DA VINCI, AUTÔMATOS E OS NOSSOS ROBÔS

A ligação do homem com robôs, uma ligação cercada de amor, admiração, mas também medo não vem de hoje. Certamente, os autômatos podem ser considerados os primeiros robôs, ainda que com infinitas limitações.

Em 2019, quando o mundo relembrava os 500 anos da morte do homem que foi cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico, o que para muitos era considerado a epítome do chamado “homem renascentista”. Levou a estudiosos do mundo inteiro, a rever os projetos de Leonardo da Vinci, com muitos deles sendo revistos e recriados. Dois deles ganharam uma atenção especial para esse artigo. São dois autômatos. Um leão mecânico criado exclusivamente para despejar lírios aos pés de um rei e um autômato humanoide.

Construído em madeira, metal e corda, a versão do autômato construída para ser exibida em diversas exposições pelo mundo tem 1,8 metro de altura por 2,74 metros de comprimento (um leão ficará em exibição permanente no Museu Leonardo da Vinci, em Milão). O mecanismo foi encomendado pelo Papa Leão X em 1515 para ser um presente para o novo rei da França, Francisco I.

O animal era uma imagem que unia o Papa (pelo nome) e o criador (Leonardo, no alemão arcaico, significa “forte como um leão”). O leão mecânico entraria no salão e despejaria uma braçada de lírios aos pés do rei. O propósito era mostrar a conexão entre a França e Leão X: o papa, nascido Giovanni de Médici, era filho de Lorenzo, o Magnífico, e natural de Florença; um lírio estilizado estava tanto no brasão de armas da França (fleur-de-lis) como no de Florença (giglio fiorentino).

Já o autômato humanoide, pode bem ser considerado uns dos primeiros protótipos de robôs. Era algo capaz de imitar alguns movimentos humanos como mover braços, andar, mover a cabeça através da flexibilidade do pescoço enquanto abre e fecha a mandíbula de acordo com o comando do dono.

Leonardo, que nasceu em 1452 na pequena cidade toscana de Vinci, continuou a sua investigação, a querer saber como as coisas funcionavam, apesar do “grave problema” da falta de materiais adequados na época para concretizar as soluções que propunha. O que sempre pode dar a dimensão do cientista que o era, pois concebia mesmo diante da dificuldade de materiais para época, o que acaba por lhe permitir apenas desenhar de forma detalhada o conceito, sem conseguir executar devido a essa limitação.

O que fica claro nos protótipos de helicópteros e aviões, que precisavam de uma força de propulsão além da humana.

A beleza dos desenhos de Leonardo da Vinci, refletem o seu espírito científico, de missão, de encontrar soluções, mas o exercício de pensar o futuro, ainda que distante.

Nesse sentido, a máquina voadora, precursora da asa-delta ou do planador, foi a forma que o inventor encontrou para tentar dominar a natureza e pô-la a funcionar a favor do homem, dadas as suas limitações. Na carta dirigida em 1482 ao duque de Milão, Ludovico Sforza, o seu primeiro mecenas, Leonardo garante que tem planos para pontes “seguras e indestrutíveis” e com as quais “o senhor poderá perseguir o inimigo e, às vezes, fugir dele”, planos para morteiros “muito convenientes e fáceis de carregar” e afiança que sabe “fazer canhões e artilharia leve”, o que parece se repetir na história, onde para se fazer ciência é preciso sim quem financie, mesmo que os resultados não sejam imediato, coisa que muitos governantes não entendem.

O humanoide (o cavaleiro mecânico), foi inventado para animar as festas na corte do duque de Milão. O boneco movia braços, levantava o visor do elmo, ficava em pé e sentava-se graças a um sistema de engrenagens, cabos e pesos, bem distinto dos robôs atuais que até pele sintética possuem, isso por volta de 1495.

Nos cadernos encontrados de Leonardo, que permitiu a reconstrução do humanoide, o robô é descrito como sendo coberto por uma armadura medieval alemã-italiana, e é capaz de fazer vários movimentos parecidos com humanos. Ele é parcialmente resultado da pesquisa anatômica de Leonardo no cânone das proporções, conforme descrito no Homem Vitruviano.

No trabalho dele já havia também a preocupação com a propriedade intelectual, uma curiosidade sobre isso é que Da Vinci era ambidestro, e para evitar ser copiado, escrevia ao revés. As páginas que escreveu “são quase todas invertidas” e para serem lidas é preciso normalmente um espelho, que dificultava os copiadores da época.

