ENSINO HÍBRIDO, RISCOS E VANTAGENS

Um momento global diferente, exige leituras diferentes, quando a tecnologia invade os lares de forma acelerada, ainda que de maneira seletiva, é preciso uma reflexão urgente sobre modos e formas, não se trata apenas de repensar, mas de entender as diferenças circunstanciais

E logo estarmos pelo segundo ano consecutivo enfrentando uma pandemia, e no caso brasileiro, com uma intensidade ainda maior decorrente do atraso de nossa vacinação no combate a essa “gripezinha”, nada como a santa ignorância para desprezar ou diminuir problemas graves e complexos. A ignorância é um elixir para os incautos, nela eles repousam, tripudiam e procuram soluções esdruxulas que só atrasam o combate dos verdadeiros problemas. E se ela vem de dirigentes ou de pais, serão sempre os mais frágeis e comandados que pagarão o preço pelos atos dos ignóbeis.

Vivermos, longos tempos de ensino hibrido é apenas um exemplo, e logo adiante o Brasil deve conviver com ensino hibrido ao menos até o fim do primeiro semestre de 2022, afinal ao término de 2021 teremos apenas 51% da população vacinada e em fevereiro começamos a revacinar os mais idosos, uma tempestade perfeita para o sistema de saúde, onde vão se juntar 80 milhões de pessoas não vacinadas(desconsideradas as menores de 18 anos) a outras 120 milhões que pelo calendário vão precisar de mais duas doses. Todos esses equívocos na gestão da pandemia no Brasil geram figuras como o ensino híbrido como decorrência desses tempos atuais, que no caso brasileiro se acentua.

Logo para muitos pais não sobram perguntas e preocupações, como bem lembra a psicóloga Rosely Sayão, publicado no Estadão “Os pais enfrentaram, e ainda irão enfrentar por um bom tempo, situações difíceis com os filhos nesta época de pandemia. Se, antes de as escolas fecharem, muitas mães chegaram a dizer “Eu já fiz de tudo” ao se referirem a comportamentos ou reações dos filhos, hoje elas reconhecem que já inventaram soluções e estratégias inimagináveis anteriormente. E podem e terão de criar outras mais, ainda. As preocupações, angústias, inseguranças e dúvidas – muitas dúvidas – habitam hoje a cabeça dos pais.

Para alguns, uma pequena mudança de comportamento do filho já sinaliza algum possível problema; para outros, o atraso na aprendizagem em mais de um ano sem escola presencial é um tormento para o qual não encontram soluções que considerem produtivas. A saúde física e mental dos filhos é mais um motivo para sustentar o sinal amarelo piscando na cabeça deles o tempo todo. E o sinal vermelho acende com muita frequência, pelo tédio e pela solidão que observam os filhos passarem. De vez em quando, parece que foram os pais que criaram a pandemia, tamanha é a culpa que carregam. Estão carregando um peso enorme nas costas tanto por acompanharem o tempo presente na vida dos filhos quanto sobre o que imaginam que será do futuro deles. Estão fragilizados. Vejamos, então, como eles podem ajudar os filhos para melhorar a própria vida.

A primeira questão são os estudos. Muitas crianças, mesmo tendo todos os recursos necessários em casa e pais dispostos a acompanhar o estudo remoto, não conseguiram aprender, prestar atenção, fazer os trabalhos passados. Precisamos entender algo importante: estudo remoto não é adequado para a criança. “Mas algumas crianças aprenderam”, me disse a mãe de um garoto de 9 anos que pouco aproveitou o estudo remoto. Sim, caro leitor, algumas crianças aprenderam, mas não sabemos o custo familiar e pessoal dela para que isso ocorresse e as possíveis consequências dessa conta. Saberemos mais tarde.

O aluno, tanto da educação infantil quanto do ensino fundamental 1, precisa de um local designado para aprender – a escola –, precisa de um adulto presente preparado e disposto a ensinar – o professor –, e companhia na árdua tarefa de aprender – os colegas. O ensino remoto não consegue substituir esses requisitos para a maioria das crianças.

O que fazer, então? Primeiramente, ter paciência e tolerância com as dificuldades ou recusa do filho nos estudos. Adianto: pressionar, dar broncas, fazer discurso moral, além de não adiantar nada, pode piorar a situação. Conversar com a escola é uma ótima providência, apesar de que muitas não se comovem nem um pouco com a situação apresentada. Sabe por quê? Porque elas também não têm soluções a oferecer. É, não existe escola perfeita. Entretanto, há escolas que estão sensibilizadas com o contexto vivido por seus alunos e suas famílias no estudo remoto. E, lado a lado com a família, em um diálogo, ganham maiores chances de encontrar boas soluções.

Enquanto isso, estimule a inteligência e o raciocínio de seus filhos. A afetividade entre pais e filhos é importante para isso, sabia? Dê atenção a eles sempre que for possível, conversando, fazendo trabalhos domésticos juntos, ouvindo com interesse real o que falam, mostrando o mundo a eles por meio de livros, filmes, histórias. Desafie seus filhos a conseguirem algo que para eles é difícil, apresente jogos de tabuleiro.

