IFOOD E O ASTROTURFING NA GUERRA

Qual o limite que uma empresa tem para desestimular a greve de seus parceiros ou colaboradores? A economia digital, e as diversas plataformas digitais trazem novas figuras, ainda que algumas delas sejam versões atualizadas por novos canais digitais de comunicação.

Empresas e empregadores tem todo o direito de discordar dos motivos de greves e paralizações, porém a transparência no posicionamento são fundamentais na defesa do valor reputacional da empresa.

Nessa semana uma reportagem do Jornal Estadão, destacou a estratégia utilizada pelo Ifood para o esvaziamento das possíveis paralizações dos seus parceiros (entregadores), com inúmeras estratégias, destacando-se o astroturfing.

De fato esse novo processo comunicacional criou novas figuras até então desconhecidas, como a memética, a disciplina científica devotada ao estudo teórico dos memes que busca entender como a cultura, o conhecimento, as crenças e os comportamentos se disseminam até se transformar em um estilo de vida de ampla aceitação, sobre ela o autor se debruça na construção dessa nova linguagem.

Bots, astroturfings, por todo esse arenoso e desafiante terreno o autor passa, analisando pormenorizadamente as tendências por ele construídas, na tentativa de construir uma nova linguagem que manipule e influencie no processo de consumo de novas mensagens, seja para adquirirmos um produto ou um novo político.

Nascem assim fake memes onde o chamado astroturfing constrói a tentativa de criar uma impressão de amplo apoio popular a uma política, indivíduo ou produto com pouco apoio na vida real. Através do astroturfing são criados perfis e grupos de pressão falsos para induzir o público a acreditar que o pensamento desejado é a visão comum e assim eleições são modificadas.

São tantas as ferramentas e com tanto conteúdo disponível nunca estivemos tão desinformados, onde a velha mídia entrou em crise e a nova não consegue ter controle do que é ou não verdade.

Na sociedade da desatenção, a desinformação está se tornando uma indústria que praticamente qualquer um pode contratar, com supostas agências aplicando técnicas previamente testadas em marketing.

No marketing (embora eu esteja relutante em chamar esse tipo de técnica), esses tipos de métodos são eufemisticamente chamados de “gestão de influenciadores”, e embora anos atrás fosse simplesmente sobre fornecer informações, produtos e outros tipos de benefícios etc. ao suposto influenciador para tentar gerar nele ou nela uma atitude positiva em relação ao produto ou serviço da empresa, Há muito tempo o esquema era e tornou-se simplesmente um quanto por um artigo que diz isso, ou mesmo um quanto para publicar um artigo que eu te envio já escrito.

Mudar daqui para um uso mais sofisticado de tais técnicas e vender campanhas de desinformação para o maior contratante era simplesmente uma questão de tempo e tecnologia. A mesma tecnologia que começou a ser usada na política, primeiro para alcançar segmentos de eleitores com a mensagem difícil de alcançar através de outras técnicas, depois introduzir técnicas de manipulação alimentadas por notícias e até mesmo por exércitos de perfis falsos simulando apoio maciço (astroturfing), e que temos visto testado primeiro e depois colocado em prática por certos governos, agora eles são simplesmente colocados a serviço de quem quer pagar por eles, com as razões e a agenda que eles consideram apropriada, como no caso do Ifood.

A tecnologia sempre teve uma característica: diminui rapidamente as barreiras à entrada em seu uso. As mesmas técnicas de gestão de micro influenciadores utilizadas há anos são agora aplicadas à disseminação de campanhas de desinformação.

O Ifood tentou barrar a organização dos entregadores de apps por meio de táticas de propaganda típicas de campanhas políticas, como criação de páginas e perfis falsos para difamar adversários. As informações foram publicadas pela Agência Pública, que diz ter consultado documentos confidenciais e entrevistado pessoas das agências de publicidade envolvidas com o material.

Segundo a reportagem, as páginas atuaram com uma técnica batizada de “Lado B”, pela qual perfis falsos administrados por profissionais alimentam as redes com conteúdo a respeito de um tema, geralmente utilizando a mesma linguagem do público-alvo. No episódio do ifood, as agências tentavam desmobilizar a greve de 2020 dos trabalhadores de aplicativos.

Segundo denúncia, o Ifood, tentou esvaziar movimento de entregadores com táticas políticas institucionais são realizadas apenas por seus canais oficiais, e que não compactua com geração de informações falsas, automação de publicações por uso de robôs ou compra de seguidores”, diz a nota da empresa. •

Documentos, fotos e relatos obtidos pela Agência Pública indicam que o homem seria um funcionário de uma agência de inteligência e monitoramento digital que prestava serviços em uma campanha contratada pelo iFood. A presença do funcionário teria como objetivo implantar a pauta da vacinação prioritária para motofretistas, como uma estratégia de esvaziamento da narrativa de greve — indicam as fontes ouvidas e relatórios consultados com exclusividade pela reportagem. Durante o ato, o homem dos adesivos divulgou um abaixo-assinado que pedia a vacinação prioritária. A petição online havia sido criada sete dias antes pela equipe da agência de publicidade que o contratou.

A disseminação de posts e comentários de usuários falsos, que teriam sido criados por agências de publicidade a serviço do iFood no Twitter e Facebook, colocam a reputação da empresa em risco.

Ao que parece as agências contratadas teriam criado duas páginas que deram suporte à narrativa das falsas notícias, inclusive com uma fanpage de conteúdo político Não Breca Meu Trampo e a página de memes Garfo na Caveira.

O que muitos chamam de marketing 4.0, eu chamo de desinformação nesse caso, onde você posta memes, piadas e vídeos que promovem uma marca ou ideia, mas sem mostrar quem está por trás. Sem assinar.

O objetivo da publicidade não assinada era disseminar ideias e opiniões em um formato que imitasse a forma dos entregadores de se comunicarem, simulando que as postagens e narrativas vinham de verdadeiros entregadores.

Plataformas digitais repetem péssimos hábitos, copiando o que tem de pior da velha economia.

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