Diversos são os autômatos que surgem inicialmente como brinquedos, o Instituto Smithsoniano possui em seu acervo um Monge-relógio com em torno de 380mm de altura que é possivelmente datado de antes de 1560. O monge é movido por uma mola e se mexe por um caminho em formato de quadrado, batendo em seu peito com o braço direito, enquanto levanta e se desce uma pequena cruz e um rosário na sua mão esquerda, mexendo sua cabeça, rolando seus olhos e falando rituais. De tempos em tempos, ele leva a cruz ao seus lábios e a beija.

Uma nova percepção em relação a autômatos foi tomada por Descartes quando ele sugeriu que o corpo de animais não seriam nada além de máquinas complexas, os ossos, músculos e órgãos poderiam ser substituídos por engrenagens, pistões e cames. Assim, a mecânica se tornou padrão de comparação em relação a natureza e ao organismo vivo, um estudo bastante polêmico para época, tal qual a polêmica que os novos usos de robôs vem enfrentando na sua ocupação de espaço na sociedade moderna.

Essa paixão por autômatos, também é relatada no cinema, no filme “Hugo”, de 2011, o personagem principal, Hugo Cabret, deve consertar um autômato em forma de homem, o qual ele e seu pai já tentaram consertar antes, acreditando que ele contém uma mensagem secreta deixada por seu pai antes de sua morte. Perto do final do filme, é revelado que o mesmo autômato foi criado por Georges Méliès, que doou o mecanismo para o museu onde o pai de Hugo trabalhava, depois que o próprio Méliès não conseguiu o consertar. Este filme é baseado no livro de 2007 intitulado “A invenção de Hugo Cabret”, uma bela obra que ilustra a paixão pelo homem e essas maquinas fantásticas.

Em alguns períodos da nossa história, os autômatos eram queimados, como se fossem representantes do mal.

Recentemente na cidade de São Francisco decidiu acabar com a proliferação de robôs de entrega de mercadorias de várias empresas que estavam timidamente começando a aparecer em suas calçadas. 

Após as severas limitações, cada empresa só poderá contar com um máximo de três robôs, haverá apenas um máximo de nove em toda a cidade, eles só poderão operar em determinadas áreas industriais com pouco tráfego de pedestres (o que praticamente elimina sua utilidade para entrega domiciliar), eles terão que ir a um máximo de cinco quilômetros por hora (atingiram um máximo de 6,5) , e deve ser compulsoriamente supervisionado por uma pessoa, ou seja o uso desse modernos autômatos nas calçadas de São Francisco, sofre limitação pelo regramento municipal, agora imagine eles andando em um futuro bem próximo por nossas ruas realizando entregas?

No caso de São Francisco, o argumento por trás das medidas era inspirado na proteção de idosos, crianças e deficientes, apesar de em todo o tempo que os robôs estiveram em testes na cidade, os robôs não geraram problemas ou acidentes com pedestres, e foram essencialmente “cordiais” no uso do espaço urbano.

Por outro lado, localidades como Redwood City, San Carlos, Sunnyvale ou Concord deram sua aprovação a vários programas de implantação de robôs desse tipo, assim como estados como Flórida, Idaho, Ohio, Virgínia ou Wisconsin.

Tudo é novo, logo esse enfrentamento entre costumes e normas deve se repetir em muitos lugares, e nesse período esses robôs sofrerão evoluções que devem reduzir essa resistência.

O embate homem e máquina não é um embate novo, é bom lembrar que historicamente surgiram em torno da tecnologia no nível social, desde a própria revolução industrial e os protestos dos luditas, quando da substituição dos homens pelas máquinas.

O mesmo embate ouve também na California com as empresas resolveram substituir trabalhadores imigrantes na colheita da laranja, por robôs.

Quanto tempo levará para a tecnologia concluir com sucesso um desenvolvimento adequado para uma tarefa tão mecânica? E quais são as atividades que irão incorporar primeiro essa mão de obra?

Não tenhamos dúvida, é um caminho sem volta, e por isso em muitos países já tratamos de um Direito dos Robôs, onde abordamos além da tributação a responsabilidade civil dos mesmos.

Seriam todos esses medos realmente justificados? Obviamente, ninguém quer imaginar ser perseguido pelo cão ou  mula robótica do Google, que também certamente o conheceria melhor do que você mesmo e poderia antecipar suas reações.

A economia deixa bem claro: a chegada dos robôs e o aumento que trarão em termos de produtividade serão a única possibilidade que teremos de financiar muitas das coisas, como o sistema universal de saúde ou os regimes de benefícios sociais. Da Vinci por certo ficaria encantando com os novos usos dos seus autômatos, enquanto isso, terraplanistas ficam pensando qual a distância até a borda do planeta. Que tempos!!

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