E como fazer a criança pequena entender e respeitar o trabalho remoto dos pais feito de casa? Lembre-se: o concreto ajuda mais do que o abstrato, do que a explicação falada. Repetir a rotina anterior à pandemia de quando os pais saíam para o trabalho pode ajudar: despedir-se deles e dizer que vai ao trabalho. …. E o tédio das crianças sem escola, sem colegas para brincar, sem viajar, sem passear? Agora, precisamos devolver a autonomia de brincar às crianças. Em vez de brincar com os filhos, sugerir algumas brincadeiras diferentes é uma possibilidade. Seus filhos estão sofrendo? Sim. Vocês também? Sim. Essa é a nossa realidade, sobre a qual não temos controle, e não somos nada mais do que humanos com dores, dissabores, mas também com possibilidades e potenciais diversos. Que façamos bom proveito.”

É obvio que muitas das estratégias apresentadas acima pela autora, nem sempre podem em sua plenitude serem utilizadas por todos, afinal a pandemia evidencia também os fossos sociais.

Curioso é que em meio a essa nova realidade surgem velhos problemas com novas roupagens como as ‘”trollagens’ que criam barreiras ao ensino remoto nas escolas, o que evidencia esse fenômeno da “câmera desligada”, que mais do que revela insegurança adolescente com o corpo e medo de ter a imagem compartilhada nas redes, e as inúmeras trollagens que surgem com novos aplicativos.

No geral, na aula online, quase ninguém abre a câmera e o professor tem a sensação de falar para as paredes. À primeira vista parece desinteresse, mas a dificuldade que adolescentes têm de mostrar o rosto no ensino remoto revela inseguranças com o próprio corpo e o medo de sofrer agressões virtuais ou “brincadeiras” de mau gosto nas redes, as chamadas trollagens.

Se um aluno tira uma foto de um ângulo não muito bom, logo a foto se espalha pelo colégio, e com elas os inúmeros apelido e adjetivos.

No geral num comportamento muito comum os “prints” ganham os grupos, as escolas e o universo das redes sociais, com montagens virando figurinhas além de na maioria dos casos virem acompanhados de comentários maldosos.

As agressões online ou o ciberbullying, como tecnicamente são chamadas as ofensas persistentes, já aconteciam antes, no espaço mais íntimo das redes sociais dos alunos, o que se multiplicou com o ensino híbrido.

O número de câmeras fechadas aumenta na mesma medida em que a idade dos alunos avança. Até os 12 anos, é comum que as crianças participem das aulas mostrando o rosto. Os pequenos fazem até recreio pelas telas e pedem para ficar conversando entre si na sala virtual depois do horário. A situação muda a partir do 6.º ano e a recusa parece perdurar entre jovens adultos.

Uma pesquisa realizada com 276 alunos por professores de Biologia da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, identificou que o principal motivo para que alunos de graduação não abram as câmeras nas aulas é a preocupação com a aparência.

Quatro em cada dez estudantes relataram essa preocupação, ainda mais forte entre as meninas, segundo o artigo publicado na revista Ecology and Evolution. Em seguida, vem o temor de que os colegas vejam outras pessoas no ambiente. Um aparente contrassenso faz as escolas questionarem por que jovens – que estão o tempo todo expostos nas redes sociais, se preocupam tanto em se esconder na aula. A resposta vem dos adolescentes: nas redes, é possível controlar a imagem de modo que ela seja publicada do jeito que querem, com pose e filtros.

É evidente que esses atos levam adolescentes a sofrimentos e até mesmo dencorajá-los das aulas o que só piora o quadro atual.

Ainda há poucos dados sobre o impacto das aulas remotas no aumento de agressões virtuais, mas governos estão mobilizados para entender os efeitos do isolamento no comportamento e nas emoções dos alunos. Uma pesquisa da Comissão Europeia identificou que entre crianças que já tinham sido vítimas de ciberbullying, 44% identificaram aumento das agressões durante o lockdown. Metade das crianças entrevistadas foi vítima de pelo menos uma situação de agressão virtual.
A constatação de que os jovens não querem dar as caras na aula remota e os riscos maiores de agressões virtuais levam as escolas a discutir com os alunos a etiqueta na internet e a fortalecer grupos de apoio entre os próprios estudantes.

Ë preciso aprimorar nesse momento muitos, pontos, sem o qual o estrago será ainda maior, as plataformas adaptativas, apoiadas por meio da inteligência artificial, serão, neste novo cenário disruptivo, importantes aliadas para oferecer um ensino mais personalizado, especialmente na gestão de diferentes trilhas de aprendizagem e no monitoramento do desenvolvimento escolar dos estudantes, nesse novo momento, e dão o tom do pós pandemia.

Muitos, e não são poucos, salientam que devemos ver o ensino híbrido como uma oportunidade, e não como uma ameaça, pois ele vai, por exemplo, nos permitir colocar em prática o conceito do aluno em tempo integral. Por meio dele poderemos estimular educandos a estudarem por meio de metodologias ativas, como projetos, resolução de problemas e jogos, para que aprendam e se desenvolvam de forma plena, indo além dos aspectos cognitivos, e potencializando suas habilidades e competências socioemocionais.

O desafio é pedagógico sim, mas também de Direito que possamos ter as novas ferramentas disponíveis para as todas as classes de alunos, sem o qual a evasão explode e com o tempo aumenta o fosso social e alimenta a violência, nos lares das pessoas mais frágeis.

O Direito a Educação boa e de qualidade é uma garantia prevista na Constituição Federal, e não importa se em tempos normais ou de pandemia, pois a situação só amplia o desafio mas não muda a missão.

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