LAVOURA ARCAICA, O TEMPO, A INFELICIDADE E UM DETOX DIGITAL

Na praia, ele observava o caminhar dela, se próximo os traços eram paixão, conforme ela se distanciava as imagens saiam dos olhos e mergulhavam nos doces momentos e nas inefáveis lembranças da pele, onde não é preciso avatares das redes sociais, mas a humana e eficiente lembrança de tudo que se vive e compartilha no íntimo. Ao longe as imagens saem e dão lugar a memória afetiva armazenada na pele e não na fria e distante nuvem digital onde o seu limite de armazenagem estará monetariamente ligado ao que foi contratado. Pelo contrário, a memória afetiva não encontra limites, nem sensações ela apenas viaja pelo tempo de tudo que já se viveu e que ainda tem muito espaço e criatividade pra projetar tudo o que se pode viver, sem a necessidade da gélida inteligência artificial.

O nosso evoluir precisa muito disso, de trocarmos a visualização das telas de celulares por nossos olhares apaixonados, por filhos, amigos, pais e pela pessoa amada, presente ou distante, hoje ou amanhã. Seja no revigorar dos nossos sentimentos ou na ressignificação da saudade, a desintoxicação digital deve ganhar espaço na valoração do tempo.

O tempo esse ativo intangível, um presente de nossa existência terrena, que precisa ser ressignificado. O tempo é igualmente dividido de forma cartesiana para você ou para o seu vizinho, o valor dele sempre será na escolha das suas atenções, ou das suas desatenções.

Por isso nasce a importância do controle do tempo que dedicamos as redes sociais e outros usos que fazemos de celulares, tablets e outros dispositivos, que são consumidores vorazes das nossas preciosas horas, minutos e segundos, de onde trocamos o olhar de amados, de paisagens e memórias afetivas para saber o que o distante amigo digital resolveu almoçar no dia de domingo, em qual praia foi ou qual vinho escolheu para beber. A vida é o caminhar das escolhas e da valoração dessa comoditie chamada tempo.

Cada vez mais deixamos em nossas redes sociais avisos aos “amigos” estou saindo por um tempo fazendo um “detox” Alguns são mais radicais e saem delas sem nenhuma interação terceirizando as publicações, e logo vai aqui o meu muito obrigado a minha assistente Vanessa que faz a gestão das minhas publicações, enquanto mergulho nos livros, escritos e claro o cuidado com os que amo.

Tente fazer esse teste, e vá nas configurações do seu celular e veja lá “tempo de uso” pra ter a medida de quanto tempo da sua atenção o seu celular consome.

Cada vez mais, tirar um descanso das redes sociais e das telas e mudar a forma de se relacionar com a tecnologia é uma atitude que pode contribuir para a saúde física e mental, já que a pandemia forçou muitas pessoas a passarem prolongadas horas na frente da TV, computador ou celular, seja por trabalho ou lazer.

Segundo uma pesquisa realizada em janeiro de 2021 pela agência We are Social e pela plataforma Hootsuite, no ranking de tempo de uso da internet em dispositivos diversos, o Brasil está em segundo lugar,. Com 10h08 de uso diário, em média, só perdemos para as Filipinas neste levantamento feito com pessoas de 16 a 54 anos, sendo que a média global são 6h54 diárias. Já na pesquisa da Kantar Ibope Media, divulgada em março, 69% das pessoas que acessaram a internet por dispositivos móveis afirmaram não viver sem ela no celular.

O tempo dispendido, em muitos casos gera dependência e dependentes patológicos manifestam sintomas de ansiedade, angústia e nervosismo, como suor e tremores, quando percebem que estão impossibilitados de usar a tecnologia e necessitam de tratamento com medicamentos e terapias.

A educação digital, como instrumento de saúde pública deveria ser estendido para controle dos aparelhos e limitações de tempos de uso para muitos aplicativos, como jogos por exemplo, pois crianças hoje consomem horas do seu dia em jogos sem qualquer controle.

