FUNDADORES E A HORA DE PARTIR

“O que você faria se só te restasse esse dia?” Esse é um verso repetido inúmeras vezes em uma música gravada por grandes artistas como Zeca Baleiro e Ney Matogrosso, a angústia de definir nossos passos na nossa reta final.

Nem sempre vamos saber quanto tempo nos resta aqui e o que devemos fazer, mas a possibilidade de planejar nossos últimos passos, a sucessão nos nossos lugares de trabalho, a perpetuidade do negócio (ao menos a tentativa) seria certamente um privilégio, pois muitos conflitos e solavancos poderiam ser evitados ou minimizados.

Afinal empresas são casamentos perfeitos até o dia que deixam de funcionar, seja por não se atualizarem, ou por deixarem de escutar seus consumidores e colaboradores, e as coincidências não param por aí.

Na dinâmica do capitalismo, a competição e a transformação são a regra, veja qualquer gráfico que represente anualmente as maiores empresas do mundo nos últimos 50 anos e identifique as mudanças de valores na modificação da economia, que vai dos gigantes do aço aos gigantes de tecnologia, a mudança valorativa sempre vai encontrar um meio termo entre o caixa gerado e o fluxo de caixa projetado para exercícios futuros.

Esse também é o caso dos gigantes da tecnologia do mundo que não ficam de fora dessa regra, mesmo empresas de tecnologia, que já estiveram entre as mais valorizadas do mundo podem desaparecer ou ficarem ressignificadas, com valores de mercado que nem de longe podem refletir seu apogeu, como é o caso da Aol, HP ou Kodak, mesmo elas jamais podem ignorar a rapidez com que o capitalismo pode dobrar os gigantes.

O domínio das empresas de tecnologia dos EUA na liderança do ranking das 10 maiores do mundo em valor de mercado deve se manter por alguns anos, sendo que as posições que forem perdidas o serão para outras empresas de tecnologia, notadamente chinesas.

Os inúmeros analistas que acompanham as big techs (Alphabet, Amazon e Microsoft. Apple e Facebook), vivem demonstrando o descolamento do valor dessas empresas do reto da economia no mundo.

Uma reportagem do Jornal Estadão no último dia 12, dava destaque justamente ao momento da saída dos grandes chefões da tecnologia e como as empresas tratavam o assunto:

No Google (Alphabet): Em 2019, Larry Page e Sergey Brin deixaram os cargos executivos na Alphabet. Assumiu Sundar Pichai.

Na Amazon: Jeff Bezos atuou como CEO da varejista ao longo de 27 anos. Em julho, o bilionário passou o cargo para Andy Jassy, líder da divisão de serviços em nuvem da gigante.

Na Apple: Após a morte de Steve Jobs em 2011, o cargo foi ocupado por Tim Cook.

Na Microsoft: Bill Gates deixou o cargo de CEO em 2000, passando o bastão para Steve Ballmer. Em 2014, assumiu Satya Nadella.

No Twitter: Jack Dorsey atuou inicialmente como CEO entre os anos de 2007 e 2008, sendo substituído por Dick Costolo. Ele voltou ao posto em 2015 e, no final de novembro, anunciou sua saída. Assume Parag Agrawal, diretor de tecnologia da empresa.

Essas empresas fazem parte das maiores empresas  do mundo, e por serem plataformas digitais estão redesenhando o capitalismo, ainda mais concentrado.

Há uma década Amazon e Facebook não estavam entre as 100 maiores empresas do mundo por valor de mercado, contudo a sua ascensão meteórica também não é tão extraordinária. Em média, as empresas que chegam ao top 10 sobem cerca de 75 posições em uma década para chegar lá, e depois desaparecem.

Desde 1970, as empresas que terminaram uma década no top 10 global tiveram menos de uma chance em cinco de terminar a década seguinte nessas posições. As companhias petrolíferas dominaram a lista na década de 70, seguidas pelos bancos japoneses na década de 80. Nomes de técnicos chegaram ao topo nos anos 90, mas o elenco continua mudando.

Segundo reportagem do Financial Times, apenas duas empresas de tecnologia europeias, Deutsche Telekom e Nokia, entraram no top 10, tornando-se parte desse clube durante a década de 1990 antes de entrar em ação. Apenas uma empresa, a Microsoft, se reinventou o suficiente para permanecer no top 10 do clube por três décadas.

No geral, grandes empresas se tornam difíceis de gerenciar, e por isso, acabam perdendo identidade com o público, e por decorrência perdem a preferência, e assim dão terreno a rivais mais ágeis, isso sem falar nas empresas que não se preparam para a sucessão do seu acionista criador.

