DA VINCI, OS ROBÔS E AS NOSSAS UNIVERSIDADES

A Transformação digital que ocorre de forma transversal em nossa sociedade atinge a todos ainda que de formas e intensidades distintas, seja para desigualar e aprofundar distâncias sociais ou para desequilibrar segmentos da economia organizada, afinal a história da humanidade sempre será a narrativa da transformação pelo avanço das tecnologias que modificam os meios de produção, e a dominação econômica exercida por quem está à frente dessas novas tecnologias, que modificam o mercado e a sociedade.

Por isso os centros de ciência e cultura, como as universidades, exercem um papel preponderante no desenho desse novo viés, e logo a passos largos as ferramentas digitais que aproximam as universidades da indústria, como simuladores, internet das coisas, big data e softwares diversos se tornam principais instrumentos de ensino nas faculdades, sendo fundamental o domínio dessas novas ferramentas em todos os campos de forma indistinta. Em especial os robôs parecem enfrentar um universo de transformações onde a produtividade deve enfrentar questões sociais muito sérias, como o desemprego na substituição acelerada do homem pela máquina, mesmo que seja por um chat bot.

Lembro que a ligação do homem com robôs, uma ligação cercada de amor, admiração, mas também medo não vem de hoje. Certamente, os autômatos podem ser considerados os primeiros robôs, ainda que com infinitas limitações.

Em 2019, quando o mundo relembrava os 500 anos da morte do homem que foi cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico, o que para muitos era considerado a epítome do chamado “homem renascentista”. Levou a estudiosos do mundo inteiro, a rever os projetos de Leonardo da Vinci, com muitos deles sendo revistos e recriados. São dois autômatos. Um leão mecânico criado exclusivamente para despejar lírios aos pés de um rei e um autômato humanoide.

Construído em madeira, metal e corda, a versão do autômato construída para ser exibida em diversas exposições pelo mundo tem 1,8 metro de altura por 2,74 metros de comprimento (um leão ficará em exibição permanente no Museu Leonardo da Vinci, em Milão). O mecanismo foi encomendado pelo Papa Leão X em 1515 para ser um presente para o novo rei da França, Francisco I.

O animal era uma imagem que unia o Papa (pelo nome) e o criador (Leonardo, no alemão arcaico, significa “forte como um leão”). O leão mecânico entraria no salão e despejaria uma braçada de lírios aos pés do rei. O propósito era mostrar a conexão entre a França e Leão X: o papa, nascido Giovanni de Médici, era filho de Lorenzo, o Magnífico, e natural de Florença; um lírio estilizado estava tanto no brasão de armas da França (fleur-de-lis) como no de Florença (Giglio Fiorentino).

Já o autômato humanoide, pode bem ser considerado uns dos primeiros protótipos de robôs. Era algo capaz de imitar alguns movimentos humanos como mover braços, andar, mover a cabeça através da flexibilidade do pescoço enquanto abre e fecha a mandíbula de acordo com o comando do dono.

Leonardo, que nasceu em 1452 na pequena cidade toscana de Vinci, continuou a sua investigação, a querer saber como as coisas funcionavam, apesar do “grave problema” da falta de materiais adequados na época para concretizar as soluções que propunha. O que sempre pode dar a dimensão do cientista que o era, pois concebia mesmo diante da dificuldade de materiais para época, o que acaba por lhe permitir apenas desenhar de forma detalhada o conceito, sem conseguir executar devido a essa limitação.

O que fica claro nos protótipos de helicópteros e aviões, que precisavam de uma força de propulsão além da humana.

A beleza dos desenhos de Leonardo da Vinci, refletem o seu espírito científico, de missão, de encontrar soluções, mas o exercício de pensar o futuro, ainda que distante.

Nesse sentido, a máquina voadora, precursora da asa-delta ou do planador, foi a forma que o inventor encontrou para tentar dominar a natureza e pô-la a funcionar a favor do homem, dadas as suas limitações. Na carta dirigida em 1482 ao duque de Milão, Ludovico Sforza, o seu primeiro mecenas, Leonardo garante que tem planos para pontes “seguras e indestrutíveis” e com as quais “o senhor poderá perseguir o inimigo e, às vezes, fugir dele”, planos para morteiros “muito convenientes e fáceis de carregar” e afiança que sabe “fazer canhões e artilharia leve”, o que parece se repetir na história, onde para se fazer ciência é preciso sim quem financie, mesmo que os resultados não sejam imediato, coisa que muitos governantes não entendem.

O humanoide (o cavaleiro mecânico), foi inventado para animar as festas na corte do duque de Milão. O boneco movia braços, levantava o visor do elmo, ficava em pé e sentava-se graças a um sistema de engrenagens, cabos e pesos, bem distinto dos robôs atuais que até pele sintética possuem, isso por volta de 1495.

Nos cadernos encontrados de Leonardo, que permitiu a reconstrução do humanoide, o robô é descrito como sendo coberto por uma armadura medieval alemã-italiana, e é capaz de fazer vários movimentos parecidos com humanos. Ele é parcialmente resultado da pesquisa anatômica de Leonardo no cânone das proporções, conforme descrito no Homem Vitruviano.

No trabalho dele já havia também a preocupação com a propriedade intelectual, uma curiosidade sobre isso é que Da Vinci era ambidestro, e para evitar ser copiado, escrevia ao revés. As páginas que escreveu “são quase todas invertidas” e para serem lidas é preciso normalmente um espelho, que dificultava os copiadores da época.

De forma acelerada no momento, as instituições de ensino estão tendo de se adaptar às inovações tecnológicas em sintonia com a indústria, que passou cada vez mais a utilizar essas soluções em rotinas profissionais, e o desafio é realizar a interação delas com as grades curriculares e com os constantes cortes de verba.

Big data é o conjunto de técnicas e ferramentas que permitem a análise dos dados, que por si só são números e não geram informação, logo imagine a sua importância nas disciplinas de estatística, seja nas pesquisas econômicas ou sociais. A internet das coisas, por sua vez, envolve sensores que enviam esses dados para a nuvem (ambiente digital) e permitem que os dispositivos conversem entre si. A inteligência artificial ocorre quando uma máquina consegue tomar decisões a partir da programação de algoritmo.

Com essas ferramentas disponibilizadas nos laboratórios de nossas universidades, é possível uma vivência próxima da realidade da indústria e do setor de serviços, o que deixa nossos estudantes ainda mais aptos para as novas demandas do mercado do trabalho.

Essas ferramentas mais do que projetar a realidade,  permitem que os estudantes construam conhecimento prático sem correr riscos, como no uso de simuladores.

Cursos como Engenharia de Robôs são novas realidades e ofertam um campo de trabalho gigantesco, nesse instante o Ministério da Educação reconheça mais de 40 graduações em Engenharia, cada uma com suas especificidades, e logo a tendência é de uma formação multidisciplinar.

A formação multidisciplinar, nessas engenharias exige uma conexão com as ciências sociais e o impacto econômico social dessas novas tecnologias.

No Brasil a FEI lançou, em 2019, um curso inédito de graduação em Engenharia de Robôs, que combina competências de computação, Inteligência Artificial, Engenharias Elétrica, de Automação e Controle, Mecânica, de Materiais, entre outras.

Enfrentar preconceitos, grades curriculares defasadas ou limites a pesquisa são apenas alguns dos enormes desafios nesses tempos atuais, mas o conhecimento e a ciência sempre serão a estrada obrigatória para transformação social que sirva a sociedade.

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