INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A ILUSÃO DA PERFEIÇÃO

Presente no teto da capela Sistina desde 1512, a obra de Michelangelo, impressiona até o mais cético dos humanos, “A criação de Adão” foi feita por volta de 1511. A obra integra o conjunto de pinturas feitas entre 1508 e 1512 por encomenda do papa Júlio II.

A criação de Adão é a representação da passagem bíblica em que o criador do mundo, Deus, dá origem à humanidade, simbolizada na figura do primeiro homem, Adão.

É impressionante a harmonia que a composição transmite quando cria dois planos que o expectador percorre visualmente a partir do chão.

Segundo a bíblia, Adão, foi criado à semelhança de Deus, e é essa a percepção na medida que constatamos na pintura tal paridade e simetria.

Na pintura, Deus, do lado direito, está representado como um homem mais velho, de barbas e cabelos brancos, símbolos de sabedoria, mas envergando uma forma física jovem e vigorosa. Envolto em um manto, onde carrega os seus anjos. Com o braço esquerdo, abraça uma figura feminina, normalmente interpretada como sendo Eva, a primeira mulher, que ainda não foi criada e espera nos céus, junto do Pai.

Adão, do lado esquerdo, é um homem jovem e está sentado num prado, com o corpo dobrado, numa posição lânguida, como se tivesse acabado de acordar. Ainda sem forças, estende a mão em direção à imponente figura de Deus, esperando que Ele se aproxime para lhe transmitir a vida.

Claro que curiosamente os dedos indicadores, no centro da pintura, não se tocam, ficando um pequeno espaço entre eles. Já o braço de Adão está dobrado e o seu dedo caído, o que deve ser interpretado, como sinal de fraqueza do homem, por oposição à postura de Deus, com o braço estendido e o dedo esticado, sublinhando o gesto do seu poder criador.

Concluída em 1512, o que hoje é considerada uma das obras mais famosas da história da arte, quando mostrada aos cardeais administradores, levou os mesmos a permaneceram por horas assistindo e admirando. Narram historiadores que após análise, eles conheceram o mestre das artes, Michelangelo, e sem qualquer constrangimento, criticaram um detalhe em particular.

Na primeira versão, Michelangelo projetou o painel de Adão com os dedos de Deus e Adão se tocando. Os administradores exigiram que não houvesse contato, mas que os dedos fiquem mais distantes um do outro: que o dedo de Deus seja sempre estendido ao máximo, mas que o dedo de Adão esteja com as últimas falanges contraídas.

Ainda que possa parecer um detalhe simples, o propósito era mostrar que Deus está lá, mas a decisão de buscá-lo pertence ao homem. Se ele quiser estender o dedo, ele vai tocar nele, mas se ele não quiser, ele pode passar uma vida inteira sem procurar. A última falange contraída do dedo de Adão representa então o livre-arbítrio.

O livre arbítrio pertence ao homem em toda sua história, seja na bíblia ou na evolução humana.

O mesmo se dá no uso das novas tecnologias, que muitos parecem receber como um ato divino, aquilo que é criação humana.

Muito de lirismo, paixão e ingenuidade faz com que o homem receba as evoluções tecnológicas sem questionar, seu uso, e principalmente o propósito delas quando as mesmas são desvirtuadas.

Lembro que muito tem sido dito ultimamente sobre inteligência artificial, machine learning, big data e outras tecnologias similares, sem que consigamos, em muitos casos, distinguir um do outro, o que é decorrência do entrelaçamento dessas tecnologias.

De forma resumida trata-se de software de alimentação com grandes quantidades de dados que permitem ao programa identificar padrões, classificar comportamentos, seja de pessoas, clima ou tráfego, bem como as respostas que geralmente são dadas à circunstância que em cada caso é analisada.

Há muitas vozes que alertam, tanto dos benefícios quanto dos riscos dessas tecnologias. Nesse sentido, ninguém escapa de que aplicar qualquer um deles à medicina para que doenças ou tratamentos eficazes possam ser diagnosticados com maior sucesso, seja positivo e supõe um benefício para toda a sociedade.

Por outro lado, se usarmos dados para classificar as pessoas e decidir quem é capaz de cometer um crime e quem não é; quais são os perfis que melhor se adequam a um determinado trabalho ou a quantidade de dinheiro que pode ser emprestado a uma determinada pessoa; com base em resultados ou padrões identificados por um software, não é mais tão fácil de decidir, nossa percepção da tecnologia muda e não parece mais tão vantajosa.

