ELIZABETH HOLMES E O COMPLIANCE NO MERCADO DE CAPITAIS

As desventuras vividas nos últimos tempos, com esse esperado fim, nos obrigam a refletir sobre o compliance nos investimentos, pois sempre é bom lembrar que a acusada e condenada por fraude, já foi glorificada pela mídia há algum tempo como o arquétipo de uma empreendedora bem sucedida, no contexto de ser uma referência para todos empreendedores. No típico “tudo é até deixar de ser”.

Sua empresa, a Theranos, foi desde o início, uma ideia pouco crível, ainda que o lirismo da história, de “uma fundadora que deixa Stanford sem se formar para montar a empresa, um clichê pra lá de usual na economia digital, e que nos remete a muitas das empresas que estamos assistindo e em muitos casos aplaudindo. Afinal em tempos de extremos, e mesmo fora deles o que não faltam são histórias de “heróis e mitos” que venceram enfrentando os modelos tradicionais, os internautas adoram isso, ao ponto de ficarem cegos para os fatos e evidências.

Como um filme que se repete, Holmes, em tempos de valuation pouco confiáveis, criou a história, com uma considerável dose de marketing, das empresas que vendem a pele do urso antes de caçá-la, e logo, investidores poderosos, assessores de mídia, anúncios de acordos grandiloquentes, todos os ingredientes de uma nova história de sucesso, como muitas que o mercado de capitais está acostumado. Contudo a premissa fundamental sobre a qual a empresa foi construída, a capacidade de obter uma análise completa e precisa de apenas uma gota de sangue, era falsa.

Que testes complexos não podem ser obtidos quase imediatamente e a partir de uma gota de sangue é algo que qualquer técnico de laboratório sabe. Que você dedica uma empresa e o dinheiro de seus investidores para projetar máquinas que nunca funcionaram e você se dedica a vender o que eles fazem enquanto envia as amostras de sangue de seus clientes para laboratórios externos, ou mesmo inventando os resultados, é uma história de hipérbole, de industrialização da mentira, de fugir para a frente.

Caso tenha interesse nessa história com mais detalhes , recomendo o livro “Bad Blood”, de John Carreyrou, já com edição em português, o livro é um daqueles em que ao lê-lo percebemos as inúmeras coincidências na tipologia da “crónica de uma morte anunciada” onde a vida parece imitar a arte, num roteiro corporativo ainda que eu tenha utilizado um título de Gabu.

A história, e as formas em que o mercado de capitais foi “ludibriado” mais parece roteiro de um filme, daqueles que descrevem situações tão insanas, que você parece estar lendo um romance e não a narrativa de um escândalo corporativo onde o Compliance parece ter dormido em berço esplêndido no leito da conivência de agentes financeiros e investidores gananciosos.

Holmes, fundadora e CEO da Theranos, em meados de 2014, era tida como a versão feminina do criador da Apple, Steve Jobs, nada como a fé crista alimentada pelo oportunismo para ver reencarnações ou novos midas da economia digital. De forma resumida, o grande viés do trabalho de Holmes, era revolucionar a medicina com um “produto” capaz de agilizar os testes de sangue, bem como capaz de torná-los mais eficazes. Seu produto, não era um telefone ou uma nova rede social, mas uma máquina, que contou com investidores como Larry Ellison e Tim Draper, a típica receita de bolo onde pessoas de sucesso emprestam seu currículo para dar credibilidade ao novo negócio. Em função de tanto sucesso, a Theranos levantou fundos, vendendo ações e, rapidamente já havia valorizado em mais de 9 bilhões de dólares. Sua fundadora, em completa ascensão, passou a “valer” 4,7 bilhões de dólares.

Mas como, “nem tudo que reluz é ouro …”, John Carreyrou um escritor franco-americano que estudou ciência política, e que foi por muitos anos jornalista no The Wall Street Journal, começou através da sua cobertura a tratar em artigos, pra dizer que nem tudo ia bem, o que lhe rendeu diversas ameaças de Elizabeth Holmes, algo bem comum em tempos que odiamos o carteiro que nos traz as péssimas notícias.

