EMPRESAS, NEGOCIOS E DIAMANTES. ONDE FICA A ETERNIDADE?

Empresas são casamentos perfeitos até o dia que deixam de funcionar, seja por não se atualizarem, ou por deixarem de escutar seus consumidores e colaboradores, e as coincidências não param por aí.

Na dinâmica do capitalismo, a competição e a transformação são a regra, veja qualquer gráfico que represente anualmente as maiores empresas do mundo nos últimos 50 anos e identifique as mudanças de valores na modificação da economia, que vai dos gigantes do aço aos gigantes de tecnologia, a mudança valorativa sempre vai encontrar um meio termo entre o caixa gerado e o fluxo de caixa projetado para exercícios futuros.

O tempo do empresário identificar as mudanças sempre será proporcional ao atraso do seu negócio, ao ponto que ele pode deixar de existir, de tão distante.

No universo digital, gigantes estão competindo com startups, algo impensável a 20 anos no universo das montadoras ou das grandes fundições e bancos, o que serve como divisor de águas entre a velha e a nova economia.

Na nova plataforma de internet, a inteligência artificial será incorporada, e é provável que líderes como Jobs, Gates ou Jeff Bezzos não tenham o mesmo espaço em universo de produção colaborativa, porém a necessidade de se planejar o futuro do seu negócio vai permanecer.

Na nova economia, mesmo em seguimentos, como metaverso, inteligência artificial e realidade aumentada, são explorados por gigantes como Facebook, existe um espaço paralelo para startups bem menores do que esses dinossauros, e ele vem sendo aproveitado.

A dinâmica do capitalismo, obriga a reinvenção permanente, onde “tudo que é solido se desmancha no ar” e novas formas de negócio, produtos e serviços nascem permanentemente, e podem e precisam ser redesenhada na briga pelo bolso do consumidor, na disputa por sua atenção. Na economia da atenção a disputa acirrada acaba pro produzir a desatenção, logo se investe muito mais em ações de marketing para tentar produzir o mesmo resultado de antes, afinal com o excesso de publicidade dos mais diversos canais a “desatenção” tomou conta do consumidor.

As redes sociais deram novo peso as reputações de serviços, produtos e aos seus líderes, e isso é um novo desafio no plano sucessório das empresas, que nunca foram eternas, assim como seus produtos e serviços.

Em outubro de 2020, uma reportagem de Guilherme Guerra Romani, no jornal estadão, refletia sobre o papel de novos líderes como Jobs: “sua personalidade costumava machucar pessoas ao seu redor. Ele era obcecado pelos detalhes de suas criações, mas chegava a mentir, a blefar ou a ser abusivo com funcionários, amigos e parentes para conseguir as coisas como queria……Temperamental, ele costumava se justificar da seguinte maneira: “Eu sou assim”. Mas não era só a língua afiada que poderia tornar Jobs um alvo dos “tribunais da internet”. Ele rejeitou publicamente a filha, afastou a Apple de questões políticas e sociais, minimizou condições trabalhistas na China e fez ameaças e acusações a rivais como Microsoft e Google.

Por ser direto e gostar do embate, é possível que o chefão da Apple não recuasse diante das críticas, um efeito comum do cancelamento das redes.

Afinal, Steve Jobs seria cancelado em 2021? Bem ser cancelado significaria um respeito ao tempo dele, que seria usado para outras coisas, bem mais produtivas eu tenho certeza. Afinal ignorar a opinião alheia talvez fosse um dos pontos fortes do executivo, que, ao contrário de muitos colegas em empresas rivais, orgulhava-se de não aplicar pesquisas de mercado para entender o que queriam os clientes. Uma de suas frases mais famosas é: “Os consumidores não sabem o que querem até que mostremos a eles”.

Ser ignorante à opinião alheia poderia não fazer tanta diferença para Jobs em termos pessoais. Mas seus comportamentos poderiam reverberar na Apple, criada em 1976.

Nos tempos atuais, esse fenômeno tem consequências diferentes. Imaginar Steve Jobs em 2021 significa que a sua vida pessoal seria um fator de peso para que consumidores optassem por um iPhone. Poderia ser desenterrada a história, nos anos 1970, de que Jobs escondeu do amigo Steve Wozniak um bônus financeiro conjunto da Atari, onde trabalharam até fundarem a Apple Jobs pegou a grana toda para si, nessas horas onde anda o compliance corporativo?.

O pior dos casos, porém, talvez tenha sido a demora em reconhecer a paternidade de sua primeira filha, Lisa, nascida em 1978, quando ele tinha 23 anos. É obvio que sendo um ser em permanente transformação ele já teria se atentado ao peso das redes sociais na opinião pública, ou você acha que a escolha de Tim Cook foi aleatória?

Nesses 10 anos, além de lançar um relógio inteligente e fones de ouvido sem fio, a Apple tornou-se porta-voz das minorias, defendendo em público o movimento Vidas Negras Importam, promovendo a igualdade de gênero e se manifestando contra projetos de lei que minem a diversidade sexual. Na gestão anterior, esses assuntos não tomavam tempo das apresentações de Jobs.

Animal extinto. A postura controversa, combativa e temperamental parece ter sido extinta com a morte de Steve Jobs, pelo menos entre os líderes das principais companhias de tecnologia do mundo. Hoje, elas se blindam para evitar críticas, afinal reputações importam na defesa de produtos e serviços.

