LIVRO DIGITAL, VOCÊ AINDA VAI LER UM!

Quando surgiram os primeiros livros digitais, muitos decretaram de imediato o fim do livro impresso, era o fim do anotar, e folhear as páginas de papel, o fim das dedicatórias nos livros que presenteamos e o fim daquele cheiro de livro novo.

Pois bem, quase 10 anos depois o livro de papel resiste e continua sendo líder em todo mundo, é óbvio que essa resistência não se trata de nostalgia e simples apego, afinal, essa resposta seria reduzir as enormes variantes desse mercado.

Durante muitos anos eu mesmo resisti aos livros digitais, porém com o preço dos livros importados, acabei me rendendo, primeiro foi a substituição do jornal de papel pela assinatura eletrônica do jornal, no meu caso, em que pese o prazer que mantenho em ler o jornal, as revistas e os livros impressos, me rendi a praticidade do digital e a atualidade dos periódicos, estava cansado das entregas atrasadas dos jornais e revistas impressos da possibilidade de destacar e mar um texto no livro digital e transcrever a citação do mesmo para algum texto, sem a necessidade de ter de digitar todo o texto transcrito. Ou seja, as plataformas digitais de leitura me venceram pela praticidade, pela comodidade e pela atualidade, mas penso que elas podem evoluir muito, desde que as editoras entendam que ao transformar o livro do impresso para uma plataforma digital, um mundo de oportunidades se abre.

É inegável o atraso das editoras em ver que ao ir para plataforma digital não se reinventa apenas o livro, mas toda a cadeia de distribuição, logística e de oportunidades que podem ser exploradas por autores, editores e distribuidores. Quantos livros digitais dão acesso a uma palestra nova do seu autor preferido? Quantas entrevistas do seu autor preferido são comunicadas à você? Isso para ficarmos apenas em dois exemplos, nesse mundo sem fim que ao ser ajustado ampliaria a experiência do leitor na interação com o autor e seu mundo.

Nessa semana o Estadão, em ótima matéria, trouxe novas luzes sobre esse mercado, com números atuais que nos permite avançar sobre essas oportunidades ditas acima.

Primeiro ponto que chama atenção na matéria foi o crescimento da participação do livro virtual, onde sua participação dobrou nos últimos dois anos, certamente acelerada pela pandemia. Afinal, se o mundo digital parecia mais promissor no final dos anos 2012, quando os grandes players começaram a desembarcar no Brasil para vender e-book, quase 10 anos após a venda de conteúdos digitais representa 4%, na média, do faturamento das editoras brasileiras, algo muito acanhado se compararmos com os Estados Unidos, onde os e-books representam cerca de 25% do mercado de livros, índice muito parecido ao da Inglaterra. Na Europa a participação deles é de cerca de 10% do total de livros comercializados.

Esses números foram apresentados no último dia 25, pela Câmara Brasileira do Livro e pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros, na pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro. Ela foi feita pela Nielsen Book com base em metodologia internacional e informações de 2019 fornecidas pelas editoras e a empresa. A comparação foi feita com o primeiro levantamento do setor, o Censo Digital de 2016. Esta nova pesquisa passa a ser anual.

Segundo a pesquisa, em 2019 as editoras faturaram R$ 103 milhões com a venda de e-book, audiolivro e outros tipos de materiais digitais, um aumento de 140% em três anos, descontada a inflação, o crescimento fica em 115%. Desse valor, R$ 71 milhões dizem respeito à venda à la carte e o restante corresponde a outros modelos de negócios como bibliotecas virtuais (R$ 28 milhões), cursos online (2,5 milhões) e conteúdo fracionado (R$ 15 mil). Os serviços de assinatura renderam às editoras R$ 792 mil – 60% para ebooks e 40% para audiolivros.

No total foram vendidos 4,7 milhões de unidades digitais, o que indica que continuamos lendo muito pouco independentemente da plataforma escolhida, quando consideramos a população de 210 milhões de habitantes. De qualquer forma representa um crescimento de 67% em relação à pesquisa anterior, e o livro digital lidera as vendas, com 96% do volume. Se analisado o faturamento, o e-book fica com 98%. Segundo o levantamento, que dividiu o mercado em ficção, não ficção e CTP (Científico, Técnico e Profissional) e excluiu os didáticos, cujas vendas neste formato são praticamente nulas, há 71 mil títulos digitais disponíveis no País, 37% a mais do que tinha em 2016. Desses títulos, 96% correspondem a livros na versão digital e 4% são audiolivros.

Em termos de acervo de ebooks, há 28 mil títulos de CTP, 22 mil de não ficção e 18 mil de ficção. Somados, ficção e não ficção respondem por 60% das vendas totais. Quando analisado apenas o setor de audiolivros, a categoria de não ficção ganha ainda mais importância: ela representa 70% das unidades vendidas e, no caso de serviços de assinatura, ela responde por 86% do faturamento.
Em 2019, foram lançados 8,9 mil novos títulos 92% deles em e-books e 8% audiolivros, que começaram a ganhar uma importância, ainda que pequena, aqui só no ano passado. Nos EUA, eles já representam 30%.

É evidente que os números brasileiros ainda não são expressivos, porém a boa notícia é que estamos crescendo.

A realidade aumentada, a realidade virtual podem sim ampliar a venda das obras digitais, e a editoras, seja de periódicos ou de livros precisam entender que o livro digital é uma plataforma para novas interações e que pode sim representar novas receitas para salvar esse importante e estratégico negócio para o desenvolvimento brasileiro.

“Um país se faz com homens e livros” disse Monteiro Lobato, e atualizando a sua fala “Um país se faz com homens e livros, impressos ou digitais, não importa!

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