DADOS: OS SENHORES DAS DECISÕES NA SOCIEDADE DA DESATENÇÃO

Todos certamente estamos cansados de ler sobre o valor dos dados na economia da “atenção”, afinal quanto mais dados mais personalizada fica a comunicação e a oferta, mas como se viram os canais de mídia tradicional que não dispõe da mesma quantidade de dados? E quem precisa de tantos dados?

A digitalização de nossas rotinas fez crescer o espaço dedicado ao armazenamento dos nossos dados, que vai desde os nossos registros pessoais até os dados das máquinas que nos servem e tem no uso, tratamento e estudo desses dados a possibilidade de conduzir as nossas escolhas futuras sobre a dedicação do nosso tempo, a aquisição de produtos e de serviços.

Logo alguns cursos, que estudam a engenharia humana ganham importância ímpar no redesenhar dessa economia que fatura com a sua atenção e a sua desatenção.

As empresas estão enfrentando uma mudança cultural que lhes permita extrair todo o valor de seus dados. O desenvolvimento de talentos é fundamental para alcançar o objetivo.

Os dados tornaram-se a verdadeira espinha dorsal que articula processos de tomada de decisão nas empresas. É um ativo estratégico para organizações que, graças ao uso de tecnologias como inteligência artificial e machine learning, podem aproveitar ao máximo seu potencial para obter maior eficiência operacional, melhorar a satisfação do cliente, aumentar o volume de negócios adicionais nas linhas atuais de negócios e até mesmo criar novos desenhos de negócios. Isso faz com que a diversidade de dados disponíveis, tanto em termos de origem quanto de volume, ganhe uma importância ímpar.

O tratamento de todos esses dados gerando novos dados pelo cruzamento desses mesmos faz com que a capacidade de armazenagem ganhe uma importância ímpar.

No entanto, esse cenário também faz com que a complexidade não pare de crescer para as empresas. Os processos de extração de valor são dificultados por diferentes razões e, portanto, novas tecnologias são a chave para aumentar a eficiência e otimizar o tratamento de grandes volumes de dados. Devido a essa natureza estratégica, há uma preocupação crescente de ter controle total sobre os dados e garantir sua proteção, custo e segurança, além do risco no vazamento e tratamento desses dados já regulados por diplomas como o RGPD e a nossa LGPD.

Por certo, o mundo está caminhando em uma direção onde cada vez mais fontes de informação enriquecem os dados, então há mais atores envolvidos e isso implica uma complexidade quando se trata de controlar ou proteger os dados. Até o momento, o problema fundamental é que na empresa não houve uma mudança cultural em torno dos dados. Esse salto requer investimentos que, até agora, se concentraram em tecnologia com pouco valor de negócio.”

Diariamente, empresas sejam elas públicas ou privadas, precisam entender que os dados são um ativo muito valioso para elas, e essa mudança cultural é uma das grandes questões pendentes para que as organizações extraiam todo o valor dos dados. O valor de um negócio, a cada dia será definido pela capacidade de extração e uso dos dados da sua operação.

Ainda que muitas empresas estejam conscientes do valor dos dados, muitas ainda não atendem às expectativas dos negócios, pois não é um problema tecnológico, mas um problema de gestão de mudanças.

É preciso passar de processos focados em reportar para processos mais holísticos e analíticos sobre as informações geradas internamente e os dados externos disponíveis. Ao mesmo tempo, o talento é outro dos grandes desafios, pois precisamos aumentar os esforços na formação de pessoas que ingressaram no mercado de trabalho, logo a requalificação e upskilling em organizações será fundamental.

Vejamos no setor público a quantidade de dados que são utilizados de forma repetitiva, o que seria resolvido pelo compartilhamento público de um só cadastro, com chaves de acessos para melhor controle dos dados sensíveis, para evitar vazamento ou tratamento e acesso de dados sensíveis por servidor sem autonomia e competência funcional para fazê-lo.

Devemos modernizar a gestão de dados e desenvolver um conceito de soberania integral. Os dados são o mais importante porque nos permitem articular todo o resto, a instrumentalização dessa soberania representa menores custos na gestão pública ou privada.

Um dos desafios é que, mesmo internamente, temos que quebrar os castelos porque precisamos das diferentes unidades para aprender a compartilhar dados e aproveitar essas capacidades, o que por si só já representa um enorme desafio. Pois muitos gestores trabalham com a lógica de “meus dados minha fortaleza” se esquecendo que o enriquecimento de dados se faz com o compartilhamento deles.

Por exemplo como planejar quantos espaços devemos deixar nos meios de transporte público sem ter conhecimento do número de usuários, do número de futuros usuários com a previsão de aposentadoria, do número qualificado desses usuários, onde moram e para onde vão após aposentados entre tantos outros dados que podem ser base para o planejamento e redução de custos com um banco de dados mais qualificado.

Pense na administração pública projetando uma nova escola ou um novo posto de saúde sem um robusto e qualificado banco de dados?

Por sua vez, precisamos nesse processo de integração do comprometimento em ter regras claras, impostas pelo proprietário dos dados, e usar tecnologias e modelos de governança que o habilitem, protegendo e tendo uma via de duas mãos na governança desses dados. Ou seja, precisamos de estruturas organizacionais e tecnológicas para compartilhar dados onde a soberania e a segurança sejam respeitadas.