Empresas de tecnologia, quando tem sua imagem vinculada ao seus sócio fundador sempre correm esses risco, esse sempre foi o medo da Apple quando da descoberta da doença de Steve Jobs (1955/2011), que nesse dia em que completou dez anos desde a sua morte, uma década em que, apesar de não ter trazido ao mercado dispositivos revolucionários da estatura do iPhone ou do iPad, a empresa se estabeleceu como a mais valiosa do mundo.

Na direção do CEO, nomeado por Jobs, Tim Cook, que havia assumido o comando alguns meses antes de sua morte em 5 de outubro de 2011, a empresa de Cupertino (Califórnia, EUA) continuou a ganhar valor no mercado de ações até se tornar em 2018 a primeira empresa americana a atingir um trilhão de dólares. No ano passado, esse número dobrou e ultrapassou dois trilhões, marco que a empresa manteve até hoje.

O que o mercado parece gostar, é que a estratégia de Cook tem sido clara e bem definida desde o início, em que pese tenha perdido a criatividade e a visão que Jobs devolveu para empresa no seu retorno, assim seu sucessor, fortaleceu e aperfeiçoou os produtos e serviços herdados, como iPhones e iPads.

É obvio que as estratégias desenhadas a mais de duas décadas por Jobs, fazem com que a empresa hoje possa colher dividendos. A visão/missão em transformar seus produtos em plataformas de serviços, fez com que a empresa se mantivesse como referência no mercado, isso se traduz em números, pois os telefones continuam a representar hoje a maior fonte de renda para a empresa (54% de acordo com os resultados mais recentes, segundo a agência Efe) e de tempos em tempos são apresentadas versões melhoradas de iPads, MacBooks e iMacs.

Entre os poucos novos produtos de hardware lançados desde a passagem de Jobs que alcançaram significativa penetração no mercado, ainda que sem representar a mudança de paradigma que o iPhone e o iPad trouxeram, os smartwatches Apple Watch e fones de ouvido sem fio AirPods, lideram com folga e crescem acima da média dos demais produtos.

No caso dos smartwatches, eles sozinhos já vendem mais do que toda indústria de relógios Suíça.

A Apple é sem dúvida uma referência para se pensar nos tempos atuais o planejamento sucessório das empresas, notadamente das empresas de tecnologia. Pois Jobs, além de ser a principal força criativa da Apple, foi também um visionário, que profetizou as maiores mudanças tecnológicas do início do século XXI.

A morte dele em 5 de outubro de 2011, como resultado de uma parada respiratória derivada das metástases do câncer de pâncreas que havia sido diagnosticado oito anos antes, deixou todos atordoados, especialmente as centenas de milhares de fãs e seguidores que ele já acumulou e que ainda cresceu mais com sua lenda.

Steve Jobs profetizou com seus conceitos, serviços e produtos, o que estava por vir no universo tecnológico, que hoje modificam as nossas vidas, e que na época a maioria de nós não tinha a dimensão do alcance e da velocidade, o conceito de plataforma, que virou a referência de negócio para as big techs é o seu melhor exemplo.

Em um discurso na Conferência Internacional de Design de 1983,quando mesmo computadores pessoais mal haviam penetrado na maioria das casas, Jobs já explicava que sua ideia era trabalhar para “colocar em um livro um computador incrivelmente poderoso que pode ser levado onde quer que se vá e que possa ser aprendido a usar em vinte minutos”.  

Vinte e quatro anos depois, a empresa que ele dirigia mostrou pela primeira vez um telefone iPhone em público; e três anos depois, o primeiro tablet iPad.

Com seus recursos inovadores e design impecável, tanto o iPhone quanto o iPad foram os dispositivos que abriram caminho para dois novos mercados, smartphones e tablets.

O que aumenta a importância do líder na Apple e em outra empresas pode ser resumido na reflexão de referência, pois é bem difícil prever se essas duas revoluções teriam acontecido da mesma forma sem a iniciativa da empresa de Jobs, o líder impulsionando suas equipes.

Lembro que os smartphones, por exemplo, já eram uma realidade incipiente antes do iPhone, Palms e Blackberry já eram as referências antes de Jobs apresentar seus conceitos, e onde eles estão hoje?

O tempo impõe permanentes desafios para os líderes, mais do que visionários eles e as empresas que criam são postos a prova em novos desafios, sejam eles tecnológicos ou regulatórios.

Vejamos o caso da China onde se demonstrou como a rapidez de um ataque regulatório pode derrubar gigantes corporativos e tirar o Alibaba, um dos seus, do top 10 global. E se isso se repetir no resto do mundo aos gigantes de tecnologia e seu questionável exercício de oligopólio e de monopólio?

No universo digital, gigantes estão competindo com startups, algo impensável a 20 anos no universo das montadoras ou das grandes fundições e bancos, o que serve como divisor de águas entre a velha e a nova economia.

Saber a hora de partir será sempre um desafio, mais um entre os diversos que rondam a rotina dos empreendedores.

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