A necessidade de se atualizar é permanente, mesmo em empresas de tecnologia, que no caso dessas as vítimas surgem com velocidade ainda maior, com valores de mercado que nem de longe podem refletir seu apogeu, como é o caso da Aol, HP ou Kodak, mesmo elas jamais podem ignorar a rapidez com que o capitalismo pode dobrar os gigantes.

O domínio das empresas de tecnologia dos EUA na liderança do ranking das 10 maiores do mundo em valor de mercado deve se manter por alguns anos, sendo que as posições que forem perdidas o serão para outras empresas de tecnologia, notadamente chinesas.

Os inúmeros analistas que acompanham as big techs (Alphabet, Amazon e Microsoft. Apple e Facebook), vivem demonstrando o descolamento do valor dessas empresas do reto da economia no mundo.

Sendo plataformas de Internet, conceito distinto das primeiras grandes empresas de tecnologia, elas capturam clientes e reforçam seu controle sobre a economia em uma velocidade, sem precedentes “na história do capitalismo”.

Se pesquisarmos os dados de 1970, ficará evidenciado que as empresas que terminaram uma década no top 10 tiveram lucros médios de cerca de 330% ao longo dessa década, e suas ações superaram a média de mercado em mais de 230%. Algo semelhante aconteceu com as 10 maiores empresas da década de 2010: os lucros subiram 350% e suas ações superaram o mercado em 330%.

No final da década de 2010, os 10 primeiros representavam 16% do valor de mercado mundial, semelhante à participação dos 10 melhores no final dos anos 70 e 90.

Lembro que há uma década Amazon e Facebook não estavam entre as 100 maiores empresas do mundo por valor de mercado, contudo a sua ascensão meteórica também não é tão extraordinária. Em média, as empresas que chegam ao top 10 sobem cerca de 75 posições em uma década para chegar lá, e depois desaparecem.

Desde 1970, as empresas que terminaram uma década no top 10 global tiveram menos de uma chance em cinco de terminar a década seguinte nessas posições. As companhias petrolíferas dominaram a lista na década de 70, seguidas pelos bancos japoneses na década de 80. Nomes de técnicos chegaram ao topo nos anos 90, mas o elenco continua mudando.

Segundo reportagem do Financial Times, apenas duas empresas de tecnologia europeias, Deutsche Telekom e Nokia, entraram no top 10, tornando-se parte desse clube durante a década de 1990 antes de entrar em ação. Apenas uma empresa, a Microsoft, se reinventou o suficiente para permanecer no top 10 do clube por três décadas.

No geral, grandes empresas se tornam difíceis de gerenciar, e por isso, acabam perdendo identidade com o público, e por decorrência perdem a preferência, e assim dão terreno a rivais mais ágeis, isso sem falar nas empresas que não se preparam para a sucessão do seu acionista criador.

A Apple é sem dúvida uma referência para se pensar nos tempos atuais o planejamento sucessório das empresas, notadamente das empresas de tecnologia. Pois Jobs, além de ser a principal força criativa da Apple, foi também um visionário, que profetizou as maiores mudanças tecnológicas do início do século XXI.

A morte dele em 5 de outubro de 2011, como resultado de uma parada respiratória derivada das metástases do câncer de pâncreas que havia sido diagnosticado oito anos antes, deixou todos atordoados.

Steve Jobs profetizou com seus conceitos, serviços e produtos, o que estava por vir no universo tecnológico, que hoje modificam as nossas vidas, e que na época a maioria de nós não tinha a dimensão do alcance e da velocidade, o conceito de plataforma, que virou a referência de negócio para as big techs é o seu melhor exemplo.

Em um discurso na Conferência Internacional de Design de 1983, quando mesmo computadores pessoais mal haviam penetrado na maioria das casas, Jobs já explicava que sua ideia era trabalhar para “colocar em um livro um computador incrivelmente poderoso que pode ser levado onde quer que se vá e que possa ser aprendido a usar em vinte minutos”.

Vinte e quatro anos depois, a empresa que ele dirigia mostrou pela primeira vez um telefone iPhone em público; e três anos depois, o primeiro tablet iPad.

Uma das coisas que mais me chamou atenção do museu de arte moderna foi encontrar um iPod na entrada do museu como referência de arte moderna, e isso foi a mais de 15 anos.

Com seus recursos inovadores e design impecável, tanto o iPhone quanto o iPad foram os dispositivos que abriram caminho para dois novos mercados, smartphones e tablets.

O que aumenta a importância do líder na Apple e em outras empresas pode ser resumido na reflexão de referência, pois é bem difícil prever se essas duas revoluções teriam acontecido da mesma forma sem a iniciativa da empresa de Jobs, o líder impulsionando suas equipes.

Lembro que os smartphones, por exemplo, já eram uma realidade incipiente antes do iPhone, Palms e Blackberry já eram as referências antes de Jobs apresentar seus conceitos, e onde eles estão hoje?

O tempo impõe permanentes desafios para os líderes, mais do que visionários eles e as empresas que criam são postos a prova em novos desafios, sejam eles tecnológicos ou regulatórios.

Vejamos o caso da China onde se demonstrou como a rapidez de um ataque regulatório pode derrubar gigantes corporativos e tirar o Alibaba, um dos seus, do top 10 global. E se isso se repetir no resto do mundo aos gigantes de tecnologia e seu questionável exercício de oligopólio e de monopólio?

O exercício permanente para melhoria de produtos e serviços depende também de arranjos societários que deem tranquilidade a empresa, onde a sucessão e o cuidado com ela seja um horizonte permanente. Afinal com o tempo aprendemos que “só os diamantes são eternos.”

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