Em seu livro foi relatado até uma visita de Biden, em 2015, quando ele ainda não era presidente ao laboratório da empresa. Sendo que naquela ocasião, ao ver as diversas fileiras de equipamentos, que impressionavam qualquer leigo, declarou que o lugar parecia ser “o laboratório do futuro”.

Ocorre que o tal equipamento “revolucionário”, que prometia mudar a medicina radicalmente, batizado de Edison seria capaz de, por meio de uma única picada de agulha e com no máximo duas gotas de sangue, realizar mais de 200 exames de sangue, por um preço inferior a 3 dólares. Tudo isso, com resultados imediatos. Tudo com muita facilidade e eficiência. Inclusive, Holmes dizia que seria possível levar esse conceito até as casas das pessoas. Tente imaginar os tradicionais laboratóriso de análise o que pensavam dessa ideéia, logo é claro quando os cientistas se opunham a esse conceito, o que não faltavam eram delirantes amantes da teoria da conspiração pra dizer que o interesse desses cientistas era financiado pelas granes corporações, qualquer semelhança com a indicação de vermífugos para o combate a Covid, não é mera coincidência, a ignorância e a boa fé são pratos cheios para as manipulações de qualquer mercado, país ou segmento.

Assim como o combate a Covid não existe por milagres, cientificamente, essa ideia parecia ser “impossível”, mas mesmo assim a ganancia por vezes cega alguns, e dessa maneira Holmes conseguiu inúmeros investidores, o que fez com que sua empresa chega-se a ser avaliada em US$ 9 bilhões.

O legal é que tudo isso ainda vinha embalado em um discurso humanitário, bonito né, mais uma semelhança com as soluções fantasiosas, espalhadas por Fake News, onde a simplicidade parece vencer os inúmeros séculos de pesquisa.

Ah, não podemos esquecer seu discurso humanitário, afinal, ela sabia que precisaria de um bom motivo para conseguir atrair tantos olhares. Nos dizeres de Elizabeth Holmes: “Um diagnóstico rápido e preciso é essencial para prolongar a vida, e meu objetivo é permitir que isso aconteça de maneira acessível e barata”.

Lembro que grandes golpes parecem seguir uma receita de bolo, e logo com grandes investidores se juntam profissionais de sucesso em outras empresas de tecnologia, e foi assim também quando Holmes, traz Kemp, ex-executivo da IBM, que em 2006 passou a ser o responsável pelo departamento de bioinformática da Theranos.

Com apenas 22 anos, comandando uma startup com apenas três anos de idade, ela já conseguia juntar investidores e executivos com currículos invejáveis. Além de Kemp, veio também Henry Mosley, que virou diretor financeiro da Theranos que era muito experiente na área tecnológica, sobretudo no Vale do Silício, um ingrediente perfeito para atrair mais investidores. Afinal ele já havia passado pela Intel outras grandes empresas do Vale do Silício.

O livro junta uma série de bons profissionais que deram um bom verniz farsa, que foi bem até 2015, que curiosamente como uma bicicleta se sustentava, pois ainda que Holmes abrigava delírios de grandeza, ela não conseguia lidar com as realidades confusas da bioengenharia. Dentro dessa receita de sucesso das empresas do vale do silício não faltavam comparações dela com Steve Jobs, e claro como muitos outros desse setor, Jobs vira uma espécie de entidade espiritual que muitos imitam até na forma de falar ou de se vestir, veja na foto do artigo.

Mistérios e contratos secretos que não existiam de fato, alimentavam o imaginário dos investidores na indústria de boatos, que alimentam as mentiras na economia digital, e que o compliance um dia nos livre desse mal. O fato é que Holmes se gabava de contratos misteriosos com empresas farmacêuticas que nunca pareciam estar disponíveis para visualização, como destaca o autor do livro. Sem falar de quando ela disse que o Exército dos Estados Unidos estava usando seus dispositivos no campo de batalha e no Afeganistão. Pura ficção!

Aos poucos, Mosley notou que havia algo de muito errado nisso tudo e decidiu pressionar alguns dos funcionários. Foi quando, Tyler Schultz, um dos funcionários revelou que, “nem sempre” os exames realizados por Holmes funcionavam. O que para o executivo era novidade!

