico não precisa de existir, e vive no meta-universo como um código, e o sentido de honra, realização e felicidade do indivíduo provém inteiramente do meta-universo, um bom exemplo disso é construído na série Upload, que passa na Amazon, agora em segunda temporada.

Assim como no filme “De volta para o futuro”, “Upload” tenta com a presença da realidade virtual, realidade aumentada e inteligência artificial projetar um futuro além da morte. Como seria nossa vida além da morte se pudéssemos escolher guardar nossas memórias de forma digital e termos nosso Avatar com base em nossas memórias, mantendo assim, pela inteligência artificial contato com as pessoas que amamos?

Na série, que se passa em 2033, quando as pessoas morrem, a consciência delas pode ser transferida para um ambiente de realidade virtual (ganham identidade digital). Assim, elas vivem a eternidade em um espaço fantasioso e ainda podem ter contato com os vivos através da tecnologia.

A atração mostra a história de Nathan, um rapaz que após morrer em um acidente de “carro autônomo” teve sua consciência resgatada a pedido da namorada. Logo suas memórias são “carregadas” no luxuoso mundo de realidade virtual chamado Lakeview, onde os “moradores” podem fazer tudo o que quiserem, até ter um cachorro falante. Uma vez que suas memórias ganharam vida pela inteligência artificial, tudo pode ser projetado por realidade virtual e dessa maneira estabelecer uma conexão em um mundo digital, asséptico e “quase ideal”.

A série trabalha em uma realidade cada dia mais próxima construída através de passos recentes, que parecem prever o tempo da definição do metaverso como um lugar para o desenvolvimento de grande parte de nossa atividade.

Não são poucos os usos da realidade aumentada, inteligência artificial e realidade virtual, que vem sendo explorados desde videogames até aplicações industriais, mas sempre com o viés de nicho, sem atingir a maioria do público, em uso nada popular ainda.

Ainda sobre a série, já no primeiro episódio, próximo de falecer, com o avançar da fragilização de seus sinais vitais Nathan, o ator da série se vê pressionado pela equipe médica e pela namorada a tomar uma decisão em pleno corredor do hospital, escolhendo por um lado dessa encruzilhada: Ou ia para uma cirurgia e tentava salvar sua vida biológica, com o risco de morrer sem resgatar suas memórias, ou optava por transferir sua memória para um ambiente digital e viver nesse mundo digital.

ALERTA DE SPOILER

Para prosseguimento da série (me perdoem pelo spoiler) ele optou por viver o mundo digital, e interagir com os seus através da realidade virtual.

É o fim dos beijos e dos abraços nessa vida física, onde ao invés de sonhos ao dormir, escolhemos sonhar no mundo virtual, e ainda que eu não goste dessa visão a cada dia mais próxima, ela é inevitável pelo avanço das tecnologias, então como um dinossauro, vou aqui continuar preferindo os beijos, abraços o tato e suspiros analógicos no lugar das assépticas fantasias digitais.

Finalizando, para o metaverso, a identidade é completamente virtual, e esta identidade digital virtual não é uma embalagem do mundo real, não que o mundo real tenha uma certa necessidade, como compras, socialização, etc., de construir uma identidade especificamente para este fim, mas uma escolha livre feita inteiramente a partir do metaverso como um sistema. Assim avançando sobre o tema é preciso um sistema de valores, dentro das regras de compliance, pois de facto, é o sistema económico e as regras de funcionamento de um meta-universo. O que nele se faz é o que cria valor, o que se faz é o que se pode negociar com outros, quais são os seus bens que serão protegidos, quais são os bens que se podem consumir, etc.

(Artigo publicado no site www.jusbrasil.com.br, em 23 de Junho de 2022).

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