GAMES, O ÓPIO ESPIRITUAL DO GOVERNO CHINÊS

Se tem algo que aprendi durante o período que morei na China, é que lá todos sabem exatamente a força da mão do Estado Chinês, que hora te impulsiona, hora te destrói.

Nesse momento a China avança em sua campanha para ampliar o controle, freando assim o poder das empresas do setor de tecnologia. Que o diga o enquadramento do Alibabá(a Amazon Chinesa). Além do aplicativo de transporte Didi Global, o governo chinês incluiu outras duas empresas que recentemente abriram o capital em Nova York, o que para muitos representa um duro golpe contra investidores globais, enquanto aumenta o controle sobre dados online confidenciais, só para lembrar na China os dados pessoais pertencem ao “Estado”.

Logo, a China dá início, a um processo que deve ser acompanhado por todos os demais países do mundo, isso mesmo, a “comunista” China vai ensinar ao mundo como devem ser tratadas as Big Techs, e não adianta torcer o nariz, os chineses vão colocar limites para as suas plataformas digitais, o que o mundo olha e copia em maior ou menor escala em cada canto do mundo, empresas que, até então amplamente estimuladas.

O propósito público dessas intervenções é o de coibir o seu crescimento desordenado e desrespeitoso para os consumidores, mas do outro lado da moeda o que está em jogo, é o Estado Chinês mandando dizer, quem manda! A cruzada intervencionista da China tem uma nova frente, desencadeando quedas de até 21% no setor após um meio de comunicação “estatal” chamar os videogames de “ópio espiritual”. Pressões de baixa atingem a Europa, até os EUA.

Há apenas uma semana, na última terça-feira, a China colocou os mercados em alerta, quando o índice CSI 300, caiu 6,6%, atingindo o setor em três dias com uma queda de 17%.

O que provocou isso, o intervencionismo desencadeado pelo Governo de Pequim em setores tão diversos quanto o imobiliário, a tecnologia e a educação.

Muitos temem que o governo de Pequim tenha aberto uma nova “frente de batalha” com a indústria de videogames. Os alertas vieram à tona com os termos usados por uma saída do governo para criticar o papel dos videogames na sociedade.

O jornal “Economic Information Daily”, que é ligado à maior agência oficial de notícias chinesa, a Xinhua, publicou nessa semana um artigo no qual descreve os videogames online como “ópio espiritual” e “drogas eletrônicas”. A mídia inclui um aviso. “Nenhuma indústria, nenhum esporte, pode ser permitido desenvolver de uma maneira que destrua uma geração.”

Em meio à repressão regulatória da China, esses comentários levantam o nível de alerta sobre possíveis restrições ao setor, e os investidores são extremamente cautelosos, sendo que entre as principais vítimas do mercado de ações repete algumas das tecnologias que geram as maiores dúvidas entre as autoridades de Pequim, a Tencent. No artigo que critica o papel dos videogames, na verdade, a mais popular das criações da Tencent na China, “Honor of Kings”, é repetidamente citada.

A maior empresa chinesa de redes sociais e videogames afundou cerca de 10% na Bolsa de Valores de Hong Kong, o equivalente a uma perda de 50 Bilhões de euros em termos de capitalização de mercado.

A justificativa para esse furor regulatório do governo chinês está relacionada com as evidências de que essas empresas, juntamente com algumas outras, como as que operam no setor educacional, estavam se comportando de forma “excessivamente capitalista”, o que seria isso? Com ações claramente focadas na aquisição de um poder monopólio capaz de controlar sua indústria, ou com evidências de desenvolvimentos que pareciam minar o acesso a bens entendidos como livremente acessíveis por um governo “supostamente” comunista, ao menos em sua estética e discurso como na educação.

Muitas desses gestos fizeram com que investidores internacionais, sempre receosos, considerando de forma mais cauteloso seus investimentos na China.

O que parece claro é a preferência, pelo hardware, e em componentes, e para tanto está disposto a fazer qualquer coisa para obter tecnologia que lhe permita superar seu déficit no mundo dos chips, mas o mesmo nível de relação já não ocorre, com as empresas focadas em software e aplicativos, que culpam uma obsessão em obter dados pessoais de seus usuários que é paradoxal no governo que, sem dúvida, tem um controle mais obsessivo sobre o comportamento de seus cidadãos.