Os benefícios potenciais têm sua contrapartida, pois para fazer avaliações ou prever comportamentos é necessário que programas e aplicativos sejam alimentados com enormes quantidades de dados que permitam estabelecer um relacionamento ou prever uma determinada situação ou comportamento, lembrando que em todos eles sempre teremos presente o conteúdo ideológico do programador, e a claro a repetição de um padrão dominante influenciado pelo controle de mídia.

É aqui, onde nos perguntamos sobre os riscos e possíveis efeitos nocivos das tecnologias que nos permitem definir qual é o melhor caminho para levar nossos filhos à escola e podemos prever nosso comportamento diante de certos estímulos, concluindo quais empregos são adequados para nós, quais são nossos gostos e até mesmo quais são nossas opiniões políticas.

Além das implicações do ponto de vista da privacidade e da proteção de dados, por isso, em voga nos últimos tempos, também vale a pena notar, de uma perspectiva mais filosófica, até que ponto vale a pena sacrificar nosso direito à privacidade ou ao livre desenvolvimento de nossa personalidade em prol do progresso e da evolução tecnológica.

É a grande questão que devemos enfrentar antes de estabelecer limites, condições e princípios para algo que não entendemos completamente, nem estamos cientes de suas consequências, como quanta informação revelamos ao usar nossos smartphones, assistentes virtuais, smart tv ou qualquer outro dispositivo digital.

Citando Isaac Asimov “Inteligência é um acidente de evolução, e não necessariamente uma vantagem.” Assim, embora, sem dúvida, a tecnologia nos ajude no nosso dia a dia, simplificando nossas formas de comunicação ou agilizando a compra de alimentos, passagens ou planejamento de lazer e nossas férias, vale a pena perguntar até que ponto queremos ou nos compensar para viver em um mundo personalizado. Bem, embora seja conveniente e eficiente, receber informações ou acessar apenas ofertas sobre nossos interesses ou preferências, limitaria nosso conhecimento a longo prazo. No extremo, essa prática poderia significar que só acessaríamos livros, notícias, conhecimentos e teorias relacionadas à nossa sensibilidade ou gostos de um determinado momento sem ter a oportunidade de conhecer literatura, profissões ou planos alternativos de lazer às nossas preferências iniciais.

Existem inúmeras propostas para que a IA se desenvolva de forma ética ou segura, sempre destinada a evitar ataques ou hacks, que permitem o vazamento de senhas, roubo de identidade ou acesso não autorizado a informações e outros crimes cibernéticos, além de definir quem seria responsável quando esses incidentes acontecem.

A ética em IA deve contemplar mais aspectos do que o meramente legal, sendo este um elemento necessário que estabelece as bases sobre as quais as tecnologias são desenvolvidas. Mas, também é necessário uma ética ou princípios na concepção de aplicações, programas e tecnologias que permitam analisar padrões e que permita se destacar deles, ou seja, poder realmente optar por não ser categorizado, padronizado ou perfilado por eles, sem que isso impeça o acesso a tecnologias.

A IA não pode limitar nossa capacidade de conhecimento em todos os níveis ao projetar um mundo supostamente adaptado para nós, porque no final poderia limitar nossa capacidade de inovação que, na maioria dos casos, se baseia em conhecer diferentes culturas, dietas, linhas de pensamento que é porque gostamos ou não gostamos de nós, eles nos fazem reagir, refletir e às vezes descobrir que existem outras formas de viver e pensar. Caso contrário, poderíamos cair no mundo descrito por George Orwell em 1984, no qual “A mais característica da vida moderna não era sua crueldade ou sua insegurança, mas simplesmente seu vazio, sua absoluta falta de conteúdo”.

Ainda que nossos valores religiosos nos levem a crer na semelhança com Deus, somo falíveis, imperfeitos, e aos que tem consciência da sua imperfeição a vida é uma caminhada de ajustes e correções, longe de sermos perfeitos, o que não nos retira o fato de sermos sempre interessantes e de fazermos da nossa vida algo sempre melhor, mesmo em quando a caminhada parece não ter fim.

Não somos deuses certamente, e bem de perto como dizia Caetano “ninguém é normal”.

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