Todo o trabalho de programação precisa ter o viés dessa engenharia social, e seu propósito, como lembra Eli Pariser “Esse poder de criar novos universos é o que costuma atrair as pessoas para a programação. Escreva algumas linhas, ou alguns milhares, aperte uma tecla e algo parece ganhar vida na sua tela–um novo espaço se abre, um novo motor começa a funcionar. Se você for inteligente, poderá criar e manipular qualquer coisa que imaginar. “Nós somos como Deuses”, escreveu o futurista Stewart Brand na capa de sua obra Whole Earth Catalog (“ Catálogo do mundo inteiro”) em 1968, “e talvez até fiquemos bons nisso, Na visão de Brand, as ferramentas e a tecnologia transformavam as pessoas, que normalmente estavam à mercê de seus ambientes, em deuses capazes de controlá-los. E o computador era uma ferramenta capaz de se transformar em qualquer outra. O impacto de Brand na cultura do Vale do Silício e dos geeks em geral foi gigantesco–embora ele próprio não fosse um programador, seu pensamento moldou a visão de mundo do Vale do Silício.

A importância de programadores nesse desenho é extraordinária, pois são eles que vão estratificar os dados e moldar o futuro através da extração e novos usos desses dados.

Um programa pode fazê-lo, e a ilusão de que aquilo é “real” é poderosa. Eliza, um dos primeiros programas rudimentares de IA, foi programado com uma série de perguntas semelhantes às de um terapeuta e algumas pistas contextuais básicas. Mas os estudantes passavam horas conversando com o programa sobre seus problemas mais profundos: “Estou tendo dificuldades com a minha família”, escrevia um estudante, e Eliza logo respondia, “Conte-me mais sobre a sua família”. Quando a vida social é miserável ou opressora, o escapismo é uma resposta razoável–não é por coincidência que role-playing games, literatura de ficção científica ou fantasia e programação frequentemente andam juntas. O universo infinitamente expansível do código traz um segundo benefício: poder completo sobre o ambiente.

É sobre o poder desses dados que devemos nos debruçar na edificação de um novo desenho que aproveite o potencial dessa imensidão de novos dados, registrados das mais diversas formas.

Veja quantos dados podem ser registrados por seu computador seguindo apenas a sua rotina?

Quantas horas você digita.

Quais as palavras que mais usa digitando.

Para quem mais escreve.

Qual o intervalo de tempo na sua escrita de acordo com o assunto que escreve.

São inúmeras informações que podem ser colhidas apenas com nossos hábitos, na personalização da comunicação digital

Lembro o papel do governo, nessa transformação seja pela sua gigantesca base de dados, que vai dos dados financeiros até a nossa saúde que como nossos hábitos e relações, tudo devidamente registrado e pouco tratado.

A pandemia evidenciou esse papel, pois como lembra Antônio Salvador, “O governo pode ser protagonista no processo de transformação digital, estabelecendo regras que considerem todos os agentes envolvidos em cada negócio, desenvolvendo políticas públicas de inclusão e garantindo infraestrutura que favoreça o acesso à digitalização. Entretanto, vontade e debate público são imprescindíveis. Um bom exemplo no Brasil é a atuação do Banco Central (BC) com as fintechs, empresas que estão levando inovação ao setor financeiro. A postura do BC com quem está entrando no mercado é, essencialmente, a de observar e aplicar as regras mais básicas. Para evitar que a mão pesada da regulação mate as novidades, o regulador apenas acompanha e orienta. Após alguns meses ou anos, quando o modelo se prova mais sólido, gradualmente o BC impõe regras mais específicas e sanções caso sejam descumpridas. Outro bom exemplo do BC é a forma como está conduzindo a introdução do Pix, meio de pagamento que possibilitará transações instantâneas em qualquer dia e horário, e do open banking, regulação que permitirá o compartilhamento de dados, produtos e serviços entre instituições financeiras. O próprio governo também pode passar por uma transformação digital. Em 2020, os órgãos públicos brasileiros tiveram dificuldade de fazer o auxílio emergencial de R$ 600 chegar até a ponta durante a pandemia. A Defensoria Pública da União (DPU) e o Ministério das Cidades precisaram criar um serviço específico para ajudar mais de 40 milhões de pessoas que em junho, três meses depois do lançamento, ainda não tinham conseguido receber dinheiro do programa150.”.

Esse é um ótimo exemplo do uso de dados públicos para promover avanços sociais, um assunto quente pulsante e que merece ser estudado.

São dados usados para prender a sua atenção, e como todos disputam a sua atenção que é compartilhada ao mesmo tempo por diversos canais, Tv, celulares, aplicativos de redes sociais, entre tantos outros dispositivos que disputam a sua atenção, que faz com que o resultado seja mais desatenção.

Assim a mídia tradicional perde audiência de diversas formas:

  1. Nas nossas resid6encias a cada dia mais as pessoas assistem tv em ambientes separados, na disputa entre canais abertos, canais fechados e canais de streaming.
  2. As pessoas que hoje estão vendo uma programação, seja ela de tv aberta, fechada ou streaming quase sempre possuem um outro dispositivo no seu colo, logo são mais canais disputando a sua atenção.
  3. Com tantas plataformas e novas formas de encontrar conteúdo o resultado sempre será a falta de concentração, uma desatenção que faz com que anunciantes ou entregadores de conteúdo precisem produzir mais e anunciar mais nas diversas plataformas para a cada dia converter menos, ou seja só as plataformas digitais ganham com a sua desatenção, e dessa maneira mometizam conhecendo seis hábitos e seus dados, conduzindo e influenciando as suas escolhas.

Na sociedade da desatenção quem dá as regras são as big techs, que dirigem suas escolhas através da sua desatenção, que de tudo assiste e muito pouco questiona.

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