DANE-SE, MELPÔMENE E O CULTO AO SOFRIMENTO DAS REDES SOCIAIS

Ícones em nossas telas de celulares sempre podem nos remeter ao simbolismo das nove musas. Elas conectavam o divino ao histórico  procurando dar sentido ao mundo, com elaboração estética, cantando e dançando, transmitindo imagens que aguçavam os sentidos. E assim seguimos na história cultuando imagens, mesmo que sejam elas a reprodução do sofrimento eterno.

Afinal, mesmo as musas do sofrimento parecem guardar uma porção de heroísmo, ainda que na ambiguidade de mentira e verdade do canto dessas musas a historicidade da narrativa nos leva a acreditar, mesmo com o avançar das tecnologias, que o homem precisa também devotar o sofrimento, ou não? E logo no teatro dos nossos avatares das redes sociais sempre haverá os que escolhem o sofrimento, a vitimização, os donos das dores do mundo como narrativa da sua vida, ainda que seja um simulacro dos seus reais problemas não enfrentados. Assim a plateia de audiência das redes sociais aplaude o sofrimento, com curtidas e comentários despropositados, acreditando nas narrativas de suas musas, sejam elas do sofrimento ou da vaidade. Mudam-se os anos e os humanos permanecem apaixonados por musas.

O que me faz comentar sobre a importância de uma característica humana no processo de aprendizado de máquina, em particular tratada na obra “O Caminhar da Inteligência Artificial: Um olhar para a reprodução do modelo humano e os aspectos comparáveis das pessoas com as máquinas” de Carlos Henrique Ribeiro Fernandes, que trata da neuroplasticidade.

“A neuroplasticidade ou também plasticidade neuronal é o nome dado à capacidade que nosso sistema nervoso tem de mudar e se adaptar na dinâmica de eventos. Quer dizer que o nosso cérebro é capaz de se modificar no decorrer da nossa vida, de reinterpretar e ser flexível sobre o que antes incomodava ou nos fazia intolerantes e receosos. É uma propriedade que se observa como algo precioso, porque nosso sistema pode reinventar uma forma de lidar com o que foi doloroso e traumático em nossas vidas, o que nos levaria a uma espécie de cura na convivência diária. É em nosso cérebro que reside a maior complexidade do ser humano, que nos permite processar o que vem de nossos sensores (ouvimos, sentimos, vemos etc.) e coordena tudo de maneira integral. As ações humanas podem ser feitas sem que haja um comando consciente para fazer isso, mas como reação natural do sistema nervoso. A neuroplasticidade entra em ação mais efetivamente quando passamos por algo que exige que continuemos dando passos e superemos situações que jamais desejamos que tivessem acontecido. Se imaginássemos uma estrada interrompida, um vetor que não pode ser percorrido, a neuroplasticidade seria uma ponte para que o indivíduo possa pular e deixar para trás o que não pode resolver. Antes de entrar em ação, logo após o trauma que uma pessoa passou, a neuroplasticidade aguarda o período de resolução, das tentativas e do necessário sofrimento e lamentação que as vezes a situação pede, mas dali nascem os bloqueios do que não se pode contar e muitas vezes são apresentados novos possíveis caminhos ou a visão mais clara de novos subsídios. O reencontrar do indivíduo com o vetor que ainda percebe necessário (seguir em frente com as coisas) é promovido pela neuroplasticidade que pôde transformá-lo. Uma pessoa que ficou cega pode ampliar seus demais sensores como a audição e o tato, a percepção da distância pelo barulho, o sentimento do calor aumentando quando não há visão do fervor etc. A neuroplasticidade não é uma fuga, não é uma negação ao problema, mas permite que se alterem os caminhos como parte da adaptação à realidade que se observou. Algumas pessoas a percebem como fruto da maturidade e de fato é, mas não a maturidade no que tange exclusivamente à experiência de vida, mas pelo autoconhecimento sobre as reações que ocorrem no físico e que fortalecem a capacidade de aceitação de uma verdade imutável.” É ela que permite o aprendizado e o evoluir para novas experiências tendo sua referência no passado.

Pois a aprendizagem é promotora da neuroplasticidade, permitindo que as pessoas raciocinem sob outras hipóteses, e quando falamos de uma máquina, devemos considerar a capacidade de um sistema em reagir a impactos radicais na forma de processar, no modelo de instrução que servia ou até na forma de informar aos usuários.

O tempo todo em nossas redes de relacionamentos, físicos ou digitais, encontramos representantes legítimos de Melpômene, a musa que adorava sofrer.

Para esses, o sofrimento parece ser uma delícia, pois serve de caminhada, de construção narrativa, uma vitimização que os coloca no centro da narrativa, sempre como pobres coitados, desprezando o outro lado de cada ato, sejam ex-sócios, ex-namorados, ex-mulheres ou ex-maridos, o que vale para esses avatares das redes sociais é sempre se colocar no centro do sofrimento.

Adoro uma crónica do Leandro Karnal, sobre a nossa “musa do sofrimento”: “Você conhece a figura em questão: sempre está mal. Não importa a estação do ano ou o momento econômico: ela passa de uma dor a outra. Quase sempre existe uma morte em família. Aqui, surge uma crise afetiva;  ali, um drama médico e, acolá ,uma figura próxima lutando com um contratempo. Trata-se de alguém que pula de dor em dor, rega o solo com suas lágrimas e aumenta as nuvens com seus gemidos.

Todo ser humano conhece contratempos. … Sim, todos conheceram a dor, a revolta, o sofrimento e até o desespero. O trem da amargura já nos pegou em alguma estação biográfica, ….Melpômene, a musa grega da tragédia. Aprendi o nome na adolescência, lendo o Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. O germânico e excêntrico Dr. Winter chama uma personagem da saga por este apelido. A figura evocava-lhe a divina filha de Zeus que vive para o drama trágico, elevada e tomada de mortes.