Preocupado com a repercussão, e em estar fazendo parte de uma grande farsa, Mosley quis saber mais sobre o “problema.” Tyler Schultz explicou que: “A imagem no monitor que mostrava o sangue passando pelo cartucho para os pequenos compartimentos do leitor era real. Mas nunca sabíamos se obteríamos um resultado ou não. Então, eles gravaram um resultado em uma das vezes que o sistema funcionou. Esse resultado gravado é que era apresentado ao final de cada demonstração.””Ou seja o resultado era sempre fake.

Depis de diversas denúncias, em 2015, Carreyrou, que já vinha investigando a empresa, afinal se a Theranos era tão incrível, como poderia depender de outras empresas “tradicionais” para funcionar em coisas simples? Em meio a muitas ameaças vindas dos advogados de Holmes, Carreyrou, publicou sua reportagem na primeira página do Wall Street Journal, o que só aumenta a importância do jornalismo investigativo na defesa da sociedade e nesse caso também dos minoritários ludibriados. Iniciava ali a destruição de uma farsa, com os primeiros passos da decorada da executiva celebridade. Curiosamente para provar a farsa, o próprio Carreyrou fez exames no Theranos Wellness Centers, para comparar os resultados com a análise de um outro laboratório. Como resultado, pode-se notar uma grande diferença entre os dois. O problema maior foi quando muitos dos clientes, começaram a relatar que correram risco de morte, por conta dos resultados dos exames. Muitos exames apontavam para doenças inexistentes, enquanto outros, ignoravam doenças reais que poderiam ser letais se não tratadas em tempo. E claro a onda de processos fez o caminho natural de destruir a empresa.

Pensar que Elizabeth Holmes, acreditava genuinamente que seus problemas seriam resolvidos requer justificar uma fé cega e claramente injustificada, ou um distúrbio mental mitomaníaco. Argumentar que Theranos foi uma tentativa de explorar as economias de escala ou aprender que empresas bem projetadas podem gerar ao longo do tempo é não entender até que ponto um sistema como o Vale do Silício ou como ambientes empreendedores em geral podem ser.

A grande maioria dos empreendedores não são “vendedores de fumaça” ou “caçadores de subsídios”, embora possa haver, e embora também fatores externos ou de competência na condução do processo podem mudar o resultado.

A grande maioria dos empreendedores, não engana seus acionistas ou seus clientes, pois tendem a pensar no longo prazo, embora muitos acabem vendendo sua empresa quando consideram que seu ciclo foi cumprido ou surge uma oportunidade interessante para isso.

A condenação por fraude de Elizabeth Holmes, ex-CEO da Theranos, anunciada nesta semana, pode significar mais do que apenas enviar uma famosa ex-bilionária à prisão. Em teoria, também poderia passar uma mensagem preocupante para uma cultura do Vale do Silício que costuma se perder na própria arrogância e presunção. Será? É melhor esperar sentado por isso.

Enquanto isso, os capitalistas de risco e outros investidores em startups precisariam ficar muito mais desconfiados em relação às propostas ambiciosas que escutam, apesar do hábito de décadas do Vale do Silício de injetar dinheiro em uma variedade de ideias vagas. A maioria fracassa, mas os raros casos bem sucedidos podem mais do que compensar uma série de perdas.

Os promotores federais descreveram Elizabeth como uma charlatã obcecada por fama e fortuna.

Nos sete dias em que depôs, ela se definiu como uma pioneira visionária em um Vale do Silício dominado por homens, assim como uma jovem abusada emocional e sexualmente pelo ex-namorado e parceiro de negócios, Sunny Balwani, como bem destacou uma recente reportagem do estadão.

Otimismo exagerado O lema ‘finja até conseguir’ é um hábito que ajudou a criar gigantes inovadoras como Google e Apple.

Por vezes a conivência e a boa vontade em exagero cria distorções e como consequência prejuízos aos investidores dessas empresas. O compliance precisa ser aperfeiçoado constantemente, mas ele não é suficiente para abrir os olhos daqueles que não querem ver.

(Artigo pubicado no site www.jusbrasil.com.br em 10 de Janeiro de 2022).

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