Segundo uma reportagem recente, do Jornal Estadão, a psicóloga Mariana Baroni, ao notar a angústia de muitas pacientes que relatavam estarem exaustas com seus trabalhos de produção de conteúdo no mundo digital, criou um programa de Detox Digital de 21 dias, com exercícios e desafios para ajudar o cérebro a desacelerar e reconhecer gatilhos para a ansiedade e insegurança. Baroni percebeu que muitos pacientes sofriam de Fomo, Fear of Missing Out, termo em inglês usado para designar o medo de perder algo enquanto não está conectado. “Por receio de perder uma informação importante, as pessoas não têm se permitido descansar. Além disso, as redes sociais são arquitetadas para passarmos mais tempo conectados, liberam dopamina e outros hormônios do prazer. Por isso é tão difícil se desconectar. Mas o impacto emocional de tudo isso é enorme.

A ditadura da exposição das redes lembra os inúmeros modismos que em maior ou menor grau as pessoas passaram em sua adolescência, que vai da linguagem comunicacional, quando repetem bordões de novelas e agora de séries até o jeito do cabelo ou de se vestir .A história da humanidade é repleta desses exemplos que onde afinal o homem procura ao longo da vida estabelecer relações sociais com os inúmeros grupos, seja na escola, no trabalho, no clube ou na sua rua, ele é sempre movido pelo sentimento de pertencimento.

As redes sociais estabelecem uma relação de consumo, onde os aplicativos nos fornecem ferramental para divulgarmos nosso conteúdo e interagirmos e recebermos conteúdo de outros, em troca recebem nossos dados e o nosso tempo. É o nosso tempo, que é a moeda nessa troca, junto com nossos dados e ao mesmo tempo nosso vício, que nos transforma em escravos nessa relação que em muitos casos beira a enfermidade.

Logo quanto mais tempo nesse universo digital, mais distante nos colocamos no plano físico, a assepsia das relações digitais ergue um muro no mundo real com relações cada vez mais distantes e mais vazias, onde curtidas são confundidas com aceitação e comentários com concordância, alimentando sua bolha.

No geral por promoverem uma comparação de corpos e modo de vida, as redes sociais podem contribuir inclusive para o desenvolvimento de transtornos alimentares e de imagem corporal.

Muitos especialistas já detectaram, um aumento de casos de transtornos alimentares na pandemia, e acreditam estar relacionado ao uso mais intenso das redes sociais, e logo a sua perda dos referenciais da vida presencial.

A vida com o uso cada vez maiores dos nossos aparelhos e seus aplicativos passa a cada um de nós a necessidade de sermos multitarefas, e ai que reside um grande perigo no uso do seu tempo na tentativa de se multiplicar, dedicando cada vez menos atenção, naquilo que eu chamo de “Sociedade da Desatenção”.

Quase sempre somos aquele que aproveita o minuto e meio em que aquece o café para fazer a cama, seca o cabelo e ao mesmo tempo responde WhatsApp, participa de uma reunião enquanto reserva uma mesa para jantar na sexta-feira, fique certo caminhamos assim rumo a infelicidade.

Como adverte Thatcher Wine, autor de The 12 Monotask Method (Dome Books), em artigo publicado pelo Jornal Expansíon, “sei que você vai ser mais infeliz e muito menos eficiente. “Quando fazemos multitarefas ao mesmo tempo, nossa produtividade diminui e a qualidade do resultado também cai; além disso, cometemos mais erros e levamos mais tempo para terminar esses erros. Nós nos enganamos a acreditar que, por estarmos fazendo mais de uma coisa de cada vez, passaremos menos minutos, mas é exatamente o oposto”, adverte.

