GENÉTICA, TECNOLOGIA E SAÚDE NA BOLSA

Qual o valor dos dados genéticos de quase 12 milhões de pessoas? Qual o potencial desses dados para pesquisa? Quais os limites legais para utilização desses dados? Quais os usos possíveis para esses dados dessas pessoas? Para quem esses dados podem ser transferidos?

Muitas dessas perguntas certamente foram respondidas pelos executivos da 23andMe nos últimos meses, afinal ela foi a primeira empresa a comercializar kits para fazer análise de marcadores genéticos pessoais há quinze anos, e que realizou uma fusão para ser listada na Nasdaq com uma empresa SPAC de Richard Branson, o criador da Virgin, passando agora a ser listada na bolsa com o nome “ME”, e claro já viu seu preço subir no primeiro dia 21% em relação ao preço inicial de abertura, o que permite dar a medida do interesse do mercado nas possibilidades que a análise genética pode oferecer em áreas como a personalização da medicina ou o desenvolvimento de medicamentos.

Muitos de nós, ou nossos amigos, quando em viagem para os EUA, já fizeram os testes de saliva (kits de cuspe), para dizer qual a nossa origem, de acordo com as nossas características genéticas. Ao preço de cerca de US$ 99, nos últimos quinze anos, foram coletados de cerca de 12 milhões de pessoas, são cerca de 960.000 polimorfismos de nucleotídeos únicos (SNPs) ou marcadores genéticos, que permitem conhecer um grande número de características pessoais.

Em sua origem, a empresa, que investiu muito no desenvolvimento, melhoria e barateamento do seu kit de cuspe, oferecia uma bateria muito detalhada de análise que incluía inúmeros parâmetros relacionados à saúde, incluindo as probabilidades de desenvolver certos tipos de condições, o que levou a FDA americana (Anvisa deles) a proibi-los de fornecer esses dados por medo das possíveis decisões que os usuários poderiam tomar com base neles. Sempre é bom lembrar o caso de Angelina Jolie que em decisão polêmica, resolveu tirar suas mamas com base na probabilidade genética de vir a desenvolver câncer de mama.

Casos como esse colocaram a FDA em uma posição absurdamente polêmica, qual seja? O de negar aos usuários o direito de obter informações de seu próprio genoma, por uma suposta justificativa de que eles não têm maturidade ou a capacidade de tomar decisões com base nele. Basicamente, essa foi a razão para impedir a 23andMe de fornecer esses dados e ter que se limitar a informações sobre a origem das pessoas, uma vez que o questionamento dos diagnósticos que a empresa realizou era entre pouco e nada justificado.

Passada essa polêmica, a empresa passou a funcionar como um enorme banco de dados de informações genéticas, uma vez que cerca de 80% dos usuários desses exames autorizaram que essa base de dados, desde que anonimizada, pudesse ser compartilhada com empresas farmacêuticas ou de pesquisa médica.

Logo a empresa se tornou a maior mineradoras de dados genéticos (a maior base de dados genéticos do mundo), e por conta da base e da licença acabou tendo como uma de suas maiores receitas os contratos de empresas farmacêuticas e de pesquisa, o que por certo está refletido no seu valor no balcão da bolsa.

A abertura de capital através desse consagrado veículo de investimento (SPAC) deve ser mais do que suficiente para dar início a chegada de uma boa quantidade de novos recursos econômicos, ainda que o mesmo nunca tenha faltado a ela, porém com o capital aberto, seu crescimento pode se dar através de aquisições estratégicas nesse mercado.

A abertura de capital e o interesse dos investidores, dão a dimensão da cada vez mais valorizada posição no mercado de startups de saúde, com todos os cuidados legais que a área exige.

Cada vez mais a atenção à saúde deve catalisar empresas de tecnologia ligadas a ela e logo a genética que, juntamente com a sensorização e o uso de dispositivos e wearables para monitorar uma gama crescente de parâmetros fisiológicos, assumem um papel preponderante, que o diga os inúmeros dispositivos de vestir que vem sendo desenvolvido pela Apple.

Para os sistemas de saúde, sejam eles públicos ou privados, o futuro está em poder antecipar diagnósticos para reduzir tanto o sofrimento dos pacientes quanto o custo dos tratamentos. Porém, esse trabalho vem acompanhado com o consentimento do dono dos dados, e o cuidado no tratamento desses dados, bem como da interoparabilidade da base desses dados.

