DESEMPREGADO, O NOVO EMPRESÁRIO NA ECONOMIA DIGITAL

Dizem os otimistas que a dificuldade é a mãe da criatividade, e é dessa forma que muitos estão vendo de maneira ingênua a criação de 4 milhões de novos negócios em 2021, que reflete a abertura de MEIs por trabalhadores que, sem vaga com carteira, empreendem por necessidade.

Nunca houve tanta empresa nova no País como em 2021, são mais de 4 milhões de companhias que foram abertas no ano passado, um recorde da série iniciada em 1931, revelado pelo Mapa de Empresas do Ministério da Economia, o que representa um avanço de 20% em relação ao resultado de 2020.

Ao contrário do que poderia parecer, que em breve teríamos milhares de Steve Jobs na garagem de suas casas, muito pelo contrário pois o cnae das atividades desses empreendedores revela uma outra realidade. Com a escassa oferta do mercado formal de trabalho, e com taxas de desemprego que desde 2016 ficam acima dos 10% segundo o IBGE, o que estamos assistindo é o que chamamos de pejotização da mão de obra, para criação de empreendedores da economia compartilhada, o que representa as poucas possibilidades de geração de renda dessa economia da desatenção, que faz do tempo e dos dados de todos o seu negócio.

Nesse momento o Brasil possui, números recordes, com 12,5 milhões de trabalhadores no setor privado sem carteira e de 25 milhões em atividades por conta própria, os nossos empreendedores da necessidade.

De cada 10 empresas que iniciaram atividades em 2021, quase oito foram de Microempreendedores Individuais (MEIs). Em 2021, os MEIs, que podem faturar até R$ 81 mil, somaram 3,2 milhões de novas empresas, segundo a Serasa.

É preciso um redesenho na formação de novas posições de trabalho, com cursos rápidos e com grade de disciplinas atuais.

Lembro que um estudo feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou que o Brasil é o país em que terminar o Ensino Superior garante a maior vantagem salarial em relação ao Ensino Médio completo e ao incompleto, entre 37 nações avaliadas, uma remuneração em média 144% maior.

Porém deve-se destacar que apenas 21% da população entre 25 e 34 anos termina o Ensino Superior, e a escassez de profissionais é justamente a grande causa da valorização: com dificuldade de conseguir profissionais mais qualificados, as empresas remuneram muito bem aqueles que encontram, uma aberração que apenas alimenta a desigualdade.

Uma solução paliativa para esse complexo quebra-cabeça de harmonização entre disrupção e desenvolvimento social é uma proposta que tem sido defendida por grandes nomes do empreendedorismo no Vale do Silício, como Mark Zuckerberg, do Facebook, e Elon Musk, da Tesla Motors: a renda mínima. Seria uma garantia de renda para as pessoas mais vulneráveis, com menor nível de escolaridade, cujos postos de trabalho foram extintos.

São vários os motivos que podem fazer dessa uma alternativa para enfrentar as mudanças que estamos vivendo, mas em cada país o tema precisa ser discutido, explorado com mais profundidade e sem paixões partidárias.

No debate global, os defensores da ideia alegam que o benefício contribuiria para a redução da desigualdade, trazendo equilíbrio para o processo de automação do trabalho, algo defendido por Antonio Salvador, Daniel Castello, no seu livro “Transformação Digital: Uma jornada que vai muito além da tecnologia”, e que já defendemos aqui, a necessidade de uma renda mínima para esses desafortunados, desde que sigam os programas de realocamento no mercado de trabalho, ou seja uma assistência social sim, mas por um período para os que dispõe de saúde se reposicionarem.

É um dever de toda sociedade gerar novas posições de trabalho, e a tecnologia que desemprega pode ser uma grande aliada na recapacitação, seja em cursos à distância ou na identificação de novas vagas e funções.

Agregar valor a mão de obra implica em refazer a base curricular dos nossos jovens e ao mesmo tempo reciclar a mão de obra disponível do mercado. Caso contrário, vamos continuar assistindo o que já ocorre hoje, onde os novos empresários trabalham em jornadas de 10 a 14 horas por dia, para tentar ter uma remuneração próxima dos seus empregos anteriores, dirigindo carros ou fazendo entregas.

Uma análise tendo como base os entregadores cadastrados no iFood, demostrou que o novo perfil do trabalhador/empreendedor, é de pessoas que querem trabalhar em uma empresa em regime CLT, mas foram demitidas e precisam de renda. Outras eram pequenos empreendedores que faliram e estão no aplicativo ganhando algum dinheiro enquanto se preparam para um novo negócio.

A maioria trabalha de maneira intermitente, algumas horas por dia ou por semana, porque está dividindo seu tempo entre vários aplicativos semelhantes ou com outras fontes de renda, outros trabalham durante um período, param e retornam meses depois ou não voltam mais.
Compreender esse futuro é requisito para pequenas intervenções no desenho dele, pois ele é para poucos, é desigual e exige ajustes para que não sejamos atropelados.

Em sua obra, O capital no século XXI, o economista francês Thomas Piketty analisou a crescente disparidade de posses entre uma minoria de muito ricos e o resto do mundo. Nos Estados Unidos, em 2014, o 0,01% mais rico, que consiste em apenas 16 mil famílias, controlava 11,2% de toda riqueza, o que pode ser comparado a 1916, época da maior desigualdade mundial. Hoje o mesmo 0,1% detêm cerca de 22% da riqueza total, o mesmo que 90% de toda população na base da pirâmide.

Na verdade, a tecnologia é a condutora elementar da desigualdade em vários setores. O progresso implacável da automação, de caixas de supermercado a algoritmos de transação financeira, de robôs em fábricas a carros com direção automática, cada vez mais ameaça a empregabilidade humana no panorama geral.

Não existe rede de segurança para aqueles cujas habilidades são obsoletadas pelas máquinas, e nem aqueles que programam as máquinas estão imunes. Conforme a capacidade maquinal cresce, mais e mais profissões ficam sob ataque, e a inteligência artificial incrementa esse processo irreversível.

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