Sabemos que um dos males contemporâneos é a chamada “positividade tóxica”, a necessidade de sempre estar bem e brilhando em fotos de redes sociais. É algo terrível e artificial, fruto de filtros e de um mercado que exige felicidade permanente. Em oposição, quase na contramão, abundam as Melpômenes. Você liga e o tom é sombrio, quando não lacrimoso. Acabou de ocorrer algo e a musa lhe narra por horas. Mal passa um luto e emerge um câncer; desaparece uma crise financeira e brota um adultério; afunda uma colina trágica e desponta um novo outeiro de dor. O mundo é um árido deserto sem oásis, males contínuos, desafios ingentes e derrotas inevitáveis.

Você conhece alguém assim? Alguém que possua um prazer secreto e vicioso em ser o permanente espelho da condição trágica da humanidade? Você se sente constrangido em narrar algo bom, porque há um torvelinho de lamúrias. Seria uma defesa ou uma maneira de chamar a atenção? Parece que sofrem, genuinamente, mas não existe refrigério ou pausa. Você tem dias de Tália, a entidade que preside a comédia. Sua amiga está no colo de Melpômene e desconhece tais liberalidades. Sua coroa é de cipreste, a árvore dos mortos e dos cemitérios. Como é musa, e musa trágica, canta sem cessar a dor perene do existir.

Há alguns dias, ouvindo uma amiga dessa estirpe, imaginei que era uma gramática específica. Não se tratava de um conteúdo de dor, todavia de uma expressão dolorosa. Ou seja, a tragédia era celebrada por ser superior, mais digna, cheia de atenção e temas que promoveriam como queria Aristóteles, a catarse do público. Em outras palavras, seriam pessoas que encontram sentido na chaga que sangra, na lágrima que cai e no suspiro que punge. Talvez fosse, pensei eu, uma forma estranha de felicidade, algo feito para comover os passantes que contemplariam aquele Prometeu atado à montanha e sofrendo com o ataque diário da ave medonha ao seu fígado. O ímã poderoso do sofrimento teria potencial cênico. Cênico sim, não cínico. Sofrem! É genuíno! Não fingem, apenas se viciaram no deleite da hemorragia aberta. Não são masoquistas, seriam, tão somente… Melpômenes e Melpômanos.

A dor comove. A felicidade é mais complexa. Assim, se cada musa trágica sente que algo vai bem, busca as dores próximas para incorporar as suas. Sabemos, diletíssima leitora e honorável leitor, que a felicidade liberta e a dor comove. Entre a liberdade do sorriso e o peso enorme da angústia, nossa entidade opta pelo que houver de mais apelativo. Sente prazer e vicia. O mundo oferece problemas constantes: comigo, na minha família, no Brasil ou em Bangladesh. Não faltam motivos para quem anela pelo suplício.

Confesso: já errei muito. Melpômene narra um problema e eu, ingênuo, ofereço muitas soluções. Ela se irrita! Não deseja soluções! Que falta de respeito com a dor alheia. Apenas ouça, recolhido e solidário, o rosário de mazelas. Não resolva nada! Não busque saídas! Apenas ouça e, de quando em vez, repita: “você é a pessoa que mais sofre no mundo”. Pronto! Ela sorri, aliviada. Recebeu seu aplauso e o mundo gostou da narrativa. Vai respirar fundo e, logo em seguida, barrar uma dor ainda mais medonha do que a anterior. Sofrer é uma delícia! Ser feliz? Um desafio grande e que obriga a pensar.”

E assim ela segue, musa do sofrimento, fazendo do compartilhamento da dor a pavimentação da sua estrada na vida, com curtidas e comentários dos solidários e também dos mais desavisados.

Por isso a pergunta é sempre pertinente, até onde algoritmos que regram a lógica comercial das redes sociais podem de forma legal regrar nossas relações pessoais?

É nesse culto ao sofrimento e nessa confusão de sentimentos que repousa o diabo das redes sociais, aquele que ao invés de nos aconselhar a conversar com quem verdadeiramente nos ama, nos leva a acreditar que a audiência de colegas, conhecidos e muitos desconhecidos pode de alguma forma nos ajudar.

Abrir-se ao diálogo fora das redes sociais, é o primeiro passo para uma reparação, devemos olhar para nós mesmos e entender o motivo de fazermos isso. Redimir-se poupa o desnecessário sofrimento alheio.

Agora se você se sente ofendido, ou injustiçado pela mágoa de outro, não revide, muito menos nas redes sociais, pois isso é como se jogar gasolina em um resquício de chama de um grande incêndio. Claramente a chama ganhará mais intensidade e tamanho e continuará a queimar de forma descontrolada.

Não existe fogueira mais descontrolada do que a pobreza de espírito que por muitas vezes habita as redes sociais, e isso só vai perpetuar ainda mais a mágoa do ressentido, ampliando-a para os mais próximos do magoado.

Infelizmente, algoritmos e grupos vão ajustando a nossa rede de forma cada vez mais homogênea, onde a mágoa atrai mais magoados e ressentidos, criando a nossa bolha de magoados.

Por isso: Dane-se Melpômene e os adoradores de sofrimento, a plateia dos que são solidários nas curtidas e comentários maldosos, mas que são incapazes de ligar e perguntar o que te aflige? O que te faz sofrer?

A solidariedade das redes sociais, pode ser cruel em sua superficialidade, como a da vida dos adoradores de sofrimento e da sua plateia de abutres nesse teatro das redes sociais.

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