Segundo o autor “a multitarefa é perigosa ou prejudicial (e não se refere à imprudência de se maquiar enquanto dirige). “Pode parecer que não é grande coisa responder a um e-mail de trabalho durante o jantar, mas você está realmente perdendo a conexão com seu parceiro ou família, porque eles não se sentem valorizados ou ouvidos se você estiver distraído. Além disso, você não está prestando atenção à comida ou ao seu corpo e isso pode ter consequências para nossa saúde”, explica o escritor, que, com base nas últimas pesquisas em psicologia, neurociência e atenção plena, detalha na publicação como uma dúzia de atividades diárias (ler, caminhar, dormir, comer, brincar, ouvir…) ajudam a exercitar o “músculo monotareque” para reconstruir e expandir a atenção.

Para o Wine, multitarefa não é uma questão de aproveitar as horas do dia. “Foi demonstrado que projetos que exigem que nosso cérebro realize atividades cognitivas realmente levam mais tempo quando tentamos fazer vários simultaneamente. Nosso cérebro só é capaz de trabalhar uma coisa, portanto não podemos nos considerar multitarefa em tudo. Na verdade, o que estamos fazendo é o que chamamos de troca de tarefas, porque passamos de um para o outro e voltamos para o anterior. Essa mudança de ocupação requer de 15 a 20 minutos de recuperação para focar no próximo e se não fornecermos esse tempo ao nosso cérebro, fica que o trabalho executado não é adequado. Além do fato de nos sentirmos mais ansiosos”, alerta o autor, que afirma que muitas vezes o estresse sofrido se deve a ter mil tarefas na mesa abertas em vez de fechá-las uma a uma.

Sem WhatsApp ou redes sociais. Para evitar tentações, é melhor desativar notificações móveis e manter o dispositivo fora de alcance: é uma grande tentação que incentiva você a olhar para cima do que é importante. Que se você confirmar um encontro com amigos, responda a um grupo ou assista à última foto do Instagram (mesmo que você não conheça o protagonista da imagem…).

Nesse momento, nossos telefones nos enganam a acreditar que tudo é urgente, que nunca temos que ficar entediados e que somos bons em multitarefa. Eles nos dão afirmação positiva suficiente para que não possamos sair na rua sem eles, por isso em frente ao belo mar acabamos vendo pessoas contemplando a ‘natureza da sua tela de celular”.

Distância desses dispositivos é uma boa maneira de ressignificar seu tempo, pois se você o tem por perto, você dorme mais tarde porque você se distrai olhando para ele e a luz azul que ele emite torna difícil dormir. Além disso, se você olhar para ele no meio da noite, você pode acabar sendo perturbado pelas coisas que você vê.

Para não ir para a cama com inúmeras preocupações na cabeça – lembre-se que você é mais feliz se você só faz uma atividade de cada vez e neste caso é dormir, capítulo individual no método dos 12 monotarefas, o autor recomenda concentrar-se na tarefa meia hora antes de chegar à cama. “Você pode fazer uma lista das coisas que você precisa fazer no dia seguinte ou as questões que você está preocupado. Então concentre-se em deixar seu quarto confortável. Sono de boa qualidade não é sobre dormir quando você está muito cansado para manter os olhos abertos, é sobre fazer um plano ao longo do dia para obter o que você precisa descansar. Se você conseguir dormir melhor, você será capaz de resolver mais desses problemas no dia seguinte e fazer mais.” Quando se trata de se levantar, em vez de pegar o smartphone, ele se propõe a pegar um livro e, com paciência e desejo, dedicar 10 minutos de atenção a ele.

Em tudo, que tocamos ou fazemos existe uma escolha, de valor ao seu tempo, adoro esse trecho de lavoura arcaica, do brasileiro Raduan Nassar, um autor fantástico como os parágrafos abaixo: “O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é, contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo, entretanto, prover a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é…”

Seja feliz, nas escolhas do que tocar, o que falar e como dedicar seu tempo, afinal invariavelmente o design inteligente das telas não quer sua felicidade, mas apenas seu tempo.

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