Logo precisamos perguntar, até nos perguntar até que ponto a aposta do governo chinês pode ir bem, quando desdenha da economia de aplicativos e aposta no hardware?

O curioso é que no mundo do software e das redes sociais, tudo parecia indicar, após o impressionante sucesso mundial da ByteDance (TikTok), que as empresas chinesas poderiam considerar saídas ambiciosas no exterior: poucos países têm aplicativos tão poderosos quanto os chineses como o Wechat, que o Face tenta copiar.

Poderia o governo chinês estar cometendo um grande erro em prejudicar significativamente sua indústria de software e mídias sociais, a ponto de minar a confiança que os grandes fundos de investimento passaram a ter neles, em troca de apostar em uma indústria de hardware cuja falta de liderança não parece vir tanto da falta de investimento público, mas de outros fatores?

É bom lembrar que entre 2016 e 2020, Alibaba e Tencent tiveram um retorno do investimento de 18,9% e 19,5%, respectivamente, enquanto SMIC e Hua Hong tiveram números muito mais conservadores, com 3,6% e 7,4%, nessa simples comparação entre os resultados financeiros de software e hardware.

É muito cedo, para saber se essa estratégia, pode ir muito longe, mas ao mesmo tempo os sedutores números do mercado oriental podem ser a chave para que os investidores não se importem com tanta intervenção, e entendam que investir e empresas chinesas tem essa característica, o chamado “risco regulatório chinês”.

Do outro lado do mundo os Estados Unidos simplesmente observam de longe, e esperam pra saber se o movimento está correto ou não, o que não os impede em pegar uma carona e colocarem alguns limites nas Big Techs.

A Tencent não foi a única vítima do mercado de ações na China de avisos contra a indústria de videogames. As ações da NetEase caíram até 15% no mercado de ações, antes de moderar a queda final para 8,6%. A reviravolta dos investidores contra o criador de videogames XD Inc atingiu 21% de uma dissolução que finalmente deu lugar a 7,8% de quedas.

Em resposta ao ataque do governo Chinês, a Tencent anunciou novas restrições sobre o tempo que os menores podem gastar em seus jogos online; o movimento responde à intensa pressão da mídia estatal sobre o grupo tecnológico chinês.

Em uma postagem nas redes sociais, a empresa anunciou que estava introduzindo as medidas depois que as autoridades pediram maior proteção em relação à exposição das crianças ao jogo e para que as empresas cumpram sua “responsabilidade social”.

As ações da Tencent, cujo negócio de jogos online geraram 39.100 milhões de yuans (US$ 6 bilhões) no primeiro trimestre e representaram 30% de sua receita total, caíram 10,8% em Hong Kong, antes de cortar perdas e fechar em 6,6%.

No último mês, as ações caíram quase 25%. A avaliação da empresa perdeu 400.000 milhões de dólares desde seu pico em janeiro.

A recente volatilidade vem depois que as ações de tecnologia chinesas registraram seu pior mês desde a crise financeira global em julho, após uma campanha sem precedentes de reguladores contra setores de tecnologia, como educação, transporte e mídias sociais.

As novas restrições da Tencent, que em princípio se aplicarão apenas ao seu título mais conhecido “Honor of Kings”, reduzirão ainda mais o tempo que os menores podem passar jogando, de 1,5 horas para 1 hora durante a semana e de 3 horas para 2 horas em feriados. A empresa proibirá crianças menores de 12 anos de gastar em jogos de azar e reprimirá menores que brincam com contas de adultos.

A Tencent também apresentou três propostas em todo o setor, incluindo o fortalecimento de sistemas para combater o vício em jogos de azar, e pediu que fosse dada consideração a uma proibição completa do acesso para crianças menores de 12 anos.

Os reguladores anunciaram que examinariam e modificariam algoritmos de recomendação on-line para garantir que eles não espalhassem “conteúdo ruim”, aumentando as autoridades que atuam para mudar a programação que ajudou Douyin, o aplicativo irmão do TikTok na China, a se tornar um campeão da crescente indústria de vídeo curto.

