GENÉTICA E TECNOLOGIA

Em breve todos teremos nosso mapa genético totalmente sequenciado, e isso permitirá que atinjamos um próximo nível de personalização da atenção à saúde em geral, e em particular, da prescrição de muitos tipos de medicamentos, com um banco de dados de nossa saúde nossos medicamentos serão personalizados.

Já se passaram mais de 20 anos da publicação da primeira sequência completa e sem lacuna do genoma humano, em seu primeiro rascunho pelo Human Genome Project e pela Celera Corporations, no qual na época ainda estava faltando 8% do total.

Como sabemos, a importância desses tipos de questões para a pesquisa e o futuro da atenção à saúde é potencialmente enorme, e por isso cada vez mais médicos estão defendendo testes genéticos para personalização de tratamentos e medicamentos, tente imaginar a ampliação desse banco, com o cruzamento das bases familiares, geográficas, de condições de trabalho com o histórico de doenças?

Como tudo na tecnologia, em breve veremos reduções exponenciais no preço do sequenciamento genético que nos aproximará o que tornaram muitos exames bem mais baratos, além do cruzamento dessa captura de dados e monitoramento das alterações por gadgets que usamos no dia a dia, como relógios e celulares.

As reações adversas à medicação são um problema comum na área da saúde, responsável por cerca de 6,5% das internações hospitalares no Reino Unido, pra ficarmos em um exemplo. Além disso, muitos medicamentos comumente usados têm um efeito apenas em uma porcentagem entre 30% e 50% dos pacientes. Quase todas (99%) das pessoas têm alguma variação genética que afeta sua resposta a certos medicamentos, como analgésicos, tratamentos cardiovasculares ou antidepressivos, que geralmente são tomados por cerca de 90% das pessoas com mais de setenta anos de idade. Logo esses números explicam algumas distorções que delirantes espalham pela internet. O uso generalizado de medicamentos considerando o genoma permitiria, como afirma um relatório recente, prescrever a medicação adequada na dose apropriada a cada paciente, a fim de melhorar sua condição e evitar ou reduzir os efeitos colaterais.

O custo deste tipo de teste genético vem diminuindo ao longo do tempo, pode levar a enormes reduções de volume se realizadas em massa, e eles poderiam claramente justificar o investimento simplesmente levando em conta os rendimentos adicionais ou problemas decorrentes de doses inadequadas.

Por isso as empresas dedicadas ao estudo genético vem ganhando valor no mercado, afinal qual seria o valor dos dados genéticos de quase 12 milhões de pessoas?

Qual o potencial desses dados para pesquisa? Quais os limites legais para utilização desses dados? Quais os usos possíveis para esses dados dessas pessoas? Para quem esses dados podem ser transferidos?

Muitas dessas perguntas certamente foram respondidas pelos executivos da 23andMe no ano passado, afinal ela foi a primeira empresa a comercializar kits para fazer análise de marcadores genéticos pessoais há quinze anos, e que realizou uma fusão para ser listada na Nasdaq com uma empresa SPAC de Richard Branson, o criador da Virgin, passando agora a ser listada na bolsa com o nome “ME”, e claro já viu seu preço subir no primeiro dia 21% em relação ao preço de abertura, o que permite dar a medida do interesse do mercado nas possibilidades que a análise genética pode oferecer em áreas como a personalização da medicina ou o desenvolvimento de medicamentos.

Muitos de nós, ou nossos amigos, quando em viagem para os EUA, já fizeram os testes de saliva (kits de cuspe), para dizer qual a nossa origem, de acordo com as nossas características genéticas. Ao preço de cerca de US$ 99, nos últimos quinze anos, foram coletados de cerca de 12 milhões de pessoas, são cerca de 960.000 polimorfismos de nucleotídeos únicos (SNPs) ou marcadores genéticos, que permitem conhecer um grande número de características pessoais. Lembro que esses testes já estão disponíveis no Brasil.

Em sua origem, a empresa, que investiu muito no desenvolvimento, melhoria e barateamento do seu kit de cuspe, oferecia uma bateria muito detalhada de análise que incluía inúmeros parâmetros relacionados à saúde, incluindo as probabilidades de desenvolver certos tipos de condições, o que levou a FDA americana (Anvisa deles) a proibi-los de fornecer esses dados por medo das possíveis decisões que os usuários poderiam tomar com base neles. Sempre é bom lembrar o caso de Angelina Jolie que em decisão polêmica, resolveu tirar suas mamas com base na probabilidade genética de vir a desenvolver câncer de mama.

