DIETA DIGITAL NA ECONOMIA DA DESATENÇÃO

Quantas horas do seu dia você passa olhando seu celular, seja nas redes sociais ou vendo as notícias? Quantas são as vezes por dia que você pega ele pra saber das novas mensagens do grupos?

Essa medida de tempo dedicada aos meios digitais, sejam eles celulares, tablets, computadores, notebooks ou vídeo games, ou plataformas de streaming de vídeos ou músicas, que dão a dimensão da importância da sua atenção.

É justamente essa corrida pela sua atenção que as grandes plataformas lideram, é por isso que elas ditam os padrões da nova economia. Onde todos disputam a sua atenção para converter seu tempo na leitura de novos anúncios, que possam converter em vendas para os patrocinadores.

Logo sabendo da sua dedicação a esses eletrônicos, quanto da sua vida os designs milimetricamente pensados na retenção da sua atenção podem consumir? Quanto tempo você pode se desconectar?

Quanto da sua atenção, seus filhos e amigos perdem da sua atenção quando você opta por fixar seu olhara para essas telas?

Estamos criando uma sociedade de viciados em telas, infelizmente não em livros. Pessoas que trocam a atenção dos seus amados por qualquer coisa que pouco tempo depois nem se lembram do que era, afinal na disputa pela sua atenção, todo esse conteúdo produz apenas desatenção.

O desconectar-se implica em ressignificar seu tempo, sua atenção o seu foco. Vejamos o caso dos e-mails e mensagens, afinal seria mais fácil lidar com isso se conseguíssemos deixá-los de lado, afinal quantas são realmente importantes?

Tente ficar algumas horas ou até dias (nos fins de semana), porém, em detrimento da produtividade e do bem-estar, não conseguimos deixar de responder a novos e-mails assim que chegam. Quanto tempo você acha que um e-mail normal de trabalho fica sem ser lido? Segundo pesquisas, em média, apenas seis segundos. Na realidade, 70% dos e-mails no escritório são lidos seis segundos após chegarem.

Seis segundos é menos tempo do que você levou para ler este parágrafo até aqui, mas é tempo o bastante para o trabalhador médio interromper o que estiver fazendo, abrir sua caixa de correio eletrônico e clicar no e-mail que chegou. Isso é imensamente prejudicial: segundo uma estimativa, leva mais de 25 minutos para a pessoa voltar a se concentrar numa tarefa interrompida. Se abrir apenas 25 e-mails diariamente, a intervalos regulares ao longo do dia, você terá passado literalmente nenhum tempo na zona de máxima produtividade.

A solução é desabilitar a notificação de novos e-mails e checar sua caixa com menos frequência, mas a maioria das pessoas não faz isso. Muitos perseguem a meta implacável conhecida como Inbox Zero, que exige processar e arquivar cada e-mail não lido assim que chega, como sugere Adam Alter no seu livro ” Irresistível: Por que você é viciado em tecnologia e como lidar com ela”.

Cada vez mais essas bolinhas indicando a chegada de e-mails e mensagens funcionam como verdadeiros zumbis, você não para de matá-los e eles não param de aparecer. O Inbox Zero também explica por que as pessoas passam um quarto de seu dia no escritório lidando com e-mails e por que verificam sua caixa de entrada, em média, 36 vezes por hora. Em um estudo, os pesquisadores descobriram que 45% dos entrevistados associavam e-mail com “perda de controle”. Isso numa forma de comunicação que mal existia até o século XXI”.

A pandemia exacerbou as preocupações dos pais com a tecnologia, particularmente porque ela quebrou limites que eles haviam defendido anteriormente, e isso tem levado muitas pessoas a repensarem sua relação.

Tecnologias são desenvolvidas, popularizadas, usamos, nos adaptamos a elas, ponto final. A espécie humana é diferenciada por sua capacidade de se adaptar às mudanças no ambiente, razão pela qual se tornou a colonizadora mais eficiente do planeta, sem que possamos dizer, infelizmente, que essa circunstância tem sido positiva para o planeta. Se uma tecnologia nos dá algo que percebemos como um benefício, nós a adotamos e a usamos, o problema reside na dimensão desse uso, e na utilização sem ética alguma de designs que sejam viciantes, em prejuízo as nossas relações.

Se uma criança está à procura do smartphone em todas as horas e não desenvolve atividade física suficiente, se recusa a liberar o terminal durante a hora do jantar ou não dorme, você não tem uma criança “viciada” ou “demente”: você simplesmente tem uma criança mal-educada. Educá-lo em condições, com tudo o que implica (ninguém disse que era fácil!), e parar de usar o recurso fácil de culpar a tecnologia.

De fato, aparentemente, como destaca um artigo no The Guardian, carregamos nossos celulares tal qual “caracóis” carregam sua casa nas costas, e logo se tornaram inseparáveis “parceiros”.
Uma comparação bastante muito apropriada considerando a gama de usos que realizamos em nossos dispositivos, e a sensação de familiaridade gerada por nossas configurações específicas, desde os aplicativos que instalamos, até sua localização nas diferentes telas ou pastas, a organização de nossos dados.

Toda essa configuração pessoal faz desses celulares a nossa casa digital, onde passamos uma parte considerável do nosso tempo, gerando mais dados para serem utilizados pelos algoritmos das plataformas e devolvidos para nossas telas no aperfeiçoamento da experiência do usuário para captar mais dados e mais tempo, na lógica da economia da atenção (desatenção).

Devemos pensar nos nossos aparelhos como nossa casa digital, e nela criamos os nossos limites, e os limites dos nossos filhos, seja pela educação dos mesmos, ou pelos limites necessários a generosa exposição de riscos e o uso intenso desses aparelhos provoca, principalmente no descuidado tratamento dos nossos dados.

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