Nas últimas semanas, Pequim exigiu um novo regime de listagem no exterior, impôs verificações de segurança de dados em empresas que buscam vender ações no exterior e proibiu a indústria de classe privada do país de lucrar cerca de US$ 100 bilhões. Segundo analistas do JPMorgan, isso tornou as três maiores empresas do setor “praticamente inviáveis”.

De acordo com analistas, a pressão na terça-feira dos reguladores e da mídia estatal representa um novo desafio para a Tencent, que controla a onipresente rede social e o aplicativo de pagamentos WeChat e saiu relativamente ileso da repressão dos reguladores. Isso mudou repentinamente na semana passada, quando a empresa anunciou que estava suspendendo todos os registros de usuários do WeChat enquanto atualizava sua tecnologia de segurança para “estar em conformidade com todas as leis e regulamentos relevantes”. As ações da Tencent recuaram quase 25% no último mês.

A decisão da Tencent, surgiu depois de um artigo difundido pela imprensa estatal ter chamado “ópio espiritual” aos jogos virtuais.

A crítica foi publicada pelo Economic Information Daily, um jornal afiliado à agência noticiosa oficial Xinhua.

O artigo destacou o popular jogo Honor of Kings, da Tencent, como aquele em que os menores são mais viciados, e citou um estudante que afirmou que alguns jovens jogam até oito horas por dia. O artigo, difundido na versão online do jornal, foi removido horas depois.

“O ‘ópio espiritual’ cresceu e tornou-se uma indústria que vale centenas de milhares de milhões”, disse o jornal, acrescentando que nenhuma indústria deveria desenvolver-se até ao ponto de “destruir uma geração”.

A Tencent reagiu em comunicado, garantindo que limitaria ainda mais o tempo de jogo para menores, reduzindo de uma hora e meia para uma hora por dia, e de duas horas para três horas por dia durante os feriados. Crianças com menos de 12 anos também estão proibidas de fazer compras no jogo, disse a empresa.

O fato é que o governo chinês pode decidir de uma hora para outra, como o fez ao exigir que as empresas de educação e tecnologia (edtech), uma indústria gigante e em forte desenvolvimento, com receitas de mais de cem bilhões de dólares, se tornem empresas sem fins lucrativos, sem investimento estrangeiro, sem a possibilidade de levantar capital e sem poder sair para os mercados externos. Imagine o resultado?

A decisão, como as anteriores de outras de suas empresas, faz com que a valorização dessas empresas caia acentuadamente e leve fundos de investimento e investidores em todo o mundo a perder quantias irrevogavelmente significativas de dinheiro, e fazê-lo em um ambiente em que não há proteção legal possível.

O que provocou a reação do governo chinês ao seu setor educacional? O Ministro da Educação, na comunicação do novo marco regulatório, limitou-se a dizer vagamente que “nos últimos anos houve grandes investimentos de uma grande quantidade de capital na formação educacional (…) a publicidade está em toda parte, bombardeando toda a sociedade (…) Destruiu o ambiente normal para a educação.” Alegações que podem ser perfeitamente verdadeiras ou até preocupantes dependendo de como são interpretadas, mas que ninguém esperava ser usada para justificar medidas como as anunciadas

Como foi relatado em uma matéria da Blumberg no último dia 26, “Quando não é uma mudança legislativa, é uma mudança em seus interesses ou uma súbita aquisição de qualquer coisa que aparentemente estava fora de seu controle: Pequim espera de todas as empresas que operam no país uma submissão total e absoluta , no que equivale a uma óbvia insegurança jurídica para os investidores. Uma explicação vaga é suficiente para algo que tradicionalmente funcionava de uma maneira de fazê-lo em outro. O investimento em empresas chinesas tornou-se, como diz o ex-CEO da Cisco, John Chambers, completamente imprevisível e cada vez mais desaconselhável, porque não se trata de controle de riscos, mas de absoluta impossibilidade de estimar qual será o próximo passo de uma administração onipotente.”

Definitivamente a China, pode-se dizer não é um lugar para amadores, um mundo de oportunidade que pode cobrar um preço absurdo por elas.

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