Casos como esse colocaram a FDA em uma posição absurdamente polêmica, qual seja? O de negar aos usuários o direito de obter informações de seu próprio genoma, por uma suposta justificativa de que eles não têm maturidade ou a capacidade de tomar decisões com base nele. Basicamente, essa foi a razão para impedir a 23andMe de fornecer esses dados e ter que se limitar a informações sobre a origem das pessoas, uma vez que o questionamento dos diagnósticos que a empresa realizou era entre pouco e nada justificado.

Passada essa polêmica, a empresa passou a funcionar como um enorme banco de dados de informações genéticas, uma vez que cerca de 80% dos usuários desses exames autorizaram que essa base de dados, desde que anonimizada, pudesse ser compartilhada com empresas farmacêuticas ou de pesquisa médica.

Logo a empresa se tornou a maior mineradora de dados genéticos (a maior base de dados genéticos do mundo), e por conta da base e da licença acabou tendo como uma de suas maiores receitas os contratos de empresas farmacêuticas e de pesquisa, o que por certo está refletido no seu valor no balcão da bolsa.

A abertura de capital através desse consagrado veículo de investimento (SPAC) foi certamente mais do que suficiente para dar início a chegada de uma boa quantidade de novos recursos econômicos, ainda que o mesmo nunca tenha faltado a ela, porém com o capital aberto, seu crescimento pode se dar através de aquisições estratégicas nesse mercado.

A abertura de capital e o interesse dos investidores, dão a dimensão da cada vez mais valorizada posição no mercado de startups de saúde, com todos os cuidados legais que a área exige.

Cada vez mais a atenção à saúde deve catalisar empresas de tecnologia ligadas a ela e logo a genética que, juntamente com a sensorização e o uso de dispositivos e wearables para monitorar uma gama crescente de parâmetros fisiológicos, assumem um papel preponderante, que o diga os inúmeros dispositivos de vestir que vem sendo desenvolvido pela Apple.

Para os sistemas de saúde, sejam eles públicos ou privados, o futuro está em poder antecipar diagnósticos para reduzir tanto o sofrimento dos pacientes quanto o custo dos tratamentos. Porém, esse trabalho vem acompanhado com o consentimento do dono dos dados, e o cuidado no tratamento desses dados, bem como da interoparabilidade da base desses dados.

São sim dados sensíveis, e devem ser tratados como tal seja pela LGPD ou pelo RGPD.

Essas quase 12 milhões de pessoas que aderiram ao 23andMe, fazem parte de uma comunidade que está usando a genética para transformar a forma como diagnosticamos, tratamos e prevenimos doenças humanas. À medida que entramos na próxima fase como empresa pública, temos a oportunidade de expandir nosso impacto trazendo cuidados de saúde personalizados diretamente para todos.

Fundada em 2006, a missão da 23andMe é ajudar as pessoas a acessar, entender e se beneficiar do genoma humano. A 23andMe foi pioneira no acesso direto às informações genéticas como a única empresa com múltiplas autorizações da FDA, na geração de relatórios de risco de saúde genética.

A plataforma de crowdsourced do mundo para pesquisa genética, criada por ela, possui 80% de autorização para uso desses dados, utilizados pelas instituições conveniadas. Ao todo a plataforma de pesquisa 23andMe gerou mais de 180 publicações sobre os fundamentos genéticos de uma ampla gama de doenças, condições e características.

A plataforma também alimenta o grupo terapêutico 23andMe, atualmente em busca de programas de descoberta de medicamentos enraizados na genética humana em um espectro de áreas de doenças, incluindo oncologia, respiratória e doenças cardiovasculares, além de outras áreas terapêuticas.

É de se destacar a importâncias das SPACs, que tornaram-se um veículo popular para as empresas, chegando mais fácil e barato ao mercado de capitais.

No ano passado, a empresa licenciou uma droga desenvolvida internamente para outra empresa. No total, possui mais de 30 programas terapêuticos em andamento, o que pode permitir a importância desse banco de dados.

Ainda dentro desse período pandêmico, a 23andMe lançou um estudo de um milhão de pessoas para analisar como a genômica e outros fatores contribuem para o quão gravemente doentes aqueles que contraem o vírus se tornam. No mês passado, lançou sua Calculadora de Gravidade COVID-19, que calcula o risco de uma pessoa ser hospitalizada devido ao vírus.

Em outubro de 2021, também lançou discretamente um produto de assinatura que fornece aos consumidores informações mais detalhadas sobre sua saúde.

Tecnologia como aliada da saúde, é algo que sempre agrega valor, mas isso passa também pelo respeito no uso de dados, uma vez que são dados sensíveis, logo sempre que possível a interoperabilidade exige muitos cuidados, para uma área que literalmente parece ainda engatinhar.

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