São sim dados sensíveis, e devem ser tratados como tal seja pela LGPD ou pelo RGPD.

A 23andMe Inc. é uma empresa líder em genética e pesquisa de consumidores, agora chamada de “ME”, apoós a fusão com a VGAC, que é uma empresa de aquisição de propósito especial patrocinada pela Virgin Group, e logo sua valorização no curtíssimo prazo é natural, porém são as alianças, descobertas e novos serviços que vão definir a manutenção, aumento ou definhamento desse valor. Afinal ninguém duvida da empresa para revolucionar a saúde personalizada e o desenvolvimento terapêutico através da genética humana.

A estreia pública depois que a 23andMe e a empresa de aquisição de propósitos especiais (SPAC) VG Acquisition Corp. anunciaram uma fusão no início deste ano, produziu como efeito primeiro, a avaliação da empresa pelo mercado em US$ 3,5 bilhões considerando o valor das ações no mercado, agora precificadas.

A 23andMe levantou aproximadamente US$ 592 milhões em receitas brutas para impulsionar o crescimento e a expansão nos negócios de saúde e terapêutica do consumidor da empresa. Segundo o seu prospecto de oferta, o capital da transação também será usado para investir no único banco de dados genético e fenotípico da Companhia para ajudar a acelerar a assistência médica personalizada em escala.

“Essas quase 12 milhões de pessoas que aderiram ao 23andMe, fazem parte de uma comunidade que está usando a genética para transformar a forma como diagnosticamos, tratamos e prevenimos doenças humanas. À medida que entramos na próxima fase como empresa pública, temos a oportunidade de expandir nosso impacto trazendo cuidados de saúde personalizados diretamente para todos.

Richard Branson, que foi um dos primeiros investidores da 23andMe, acredita no potencial da empresa para transformar a forma das pessoas verem a saúde, tornando cada um pró-ativo do seu destino clínico.

Fundada em 2006, a missão da 23andMe é ajudar as pessoas a acessar, entender e se beneficiar do genoma humano. A 23andMe foi pioneira no acesso direto às informações genéticas como a única empresa com múltiplas autorizações da FDA, na geração de relatórios de risco de saúde genética.

A plataforma de crowdsourced do mundo para pesquisa genética, criada por ela, possui 80% de autorização para uso desses dados, utilizados pelas instituições conveniadas. Ao todo a plataforma de pesquisa 23andMe gerou mais de 180 publicações sobre os fundamentos genéticos de uma ampla gama de doenças, condições e características.

A plataforma também alimenta o grupo terapêutico 23andMe, atualmente em busca de programas de descoberta de medicamentos enraizados na genética humana em um espectro de áreas de doenças, incluindo oncologia, respiratória e doenças cardiovasculares, além de outras áreas terapêuticas.

Sem dúvida a COVID abriu portas, para empresas como ela, já que  mais do que nunca as pessoas estão interessadas nos cuidados com a saúde de forma preventiva.

É sempre bom lembrar o histórico de Richard Branson, que na década de 1970, fundou o Grupo Virgin, que agora possui centenas de empresas. Definitivamente ele tem um ótimo faro para investimentos.

É de se destacar a importâncias das SPACs, que tornaram-se um veículo popular para as empresas, chegando mais fácil e barato ao mercado de capitais.

No ano passado, a empresa licenciou uma droga desenvolvida internamente para outra empresa. No total, possui mais de 30 programas terapêuticos em andamento.

Ainda dentro desse período pandêmico, a 23andMe lançou um estudo de um milhão de pessoas para analisar como a genômica e outros fatores contribuem para o quão gravemente doentes aqueles que contraem o vírus se tornam. No mês passado, lançou sua Calculadora de Gravidade COVID-19, que calcula o risco de uma pessoa ser hospitalizada devido ao vírus.

Em outubro, também lançou discretamente um produto de assinatura que fornece aos consumidores informações mais detalhadas sobre sua saúde.

Tecnologia como aliada da saúde, é algo que sempre agrega valor, mas isso passa também pelo respeito no uso de dados, uma vez que são dados sensíveis, logo sempre que possível a interoperabilidade exige muitos cuidados, para uma área que literalmente parece ainda engatinhar.

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